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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Janeiro do Rio

Em nossas maiores cidades, a desigualdade não é apenas social e econômica, também é climática

Rio de Janeiro (RJ) - 26/12/2025 - Pessoas se protegem do sol no centro da cidade em dia de calor (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Adolescentes têm bons motivos para ficar muito tempo no banheiro. Lá em casa, em Vila Isabel, a gente ganhou uma razão a mais. Com o aquecedor que meu pai comprara, o banho de toda manhã era abundante e demorado. Do lado de fora, minha mãe se esgoelava: “Olha o gás.” “Tô olhando”, era a resposta de meu irmão, cheio de graça embaixo da água morna.

Então, janeiro apontava e, fosse qual fosse a hora, o banho era gelado. Mais de 50 anos depois, a crise climática se agrava e o calor é descomunal. 

Apesar da temperatura altíssima, o verão é aguardado com ansiedade. Chegam turistas, shows e festas se repetem e a euforia do Réveillon se junta ao Carnaval. Do ambulante da praia ao hotel cinco estrelas todos faturam.

O país e o mundo enxergam o Rio de Janeiro como Copacabana, Ipanema e Leblon, mas a maioria dos cariocas vive longe, muito longe do mar. Nos últimos dias, as manchetes anunciaram sensação térmica de 42 graus na praia. Já em Irajá, Bangu e Guaratiba, chegou aos 60!

Na última visita que fiz à cidade, uma amiga me convidou para almoçar e sugeriu o restaurante. Perguntei se a comida era gostosa e ela respondeu: “Não sei, mas o ar-condicionado é maravilhoso.” 

O carioca enxuga a testa e brinca com a dificuldade. E não é de hoje. Da calorosa Vila Isabel, lembro dos janeiros escaldantes e suas peripécias. 

Ar-condicionado era luxo e a gente parava em frente à única agência bancária do bairro. Lá de dentro vinha uma corrente fria, como se abríssemos um freezer. Adultos, crianças, todos paravam e olhavam como se procurassem algo no interior do banco... nada, só queriam alguns segundos daquela “fresca”.

Até o futebol da Rua Torres Homem se transformou. Por causa do asfalto em brasa, só jogávamos descalços até 9 da manhã. Depois, calçávamos ki-chutes e congas.

Atualmente, circula pela cidade uma dessas frases que só os cariocas são capazes de criar. Fico sabendo pelo Roberto, leitor atento e muito querido: 

- O calor tá de derreter manteiga embaixo do telhado. 

- Como é que é, Roberto? 

- É o seguinte: Ou a gente guarda a manteiga na geladeira, ou ela derrete. Eu abro a geladeira, passo a manteiga no pão e já devolvo lá pra dentro rapidinho. Embaixo do meu telhado é assim que funciona.

Adilson, 55 anos de Guadalupe, me liga de um shopping. “Vim aqui, mas não tenho nada para comprar, não. Trouxe de casa uma latinha de cerveja gelada e tô vendo o meu Flamengo aqui na praça de alimentação. O shopping é o único local fresco do bairro.”

Adilson conta que os termômetros dispararam nos últimos verões em Guadalupe. “Sufocaram os rios Pavuna e Acari para construir prédios. Sumiram com as matas e os brejos. Tá difícil até de respirar.” 

Mais gente. Mais poluição. Mais calor. 

Nesse fim de ano milhares de pessoas foram parar nos hospitais do subúrbio por causa de problemas causados pelo calor. E o mais cruel: em muitas comunidades falta água. 

Rio de Janeiro e Verão são parceiros desde os tempos de Estácio de Sá. Cariocas e turistas querem apenas sol, mar e a alegria da estação; dispensam o forno causado pela especulação imobiliária e devastação.

Um dos prédios mais bonitos e importantes do Rio chama-se Pedregulho, perto do morro do Tuiuti. Os apartamentos foram construídos no fim dos anos 1940 para abrigar funcionários públicos de baixa renda. 

O arquiteto Afonso Reidy aproveitou o terreno cercado de verde e usou pilotis, que elevaram a construção. Fez mais: criou vãos livres e paredes vazadas. Deixou o ar circular e provou que era e é possível amenizar o sufoco com projetos inteligentes, voltados ao bem estar dos moradores e não aos cofres das construtoras.

Perto dos 80 anos, o Pedregulho permanece altivo e sem medo dos janeiros incandescentes. Um refresco de bem-estar e cidadania.

Luis Cosme Pinto é autor de Acabou, mas continua, da editora Cachalote.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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