Floresta
Nem tudo que a gente quer a gente tem, é da vida. Até que, de repente, descobrimos que o que já temos era o que desejávamos. Só faltava prestar atenção
Quase obsessão, meu desejo maior era um carro zero quilômetro. Bonito, veloz, estalando de novo. Queria chamar a atenção, viajar com a namorada, exibir minha prosperidade a 100 por hora.
Até que em uma tarde de sol, meu xodó foi levado. Recebi o seguro e virei passageiro do transporte coletivo. Fiquei livre do IPVA, do preço do combustível, dos estacionamentos.
Houve época em que eu engordava o olho nas camisas coloridas de meu chefe. Sonhava em ter pelo menos meia dúzia delas no armário. Com o tempo, descobri que não eram as roupas que despertavam minha cobiça, eram o poder e o salário dele.
As camisas de linho, que nunca vesti, e a bufunfa do fim do mês, que nunca recebi, jamais fizeram falta.
Minha amiga viaja duas vezes por ano ao exterior. Sorte a dela, pensei embaixo de uma cachoeira na Chapada dos Veadeiros. Quem disse que uma trilha no cerrado não pode ser melhor que um passeio em Paris? Na dúvida, olhe bem a mão que segura a sua.
Já ouvi muita gente boa garantir que a expectativa é nossa maior inimiga, não esperar tanto, seja da empresa, do seu time de futebol, ou das pessoas pode ser o caminho para diminuir a frustração.
Invisto algum tempo a refletir sobre o que queremos, no que temos de verdade e como muitas vezes queremos apenas porque não temos.
Por exemplo, tem gente que gosta mais de dinheiro do que de pessoas. Há outras que entre gente e bicho, escolhem o bicho; e há um terceiro grupo que entre o animal e a planta fica com a planta.
Questão de gosto ou desgosto, o certo mesmo é que nossa raça, a dos humanos, já teve dias melhores.
Conto agora uma história miúda que envolve cinco pessoas, bichos voadores, incontáveis plantas e algum dinheiro.
Há 7 anos mudei para um apartamento no centro de São Paulo. Fica em um prédio antigo, que no primeiro andar tem uma área externa grande. Um quintal no meio do concreto.
Logo pensei na casa cheia de amigos, nas festas. Para isso era preciso algumas melhorias. Eu consultava o proprietário, propunha uma divisão de despesas, e a resposta não mudava.
– Churrasqueira?
– Não!
– Ducha externa, que o verão vem quente?
– Não!
– Deck de madeira para esconder o piso velho?
– Não!
Que tal então espalhar vasos de plantas pela área? Aos poucos, o quintal triste, de piso rachado e paredes manchadas, ganhou cor, sombra, visitantes.
Pousaram sabiás, sanhaços; avoaram pardais, rolinhas; e gorjeiam por aqui outros tantos que desconheço os nomes. Saboreiam os pedaços de fruta largados sobre a terra e, bicudos, beliscam as minhocas escondidas lá embaixo.
O quintal já tinha seu encanto e criou novas raízes com a chegada da Regina e da Débora, mestras da jardinagem. Com inteligência e conhecimento, aproximaram as plantas que têm mais identidade. Isso mesmo, como amigas, as plantas se relacionam, se ajudam, se protegem, me ensinaram Regina e Débora.
Agrupadas, as plantas atraíram mais pássaros e refrescaram o cimento áspero. A nova paisagem reuniu Limoeiro e Primavera, aproximou Erva Cidreira de Alpínia, juntou Cáctus e Roseira; Boldo grudando na Palmeira, Amora roçando Hortelã.
O jardineiro Ricardo adubou, cortou, replantou. Ana Carmem deixou o fogão de lado e cuidou dos Antúrios e Lírios como se fossem seus netos.
O jardim ganhava volume e personalidade. Eu aprendia novos nomes: Dracena. Pacová. Cruzia. Jasmim-manga.
De dois em dois meses, Regina e Débora retornavam. Traziam mais mudas, ideias, alegria. Observavam o tamanho das folhas, a grossura dos ramos, a umidade da terra. Quando necessário, trocavam tudo de lugar.
Eu cuidava do mais fácil: à noite, ligava a mangueira e respirava o perfume da terra molhada. O jardim embalou e ganhou filial. No ponto mais iluminado da sala e na área de serviço arrumei, com a ajuda da Ana, Bromélias, Samambaias, Íris, Jiboia, Árvore da Fortuna.
A azaleia adoeceu, secou, murchou. A orquídea cresceu, floriu. Lá e cá, vida e morte.
O pé de maracujá, pelo menos 6 anos de idade, se espraia. Quando menos espero, um exército de lagartas dizima todas as folhas. Saciadas, as lagartas desaparecem. São as borboletas de amanhã.
Nasceu concreto. Brotou quintal. Madurou jardim.
Hoje, antes do sol acordar, enxerguei floresta.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



