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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Pega-pra-capá

O prefeito do Rio e o de São Paulo merecem férias de inverno na Sibéria pela atenção que (não) dedicam aos ciclistas

Créditos: Luis Cosme Pinto (Foto: Créditos: Luis Cosme Pinto)

Chacrinha, gênio da TV, balançava a pança e ensinava: "Quem não se comunica, se trumbica".

Quando se trumbicam nas urnas, políticos repetem como papagaios: "Não informamos ao eleitor o tanto que fizemos. Foi falha de comunicação".

A tal Verba de Comunicação, que normalmente é usada na propaganda pessoal dos políticos, seria bem investida em Campanhas Educativas e Informativas. E não faltam temas espinhosos para esclarecer; o uso das bicicletas é um deles.

Com a Covid e as necessárias restrições à circulação, houve uma enxurrada de entregadores nas ruas. Não se sabe ao certo quantos trabalhadores estão em suas motos ou bicicletas para atender quem não quer ou não pode sair de casa.

Só em São Paulo são mais de 600 mil, dizem.

Sabemos que por trás do escapamento ruidoso ou das pedaladas ladeira acima existe uma questão social: sobra trabalho precário e falta ensino de qualidade aos cidadãos menos favorecidos.

Mas há também um orgulho: o brasileiro quer ganhar seu dinheiro honestamente e ajudar o país a crescer.

Muitos ciclistas começam a trabalhar sem nenhum preparo, sabem apenas que é preciso entregar mais, e mais rápido. Também não conhecem o Código de Trânsito, simplesmente porque não foram apresentados a ele.

Os ciclistas seguem por todos os caminhos: calçadas, faixas de pedestre, passarelas, contramão. Muitos rodam a cidade segurando o celular, já que precisam saber qual será o próximo destino.

A postura da prefeitura paulistana é lastimável; até hoje não fez um trabalho educativo com ciclistas, pedestres, motoristas e motociclistas. Pior: abandonou as ciclovias e se recusa a fiscalizar.

Caminhe meia hora nos bairros mais movimentados de Rio e São Paulo e acredito que você me dará razão.

É comum as pessoas andarem ou correrem pelas ciclovias, que são menos esburacadas que as calçadas. Já os ciclistas pedalam em meio aos pedestres porque assim chegam mais rápido. Essa inversão tem nome: caos urbano.

Bicicletas devem obedecer às regras de carros: não podem avançar o farol, jamais circular por calçadas e, quando estiverem na rua, têm que seguir pelo lado direito. Precisam ter campainha ou buzina, retrovisor e luzes de sinalização para não ficarem invisíveis à noite. E o capacete, que a maioria recusa, é indispensável.

As guardas municipais e as companhias de tráfego, que são muito eficientes para multar, podem e devem orientar, mas fazem de conta que o problema não existe.

O Rio de Janeiro tem as ciclovias mais lindas do mundo: à beira da praia, na margem da lagoa, nas encostas das montanhas. Mesmo assim, muitos insistem em pedalar nas calçadas.

Nos bairros chiques, de calçadas largas, existe um agravante: as bicicletas elétricas. Grandonas, pesadas, velozes, circulam em meio a camelôs, mesas de botecos, carrinhos de bebê, idosos, pessoas em cadeiras de rodas, cachorros, gente mergulhada no celular. É um pega-pra-capá.

Será que o prefeito carioca nunca percebeu o pandemônio? Nunca imaginou que uma bicicleta elétrica pode matar um pedestre? Mesmo na ciclovia, precisam obedecer ao limite de velocidade. Aliás, qual é o limite?

Entregadores são decisivos em cidades congestionadas. As mochilas, absurdamente grandes e pesadas, levam muito mais que comida; carregam o remédio que ameniza a dor, o celular consertado, o sapato da festa de logo mais, o aparelho de audição, o livro a ser devolvido. "Cabe um mundo aqui dentro", me conta o Leonardo, enquanto mostra um jogo de dominó e dois baralhos que vai deixar ali perto.

Entregadores merecem respeito, proteção e segurança. Seguir as regras é bom para todos, principalmente para eles e para os pedestres.

A bagunça, ou turumbamba, como dizem no Brasil de cima, ameaça também aquele ciclista que não tem nada para entregar, deseja apenas se deslocar ou passear, queimando calorias em vez de combustível.

Ou será que os prefeitos ainda não sabem que pedalar é um antídoto para a crise climática?

Luis Cosme Pinto é autor de "Acabou, mas continua", da editora Cachalote.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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