Corredor
Perguntaram a Rubem Braga o que era crônica e ele respondeu: “Se não é aguda, é crônica”
Por amor ou por desgosto, por orgulho ou por melancolia, nós brasileiros somos capazes de elogiar e criticar nosso país em uma mesma frase.
São infinitas aquelas que começam com: “O Brasil é o país da…”
“O Brasil é o país da piada pronta”. “O Brasil é o país em que os ratos põem a culpa no queijo”.
Envergonhados, reconhecemos que também somos o país do desmatamento, do feminicídio, da homofobia, da polarização, do futuro. Do futuro que ia chegar, mas se atrasou.
Também é verdade que repetimos outras expressões, que de tão desgastadas se tornaram clichês. O país solidário, hospitaleiro, tropical, do jeitinho; e também a pátria do futebol e do samba.
Eu, tardio aprendiz de cronista, lembro mais uma: “O Brasil é o país da crônica”. Não só pelos gênios do passado, mas também pela geração de ótimos e ótimas cronistas de hoje em dia.
Peguei emprestado o livro “Brincadeira sem Futuro”, do paulistano Ricardo Terto.
Ainda estou nas primeiras páginas e descubro um escritor empenhado em contar a vida na periferia com seus dramas e alegrias.
A primeira crônica nos hospeda em um apertado quarto de pensão. Lá, moram a mãe diarista, o pai alcoólatra, quatro filhos e uma enorme quantidade de caixas onde a família arrumou suas tralhas. Mudança modesta, porém, bem maior que o quarto.
Sufocada de responsabilidades e atormentada com a falta de espaço a mãe dá a ordem ao filho que deseja espalhar seus carrinhos: vá brincar no corredor. No caso, o corredor da pensão.
Na minha escrita de toda semana, vibro quando alguém me escreve algo mais ou menos assim: Cosme, essa história lembrou minha infância. Aprontei isso na adolescência. Têm os que se reconhecem no aqui e agora: Na minha rua rola isso toda hora. Meu marido e eu estamos passando por isso.
Pois essa história de criança ir brincar no corredor aconteceu muitas vezes no apartamento em que nasci.
Um acanhado sala e dois quartos, em um dos poucos prédios da rua Torres Homem, em Vila Isabel. No número 710 despontava o edifico Silvana, na época quase um arranha-céu com seus 4 andares. E era lá em cima, no 404, pertinho do céu, que eu e minha família morávamos. Eu e meus dois irmãos, o Pedro e o Roberto, brincávamos muito na rua. Mas também em casa, porque a gente brincava o dia todo. E à noite também.
Como os meninos da história de Ricardo Terto, a gente também se divertia no corredor. Só que no corredor do apartamento. A passagem era o caminho do quarto para a cozinha, do banheiro para sala. Não havia como não passar por ele.
Um corredor apertado, com no máximo uns 4 ou 5 metros de comprimento e 1,20 de largura. Um corredor muito simples, sem nenhum atrativo, nada de quadros ou fotos. Um corredor azul pálido com o chão de taco sem tapete.
Naquele pedaço do apartamento aconteciam ensandecidas disputas de pênalti, emocionantes campeonatos de botão, renhidos duelos de peteca e também jogos de Vareta, Dama, Dominó, Banco Imobiliário e Bingo, que minha avó Nonô chamava de Víspora.
Minha mãe, que sempre entendeu que brincadeira era algo seríssimo, participava e nos ensinava regras e macetes. Jogava batalha naval, forca e cabra cega, a sua preferida.
Era perto do Natal quando meu pai, o Edgar, estacionou o carro em uma avenida movimentada. Minha mãe no banco da frente e nós três atrás. Passam alguns minutos e lá vem meu pai com uma caixa enorme em cima da cabeça. Chovia, chovia muito. Ele segurava o embrulho com as duas mãos, desafiava os carros e do canto da boca pendia um cigarro Minister. Víamos com encantamento a intrépida brasa a enfrentar a cortina d´água.
Nosso pai trazia um presente para os três; um Autorama! Em pouquíssimo tempo o brinquedo já estava montado no corredor de casa, é claro.
Meu pai distribuiu os carros e cortou uma caixa de sapatos. Uma abertura na frente e outra atrás. Entrada e saída. Ela foi encaixada sobre uma parte da pista.
Nosso autorama – o maior e mais lindo autódromo do mundo – acabara de ganhar um túnel.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




