Luis Cosme Pinto avatar

Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

125 artigos

HOME > blog

Casa verde, casa cinza

Na semana em que meu primeiro roteiro virou filme na Globo, publico novamente a crônica que inspirou a história exibida em Tela Quente

Casa verde, casa cinza (Foto: Luis Cosme Pinto)

Em São Paulo há um bairro chamado Casa Verde, é na beira do rio Tietê e, pelo que se conta, foi uma fazenda em que a casa “do sinhô” imitava a cor do mato e das árvores. O crescimento compulsivo da cidade engoliu a várzea e devastou quase tudo. A boiada mansa e a lavoura desapareceram. Só o nome resistiu.

No bairro em que moro também tem casa verde. Uma casa mesmo, dessas de morar ou abrir negócio. Tornou-se famosa por que ali se consertavam malas, bolsas e sapatos. Fosse o que fosse, de meia sola ou sola inteira, de fecho ou zíper, de remendo ou troca de rodinhas. Porfírio, uruguaio falante e habilidoso, não devolvia serviço. Trabalhava muito, cobrava pouco e freguesia nunca faltou

Num fim de semana, Porfírio encheu as próprias malas e se mudou. Deixou uma placa com o novo endereço.

Até as sábias sabiás sabiam. A casa verde iria ao chão a qualquer momento.

Uma construtora comprou a área para levantar um arranha-céu.

As vizinhas mais próximas à casa verde viraram poeira. Um boteco de prato feito, forte e farto; o salão da Dolores; o mercadinho da Solange; o chaveiro…

A casa verde, mesmo com a parte da frente vazia, depois da mudança do sapateiro, ainda permanecia porque nos fundos havia uma pensão. Dessas que alugam quartos para “rapazes solteiros e moças de família”.

A gente do bairro olhava impotente. Casa ou loja demolida soterra sentimentos,  histórias, convivência.

A melancolia não é só dos moradores. Pedreiros e ajudantes emprestaram talento e suor para construir cada parede. Pergunte a eles o que pensam dessa onda de demolições pela cidade. Se preferir indague a um escritor o que ele acha de rasgarem um de seus primeiros livros porque as páginas estão amareladas.

**

Poucos dias depois do fechamento da sapataria, uma tragédia estarreceu a Vila Buarque. A casa verde desapareceu de forma trágica.

Já conto a triste surpresa. Te peço um pouco de paciência para dar mais detalhes da casa de dois andares, janelas largas e seus moradores. Ali viviam oito pessoas. Oito solteiros, oito amigos e amigas. Quase uma família.

Usavam a lavanderia, a cozinha, viam TV, se revezavam em banhos ligeiros no único banheiro. Pagavam seiscentos reais por mês pelos pequenos quartos.

Todos trabalhadores. Otávio, cozinheiro na padaria da rua de trás. Dona Leila, funcionária de uma loja que conserta rádios e televisores. Joelson, manobrista. Elizângela, costureira. Márcio, mecânico.

Todos acordaram naquela madrugada com calor, fumaça e barulho. Sabe-se lá como, o fogo veio forte, engoliu portas, telhado, móveis.

Quem pôde correu pra rua e quem não pôde pulou pela janela. Foi assim com a dona Leila, uma senhora de olhos vivos e corpo esguio. Há 16 anos na pensão, ela sabia que não conseguiria sair pela frente. Saltou pra vida do segundo andar e foi resgatada pelos bombeiros. Sofreu um arranhão no cotovelo.

Já as roupas e a pequena mobília, que comprou no crediário, desapareceram.

– O que o fogo não queimou a água do bombeiro estragou, moço.

– A senhora tem pra onde ir?

– Meu patrão vai me ajudar, os vizinhos daqui também. É tudo boa gente. Por enquanto, vou para outra pensão ali na frente.

Dona Leila chorou junto com o amigo Otávio – o cozinheiro da padaria – a morte do vizinho aposentado. Um homem de 88 anos, que não conseguiu fugir das labaredas. Aparecido morreu queimado. Ele ajudava a administrar a pensão e uma vez por mês almoçava espaguete à carbonara em um restaurante em frente.

– Ontem mesmo a gente conversou. Eu vi quando ele levou o lixo pra fora. Agora é Otavio que me conta.

A notícia foi pra internet e mereceu míseros segundos no telejornal. A prefeitura ofereceu abrigo e cesta básica. Os vizinhos chegaram pra ver as ruínas da casa e dar uma força, mesmo sem saber o que se diz para quem perdeu o pouco que tinha. E o pouco era tanto.

Diante da vizinhança, o homem desabou nos braços de outra moradora da pensão, os joelhos dobrados.

– Se tivesse mais tempo, a gente salvava alguma coisa…

– Se tivesse mais tempo, a gente salvava o Apatrecido.

Pois é, o tempo.

A casa verde, de tantas décadas, agora cinza, resistiu, valente.

Já a morte de Aparecido não recebeu nem um minuto de silêncio, o bate-estaca não permitiu.

*O incêndio aconteceu em fevereiro de 2024. Dias depois, a pensão foi demolida. Para preservar a privacidade dos personagens da história, alterei os nomes.

**Escrevi o roteiro do filme Nossa Vizinhança em parceria com meu amigo Chris Duurvoort.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados