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Maurici de Morais

Deputado estadual (PT-SP)

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Data centers e o risco da falta d’água

Expansão dessas estruturas digitais ameaça agravar a crise hídrica e expõe a escolha política de priorizar o lucro tecnológico em detrimento do direito à água

Data center (Foto: Divulgação)

Os data centers deixaram de ser uma abstração tecnológica para se tornarem uma presença física, concreta e cada vez mais dominante no Brasil. São megaestruturas que sustentam a internet, a nuvem, a inteligência artificial e os serviços digitais. O problema é que, por trás da promessa de inovação e modernidade, esconde-se um custo ambiental altíssimo e pouco debatido: o consumo massivo de água.

Hoje, o Brasil conta com 195 data centers em operação, quase um terço deles concentrado no estado de São Paulo. O dado, por si só, deveria acender um alerta. Mas o cenário se torna ainda mais preocupante quando se observa o contexto em que essas estruturas se expandem: vivemos uma crise hídrica grave, com reservatórios nos níveis mais baixos dos últimos dez anos.

Estamos à beira do precipício, e a Sabesp e o governo Tarcísio de Freitas, que deveriam agir com planejamento, transparência e responsabilidade, têm feito pouco ou quase nada. Enquanto cruzam os braços, a população sente os efeitos da escassez no dia a dia. Desde agosto do ano passado, a Sabesp reduz a pressão da água todos os dias, entre 19h e 5h, como estratégia para conter o consumo e minimizar perdas por vazamento.

É a solução mais barata para a companhia, agora privatizada. De quebra, evita grandes obras de manutenção e a substituição de tubulações que, apesar de oferecerem uma solução mais efetiva para o problema, exigem investimentos robustos e, por isso, comprometem o retorno financeiro dos acionistas.

A redução de pressão é a medida mais injusta que pode ser adotada. Ela penaliza justamente quem menos consegue se defender: a população mais vulnerável, que não dispõe de caixa-d’água para armazenar o mínimo necessário, e os moradores das áreas mais altas e distantes das cidades, onde a água demora mais a chegar. Para milhares de famílias, isso significa torneiras secas por períodos ainda mais prolongados.

Se o regime de chuvas deste verão não atingir a média histórica, a tendência é que essa crise se agrave. É nesse contexto crítico que a expansão desregulada dos data centers se mostra ainda mais alarmante. Hoje, não existe uma regulação estadual robusta para orientar a instalação desses empreendimentos. As regras são definidas município a município, o que abre um vácuo perigoso.

Pressionadas por promessas de investimento, geração de empregos e desenvolvimento econômico, as prefeituras acabam seduzidas pelo discurso otimista das big techs e fecham os olhos para os impactos ambientais negativos desses projetos, especialmente sobre a água.

Os data centers utilizam dois sistemas principais de resfriamento: circuito fechado e circuito aberto. No fechado, considerado menos agressivo ao meio ambiente, cada megawatt de potência instalada exige cerca de 23 mil litros de água confinada, com reposição anual de aproximadamente 10% devido à evaporação.

Já no circuito aberto, o cenário é muito mais grave: o consumo chega a 1,5 mil litros de água por megawatt a cada hora, apenas para manter os servidores entre 18 °C e 27 °C.

Até 2024, a potência instalada em data centers no Brasil era de 843 megawatts. As projeções indicam um salto assustador para 3.144 megawatts até 2031. Isso significa multiplicar exponencialmente a pressão sobre os reservatórios. Mantidas essas condições, o volume de água consumido por esses empreendimentos no sistema de circuito aberto seria suficiente para abastecer uma cidade de 754 mil habitantes.

Trata-se de uma escolha política clara: priorizar o resfriamento de máquinas em detrimento do abastecimento de pessoas. Esse modelo não é aceitável; precisamos urgentemente de uma regulação que proíba a instalação de data centers de circuito aberto no estado de São Paulo.

O debate sobre esse tipo de empreendimento não pode ficar restrito à inovação tecnológica ou à competitividade econômica. Não se trata de ser contra a tecnologia ou o desenvolvimento, mas de exigir responsabilidade, planejamento, transparência e limites claros.

Essa situação lembra os problemas de abastecimento de água na cidade paulista de Itu durante a crise hídrica no estado, entre 2014 e 2016. A empresa de saneamento, privatizada em 2007, deixou a população sem água e priorizou o fornecimento para as indústrias de bebidas. A gestão privada foi marcada por falta de investimento, sucateamento de equipamentos, aumento de tarifas, além de graves racionamentos. No ano seguinte, devido à revolta da população, a prefeitura foi obrigada a encampar o serviço e criou a Companhia Ituana de Saneamento (CIS), uma autarquia municipal.

Água não é um insumo infinito, nem uma mercadoria invisível que pode ser sacrificada em nome do lucro. Água é condição básica de vida. Se continuarmos permitindo que decisões fragmentadas e interesses corporativos se sobreponham ao interesse coletivo, corremos o risco de transformar o avanço digital em um retrocesso civilizatório.

Precisamos escolher o futuro que queremos construir. Podemos ter a tecnologia a serviço da vida ou um modelo que sacrifica o direito à água em nome do lucro de poucos. Seja qual for o caminho, não podemos chamar de progresso o desenvolvimento que ameaça secar as torneiras da população.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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