Recreio
Naquela molecagem, praticada na mais íntima das arenas, o desafio era manter o anonimato
Entre o preto da lousa e o branco da folha de papel, o cinza da porta do banheiro era o melhor espaço para escrever. Ali, alunos do Instituto La-Fayette, “entra burro e sai pivete”, esbanjavam valentia para rabiscar o que não teriam coragem de falar ou mostrar em sala de aula.
Na solidão das cabines, com vaso sanitário e descarga de cordinha, a caneta bic trabalhava com intensidade.
Para provocar um colega qualquer em momento de concentração, um de nós sapecou: TÁ FAZENDO FORÇA POR QUÊ?
E outro gaiato anotou logo abaixo: SE LIMPA BEM DIREITINHO, NENEM.
Desafiadoras e ao mesmo tempo inocentes, as frases se multiplicavam: QUEM NÃO GRUDAR MELECA NA PAREDE VAI VIRAR MULHER DO PADRE.
QUEM NÃO COLA CHICLETE NO VASO VAI LEVAR CASCUDO NO CORREDOR POLONÊS
O futebol, claro, também ia pro “mural”:
MENGO É FREGUÊS DE CADERNINHO.
PURUCA E CREMÍLSON, ISSO É TIME?
DINAMITE MIL VEZES MELHOR QUE ZICO.
E quem seriam os dois irresistíveis galãs que, com caneta vermelha, travaram o seguinte duelo, na porta do último reservado, o único sem trinco.
BEIJEI A SIMONE. FOI DE LÍNGUA.
GRANDE MERDA, A SANDRA TÁ DOIDA PRA NAMORAR COMIGO.
DOIDA OU DOÍDA?
Professores e professoras nunca descobriram. Nossos mestres tinham seus próprios banheiros, certamente mais cheirosos e comportados.
Um dia o Instituto La-Fayette mudou de dono, de alunos e a tinta fresca cobriu nossos desejos e provocações.
Mas e o hábito de frasear nos banheiros, ainda resiste, depois de tanto tempo? Pelo menos na minha memória sim, mas ela, a memória, anda mentirosa.
A prova dos nove ou dos sete, busco em uma pesquisa, feita por mim mesmo, aqui na Vila Buarque. O “DataCosme” – vamos chamar assim – visitou seis bares e uma padaria. Vasculhou seus sete banheiros masculinos. Nenhum deles tinha nada escrito nas paredes. Nada.
É verdade que a decoração mudou, a maioria tem azulejo do chão ao teto e é quase impossível desenhar ou escrever sobre eles. Já a porta ainda é de madeira e está intacta. Nem um “A”.
O “instituto de pesquisa” analisa e conclui: a culpa é do celular. Quem hoje em dia anda com uma caneta no bolso e tem vontade de desabafar sobre o silêncio de portas ou paredes? É fácil imaginar qualquer um de nós sentado no vaso a rodar infinitas imagens na tela do seu telefone, enviar vídeo, digitar, mandar áudio, fazer um pix na intimidade do banheiro.
A jornada do DataCosme dá fome e almoço em um restaurante por quilo. Observo um jovem agoniado em frente à porta do banheiro que exibe uma placa: TANTO FAZ. Ele mexe na maçaneta, depois bate e lá de dentro alguém responde: “Tem gente”. “Aqui fora também tem”, o rapaz rebate. Dez segundos depois a mulher sai digitando. Absorta, nem lava as mãos na pia ao lado da porta.
Alto lá, então os escrevinhadores permanecem ativos, mudaram apenas de plataforma, como dizem.
Em um restaurante de beira de estrada o dono redigiu com urgência: AO MONTAR SEU MARMITEX, DEIXE UM ESPAÇO PARA O CHURRASCO. CASO NÃO HAJA ESPAÇO, NÃO IRÁ CHURRASCO.
Na saída, outro alerta, este em cor de sangue: NÃO BATER NA CATRACA! TENHA EDUCAÇÃO POR FAVOR. OBRIGADO.

Na fila do frango assado mais disputado da Vila Buarque, o bilhete de dona Miriam, a dona da loja, merece muito mais que seus onze segundos de leitura.
“Prezados Clientes que irão adquirir frangos assados,
por gentileza, mantenham livre a entrada do prédio. Grata, Mirian”.

Da boa vizinhança às vírgulas, passando pelo perfume do frango, quanta elegância.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



