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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Perfume

“Eu sou um menino que precisa de dinheiro, mas para ganhar de sol a sol eu tenho que ser bananeiro.” O Vendedor de Bananas, 1973.

Banana

orge Bem ainda não era Benjor e o Brasil cantava o Vendedor de Bananas, um de seus muitos sucessos. A música homenageia o trabalho de um camelô sonhador e seu produto irrecusável: banana madura.

Antes disso, “Yes, nós temos banana” já tinha corrido mundo com Emilinha Borba. Depois, um bom baiano misturou chiclete com banana. Deu samba.

Banana é rima fácil, combina com bacana, bagana, cabana, sacana. Brota nas conversas de todo dia, já conquistou expressões: “preço de banana”, “república de bananas”, “fulano é um banana”, “casca de banana”.

Virou manchete quando Boris Casoy mandou uma banana para os deputados depois de um vergonhoso aumento de salário. Boris não deu a fruta, não. Foi uma banana indignada, com o cotovelo dobrado e a mão fechada. “Aqui ó pra vocês!”.

A fruta dá o ano todo, com chuva ou sol, no frio ou calor.

Banana é excelente para a memória, dizem. Boto fé e – talvez por isso –  lembre de uma loja acanhada e escura na avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, no início dos anos 1970.

Um túnel do tempo me leva a uma vendinha modesta, de frente estreita, bancada de madeira e luz mortiça a bailar no teto. O homem de cabelo engomado e avental manchado aguarda a freguesia. É o bananeiro do bairro. O único.

A loja fechou e não lembro mais se o que veio depois foi pastelaria, farmácia ou sapataria (será a falta de banana?)

No dia em que as portas baixaram de vez, um engraçadinho sacou trocadilho cuel: “É bananeira que já deu cacho.”

Eu passava por lá toda semana com minha mãe na volta da escola. Ela comprava, com poucos cruzeiros, duas dúzias da Prata embrulhadas em notícia velha.

Se não tinha mingau de Maizena, meu pai usava um garfo pesado e amassava a banana. Na primeira mexida, ainda sobravam pequenos pedaços brancos. Meu pai insistia, aumentava pressão e velocidade; logo se formava uma mistura bege, homogênea. Na manobra final do garfo tínhamos um creme. Aí ele polvilhava aveia e açúcar por cima. Eu e meus irmãos, Pedro e Roberto, devolvíamos os pratos limpos.

Quase sessenta anos depois, o que preservo da loja do bananeiro não é a imagem das pencas amontoadas, ou da mulher de cabelos presos que ajudava o marido com troco e embrulhos. O que sobrevive, íntegro e límpido, é o cheiro das centenas ou milhares de bananas no local pouco ventilado. Um aroma adocicado, quase enjoativo para estômagos mais frágeis. O perfume invadia narinas, impregnava roupa, grudava no cabelo.

O túnel do tempo desemboca na tarde vadia de uma quarta-feira. Estou no setor de frutas do mercado vizinho aqui de casa. Respiro fundo e constato a mudança: Ou o cheiro da banana ou o meu olfato não é mais o mesmo. O aroma perdeu personalidade. Serão os agrotóxicos, os transgênicos?

Soraia e Selma têm outras preocupações.

– Tá mais barata porque passou do ponto, compra pra fazer doce.

– A Marina tá de regime.

– Eu vou levar Nanica pra bater com leite e a da Terra pra moqueca vegana de amanhã.

Pego meia dúzia por quatro reais. Na cozinha de casa, eu, as bananas e Bem Jor.  O refrão avisa: “Os alquimistas estão chegando.”

Livre da casca grossa e lisa, a banana está nua. Mastigo devagar. Macia, firme, levemente doce e com uma pequena quantidade de caldo. Um suco que desliza entre dentes, língua, gengivas. Tento prolongar o prazer, mas a massa escorrega pela garganta. Acabou. Vai continuar daqui a pouco, como reforço no jantar de fim de mês.

*Luis Cosme Pinto é autor de Acabou, mas continua, da Cachalote.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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