De alcoólatra a maconheiro (4)
Baseado e fatos reais
Sexta, 11 da noite. Tocam a campainha. Muito estranho. Ninguém toca a campainha. Tocam o interfone. Ponho o baseado no cinzeiro, desligo o computador.
Atravesso o corredor muito preocupado. Está tudo como antes. O sofá, o quadro em azul e branco. A mesa rústica está arrumada. Quem está tocando a campainha a essa hora?
Chego até a porta.
“Quem é?”.
“Polícia. A sua esposa está bem?”.
“Claro que sim".
“O vizinho nos chamou, ouviu barulho. O senhor bateu na sua esposa?”.
“Não".
“Abra a porta".
“Um momento".
Volto ao escritório. Jogo pela janela o pacote de maconha. Ele cai em cima do telhado da garagem.
Abro a porta. Entram dois PMs.
“E esse cheiro? Estava fumando um bagulho?”.
“Não tenho nada, é só o cheiro".
Eles entram no escritório. Abrem as gavetas, derrubam os livros da estante.
Quebram pequenas estatuetas. Um deles vai até a janela.
“Tem alguma coisa em cima do telhado da garagem. Um pacote preto".
“Vou lá embaixo verificar".
Minha mulher dorme no quarto dela. As crianças também.
O PM volta com o pacote de maconha. Cheira.
“Maconha. Da boa".
“É um flagrante. Vamos para a delegacia".
As crianças acordam.
“Não posso ir. Vamos resolver aqui mesmo. As crianças não podem ficar sozinhas".
“E a sua mulher?”.
“Está dormindo".
“Vamos todos para a delegacia, acorde a sua mulher. Vamos todos. O senhor, sua esposa e as crianças".
“Não, esperem um pouco, vou chamar meu advogado".
Pego o telefone.
“Alô, Mônica? A PM está aqui em casa. Querem me levar para a delegacia. Flagrante de maconha. Você conhece algum advogado?”.
Ela responde que vai procurar alguém. Desligo.
“Não podemos esperar muito. Arrume as crianças. Vamos levar o senhor".
“Esperem um pouco. O advogado está a caminho".
Não sei se a Mônica achou alguém, não sei se o advogado está a caminho. Onze e meia. As crianças não estão entendendo nada. Vagam pelo corredor. Mas não choram.
Como fui estúpido. Não deveria ter aberto a porta. A polícia não pode entrar a essa hora. Eu deveria ter pedido para apresentar o mandado de prisão do juiz. Mas, por outro lado, se eu não abrisse seria pior. Uma confissão de culpa. Eles poderiam arrombar. E me levariam na hora, sem conversa. Eles são pacientes. Não estão me pressionando. Será que o advogado vai chegar? Que advogado estaria disposto a trabalhar numa sexta às 11 da noite?
Finalmente chega o advogado. É um puta de um advogado. Um fodão. Baixinho, cabelo na testa, óculos. Muito calmo.
“O que aconteceu?”, pergunta.
“Flagrante de maconha, doutor. Tenho que levar seu cliente para a delegacia".
“Não posso ir”, insisto, “vamos resolver aqui mesmo. As crianças não podem ficar sozinhas".
O advogado pede calma.
“Já disse, as crianças vão junto, sua mulher também”, diz o PM. “Ela será a testemunha".
O advogado fala comigo.
“Temos que ir, sim. Mas vocês não vão na viatura, vão no meu carro, tudo bem para vocês?”.
“Não tem problema, doutor. Mas não corra. Vamos seguir atrás".
A delegacia está vazia, ainda bem. Não tem repórter algum. Minha mãe não pode ficar sabendo. Teria uma convulsão. Ninguém pode saber. Vou perder meu emprego. Fim de carreira.
“Vamos esperar o delegado”, diz o escrivão. “Podem sentar naquele banco".
As crianças ainda não perceberam o que está acontecendo. É só uma aventura, um passeio. Não perguntam nada, não digo nada a elas. Não tem nenhum bêbado, nenhum assassino. Tudo calmo.
Chega o delegado. Não é um brutamontes. O “meu” advogado é seu velho conhecido. O PM entrega ao delegado o bagulho envolto em plástico preto. O delegado cheira. “É da boa.” Manda pesar.
“Meu cliente é um jornalista, gente boa, ficha limpa".
“Não importa, doutor, a lei é para todos, jornalistas ou jornaleiros. O senhor sabe. Vou fazer o B.O. É um flagrante".
O delegado manda falar com o escrivão.
Depois de bater na máquina de escrever meu nome, RG, endereço etc., etc., o escrivão puxa conversa.
“Que absurdo o senhor parar aqui por causa de um baseado. Um jornalista conhecido. Já li suas reportagens na IstoÉ. Maconha é só para relaxar. Ninguém sai assaltando e matando. Isso é coisa da cocaína. Quando eu trabalhava no Carandiru, a gente dava maconha para acalmar os presos mais nervosos. Escondido da direção".
Dezesseis gramas. Não dá cadeia pra ninguém. Já estamos há horas na delegacia. Daqui a pouco vai amanhecer. Ainda não sei qual será meu destino. Minha mulher não diz nada. Não pode testemunhar. Não viu nada.
“Vou liberar”, diz o delegado, enfim. “Negócio seguinte: seu cliente vai ter que comparecer no fórum uma vez por semana, por dois anos. Assinar presença. Não pode mudar de endereço ou de cidade sem comunicar ao juiz. Por dois anos. Mas se tiver outro flagrante não tem jeito. Vai puxar uma cana.
O advogado fodão cobra quase nada. “Quatro mil reais. Dividido em quatro vezes".
Estamos no seu carro, de volta para casa.
Ninguém me fotografou, não vai ter notícia no jornal. Minha mãe não vai saber. Ninguém vai saber. Dois anos a seco. Vou ter que aguentar dois anos. Não é nada perto do que podia ter sido.
(continua amanhã)
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




