Penduricalho
Como serão as contas de quem controla as contas do Brasil?
uando a Belina do meu pai parava na praça da Bandeira, ele batia no volante e reclamava: “Tá tudo entupido!”. Era um jeito de dizer que o trânsito estava travado, emperrado, entalado.
Assim como algumas roupas ou dietas, palavras também saem de moda. Com o tempo, cariocas assumiram o “engarrafado”. Paulistanos consagraram o “congestionado”. Seja como for, tá todo mundo parado.
Horácio enfrenta esse mesmo problema todo dia, mas com um agravante: não pode mudar de caminho. Jamais. Horácio é motorista de ônibus. Dá o melhor de si em um dos piores trânsitos do mundo. Transporta milhares de pessoas e sofre com o estresse de quem não pode errar. O piso salarial de um motorista de ônibus em São Paulo é de 3 mil e 200 reais.
Quem já ficou internado em um hospital sabe a importância das enfermeiras e enfermeiros. Em todo o Brasil, esses profissionais começam recebendo 4 mil e 700 reais. O valor é bem parecido com o dos professores de escolas públicas, que entram em sala de aula recebendo 4 mil e 800 reais.
Será que em um país tão rico e ao mesmo tempo tão carente como o Brasil esses profissionais não merecem salários melhores? Tenho certeza que sim, todo trabalho é importante e merece ser bem pago.
Reforcei ainda mais meu ponto de vista depois de ler a reportagem de Luany Galdeano, na Folha de São Paulo, edição de 20/01/2026.
A repórter pesquisou as contas do Tribunal de Contas da União, o TCU. Observem que interessante, como serão as contas de quem fiscaliza as contas do país?
A manchete assusta: No TCU, 7 em cada 10 funcionários receberam salário que ultrapassa o limite constitucional.
O polpudo valor máximo para qualquer servidor público é de 46.366,19 reais. É muito, mas pode aumentar. Sempre há um jeito.
No site do TCU está escrito que o Tribunal tem um papel crucial no controle externo da administração pública fiscalizando a aplicação dos recursos. Está dito que o Tribunal investiga, combate a corrupção e por aí vai…
Mas como pode o “guardião” de nossas contas não seguir o limite definido na lei? A reportagem informa que, em um período de dois anos, 156 funcionários receberam mais de 80 mil reais pelo menos uma vez.
O TCU diz que segue a lei e que apenas devolve aquilo que foi gasto pelos funcionários.
Li e reli a reportagem. O caminho para não obedecer ao teto máximo é simples. Nem todo o dinheiro que os funcionários do TCU recebem é considerado salário. Há outros nomes, como adicionais, abonos, auxílios. Talvez de alimentação, vestuário, hospedagem, diárias, sabe-se lá mais o quê. Em Brasília, chamam esses presentes de penduricalhos.
Tudo que um trabalhador comum não tem e não vai ter.
Reembolsos disso e daquilo se somam e fazem com que um servidor tenha recebido em apenas um mês 264 mil reais. Em uma conta simples, faturou o salário de 53 enfermeiras.
A reportagem também me surpreendeu ao revelar que o TCU tem funcionários vivendo em Nova York, uma das cidades mais caras do mundo. São os representantes brasileiros em um conselho de auditores.
O chefe deles recebe em média 187 mil reais por mês. Pelos cálculos apresentados na reportagem, este mesmo chefe acumulou em apenas dois anos mais de 4 milhões de reais.
Como essas vantagens todas não são consideradas salário, mas apenas “verbas indenizatórias”, o imposto de renda não é cobrado sobre essa montanha de dinheiro. Mas vejam a contradição: são os nossos impostos, pagos com o nosso trabalho, que sustentam toda essa gastança.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



