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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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Dark Horse: o cavalo de Tróia da moral bolsonarista

A fantasia moral começou a ruir

Dark Horse: o cavalo de Tróia da moral bolsonarista (Foto: Reprodução I Divulgação )
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“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. A frase enviada por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro parece saída de um roteiro ruim de série policial daquelas bem genéricas. Mas é real. E talvez seja o retrato mais perfeito da decadência moral do bolsonarismo, um senador da República, filho do ex-presidente que dizia combater o sistema, pedindo uma “luz” justamente a um banqueiro acusado de protagonizar um rombo bilionário.

É curioso como essa turma sempre encontra empresários “patriotas” dispostos a ajudar. Alguns compram joias. Outros financiam motociatas. Outros, aparentemente, despejam milhões de dólares em um filme biográfico do político mais bizarro da história do Brasil. Um filme chamado Dark Horse, aliás, nome apropriado para um projeto cercado de dinheiro nebuloso, versões contraditórias e personagens cada vez mais radioativos.

Segundo as revelações do Intercept, o combinado era um investimento de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para montar a epopeia cinematográfica do homem que transformou a Presidência da República num grupo de Telegram conspiratório. E pelo menos US$ 10 milhões já teriam circulado. Tudo isso enquanto o país enfrentava desemprego, fome e arrocho salarial. Mas, aparentemente, financiar a versão hollywoodiana do cercadinho do Alvorada era uma prioridade bem maior.

E reparem na beleza da narrativa bolsonarista. Quando o escândalo estoura, eles não tentam negar, nem explicar ou detalhar os contratos. Não. A defesa é quase poética, “zero dinheiro público, zero Lei Rouanet”. Como se corrupção privada fosse algum tipo de modalidade premium de honestidade.

Mas a pergunta que importa é por que um banqueiro acusado de protagonizar um rombo bilionário teria interesse em colocar dezenas de milhões de dólares num filme sobre Bolsonaro? Não estamos falando de um documentário independente, estamos falando de um projeto milionário, lançado às vésperas de uma eleição presidencial, sobre o principal nome da extrema direita brasileira. É justamente daí que nasce a dimensão explosiva do escândalo. Porque ninguém injeta esse volume de dinheiro por amor à sétima arte.

A suspeita surge exatamente quando relações financeiras nebulosas começam a se misturar com interesses eleitorais, influência política e circulação internacional de recursos. Independente de uma condenação judicial, politicamente o estrago já está feito, porque o caso desmonta o personagem que o bolsonarismo passou anos vendendo de ser um grupo antissistema, incorruptível e inimigo das velhas negociatas de poder.

A família que construiu carreira acusando universidades, artistas, sindicatos e movimentos populares de viverem de “mamata” agora aparece vinculada a um milionário esquema de financiamento privado para fabricar um épico messiânico eleitoral às vésperas da campanha presidencial. Não era combate ao sistema. Era disputa pelo controle do caixa.

Mas, agora, “lascou-se” tudo e até a fantasia moral começou a ruir. Pois quando se tira a fumaça ideológica, sobra um governo lembrado por negacionismo, genocídio, destruição institucional, motociatas, rachadinhas e tentativa de golpe.

E é impressionante observar o desespero dos aliados tentando – como ratos - abandonar o navio enquanto ele afunda. Mário Frias garante que nenhum dinheiro chegou ao filme. Flávio admite cobrança por parcelas atrasadas. Eduardo Bolsonaro aparece orbitando fundos sediados no Texas. O banqueiro sugere pagamentos “via Entre”. E todo mundo jura inocência com a mesma convicção de criança diante do pote de biscoito quebrado no chão.

Enquanto isso, setores da própria direita já se movimentam como urubus em torno da carniça eleitoral. Caiado posa de estadista responsável. Zema tenta vestir a fantasia de liberal sério. Michelle reaparece como reserva estratégica do bolsonarismo raiz. Todos sentem o cheiro de sangue político no ar, como verdadeiros vampiros.

No final das contas, nós bem sabemos que a extrema direita não desaparece automaticamente com um escândalo, nem uma dúzia. O bolsonarismo é menos um projeto político e mais um ecossistema permanente de ressentimento, desinformação e fanatismo digital. Mas episódios como esse corroem justamente o que restava de mais forte no discurso deles, de uma suposta superioridade moral.

No fim das contas, talvez Dark Horse tivesse mesmo potencial para ser um sucesso de bilheteria, daqueles recheados de muita bandidagem. Não faltou nem o banqueiro tentando fugir do país. Realmente, um roteiro de primeira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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