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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Colheita

Uma tempestade de jacas desabou no centro de São Paulo

Vila Buarque, São Paulo (Foto: Luis Cosme Pinto)

O Super-Herói das nossas tardes voava.

É um pássaro? É um avião? Não, é o Super-Homem! A televisão anunciava a série de sucesso, ali pelos anos 1960.

É um vídeo para a rede social? É manutenção da rede elétrica? Não, é o super-homem, sussurro para mim mesmo em uma quarta-feira cinzenta, 60 anos depois.

O super-homem aqui da Vila Buarque está a dez metros de altura e por uma excelente causa. Rodrigo, este é o nome dele, dispensou escada, corda, ombros amigos. Subiu com a força dos braços e o impulso das pernas. Lá do alto, clama com fervor. “Pega aí”. “Garra ela”.

Olho em volta, não tem ninguém na rua, entendo que a gritaria é comigo. Tenho alguma pressa, mas sinto que estou diante de uma dessas surpresas que a vida nos oferece, é um presente. “Desfeita é pecado, menino”, ouvi para nunca mais esquecer.

Mas o que o super-herói da tarde vadia e quase vazia faz encarapitado no alto da árvore? O homem recolhe, com habilidade e firmeza, jacas. Elas têm mais ou menos o tamanho de duas bolas de futebol, mas o peso é muito maior e se multiplica em seu mergulho até a calçada.

Como muitos super-heróis de carne e osso, Rodrigo não tem ajudante. Não pode descer da árvore e, ao mesmo tempo, segurar a jaca. Agora, o sotaque mineiro ecoa, “panha ela aí sinhô, faz favor,”. Junto os dois braços com as mãos em concha, imitando os goleiros que encaixam a bola no peito. Porém, a jaca é pesada e passa velocíssima entre meus braços. O vexame só não é maior porque estico a perna e meu pé amortece a batida na calçada.

Rodrigo aprova e lança a segunda, a terceira, a quarta. Me viro do jeito que dá em meio à tempestade de jacas. Nenhuma delas se espatifa. Eu e Rodrigo comemoramos.

A mulher forte e ainda suada da academia se aproxima. Ela me ajuda a reunir as jacas. Acaricia as frutas, cheira uma delas. Rodrigo joga mais duas e os braços firmes e musculosos dela agarram com firmeza.

Ninguém pergunta, mas ela informa: “Sou vegana. Como moqueca de jaca, pastel de jaca, risoto de jaca, doce de jaca. Amo coxinha de jaca. Será que ele me vende?” Do meio dos galhos, Rodrigo responde. “É dez real sim senhora”. Ela sinaliza com o indicador, Rodrigo esclarece. “Cada jaca, sim senhora”.

A mulher continua, enquanto escolhe uma: “Essa é Jaca Dura. Ótima pra salgado. Também tem a Mole. Ai meu Deus! Dá água na boca só de pensar. E a melhor de todas: a Jaca Maçã. Pequenina. Precisa ver que suculenta”.

Começa a segunda parte da aventura. Rodrigo abraça o tronco grosso da jaqueira de casca áspera, arqueia as pernas e prende os pés. Ele desce em solavancos bem curtos. Solta os braços, desce um pouco e prende com as pernas, depois inverte: relaxa as pernas e firma os braços. Em alguns segundos está de volta à terra firme. Recebe 10 reais da mulher e me olha. Também pago e ele ajuda a escolher. “Não tenho como carregar, te dou de presente”. Ele aceita, bota todas as jacas em uma caixa de papelão e equilibra na cabeça. Ajeita o boné e some em uma esquina.

Agora atrasado, vejo amoras, também goiabas. À frente, mangueira frondosa. Um pomar urbano, semeado por pássaros, morcegos, bicho-homem.

Chego ao compromisso, o verde da camisa desbotou na altura do antebraço e da barriga. É o visgo da jaca, mas a gente também pode chamar de “Lembrança de uma colheita de verão”.

livro

*Luis Cosme Pinto é autor de “Acabou, mas continua”, da editora Cachalote. O livro será relançado nesta quinta-feira (5), na livraria Ponta de Lança, fica no mesmo bairro da jaqueira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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