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Jean Paul Prates

Ex-senador e ex-presidente da Petrobras

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Datacenters: parasitas digitais ou infraestrutura do século XXI?

O risco não está nos datacenters. Está na ausência de estratégia

Divulgação

A provocação feita pelo respeitado cientista Miguel Nicolelis, ao chamar datacenters de “parasitas digitais”, ecoa uma angústia legítima, mas erra o alvo e simplifica excessivamente um debate que deveria ser estratégico.

É verdade que algumas localidades nos Estados Unidos e na Europa passaram a restringir a instalação de novos datacenters. Mas não por rejeição à digitalização ou à computação em larga escala, e sim por falhas de planejamento territorial, energético e regulatório. Não se trata de banimento nacional ou setorial, mas de correção de rota em contextos específicos.

Os Estados Unidos continuam liderando o mercado global de datacenters. As grandes plataformas digitais seguem expandindo capacidade, inclusive investindo maciçamente em autoprodução de energia renovável, armazenamento e eficiência energética. O que mudou foi a lógica, datacenters mal localizados, desconectados da matriz energética e da estratégia regional, passaram a enfrentar resistência.

Chamar datacenters de parasitas ignora sua função sistêmica. Eles são hoje tão essenciais quanto portos, redes elétricas ou telecomunicações. Não há inteligência artificial, ciência de dados, automação industrial, medicina de precisão ou pesquisa de ponta sem capacidade computacional em escala.

O próprio trabalho científico contemporâneo, inclusive na neurociência, depende de clusters de processamento intensivo, simulações, aprendizado de máquina e análise massiva de dados. Criticar a infraestrutura que sustenta esse ecossistema equivale a criticar estradas enquanto se dirige um automóvel.

O ponto central não é se o Brasil deve ou não atrair datacenters. A pergunta correta é quais datacenters, onde, com que fonte de energia e com quais contrapartidas.

O Brasil possui uma vantagem estrutural rara, abundância de energia renovável, especialmente eólica e solar, complementaridade regional, capacidade de expansão e uma matriz elétrica já majoritariamente limpa. Em um mundo pressionado por metas de descarbonização, isso é ativo estratégico, não problema.

Negar a possibilidade de sediar datacenters pressupõe que o mundo permanecerá estático, sem avanços em armazenamento de energia, refrigeração eficiente, digitalização de redes elétricas e novos modelos de consumo flexível. A história da tecnologia mostra exatamente o oposto.

A eletrificação, a automação e a digitalização não são escolhas ideológicas. São processos irreversíveis. A questão é se o Brasil participará deles de forma inteligente, planejada e soberana, ou se continuará exportando energia barata e importando valor agregado digital.

Datacenters mal planejados podem, sim, ser enclaves improdutivos. Datacenters integrados a políticas de inovação, pesquisa, serviços digitais, educação tecnológica e indústria verde são infraestrutura de desenvolvimento.

O risco não está nos datacenters. Está na ausência de estratégia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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