De alcoólatra a maconheiro (final)
Baseado e fatos reais
EU: Opa! Quer tomar um café hoje ou amanhã?
ELE: Vamos sim. Chegaram umas camisas novas, você vai gostar.
EU: Blz. Que horas pode ser?
ELE: Eu tô em Taubaté, com a minha filha. Volto amanhã, sem falta.
EU: Putz, não diga isso. Já estou sem nada. Não sobrou nem uma pontinha.
ELE: Amanhã não tem erro. Saio daqui cedinho e aí passo na costureira para ver se ela já cortou o pano.
EU: Quer dizer que não tem nada em cima? Nem que seja um baseado?
ELE: Todo começo de ano é assim. E os caras estão parando tudo que é caminhão na estrada. Por isso tem um pequeno aumento. Esse país tá cada vez pior!
EU: Dinheiro não é problema.
ELE: Agora vai dar 550 reais. Mas é do verdinho.
EU: Não tenho ilusões. Esses fumos do Paraguai estão cada vez piores. Dá saudade dos velhos tempos. Há quantos anos a gente se conhece?
ELE: Nem me fale. Acho que desde 1977. A gente se conheceu naquela revista.
EU: De lá para cá já troquei mil vezes de emprego, já troquei de mulher, mas não troquei você.
ELE: Você é meu cliente número um. Assim que a costureira entregar as camisas eu te aviso.
EU: E tua mãe, como vai?
ELE: Está bem. Sempre às voltas com a cachorrada. Quando vou na casa dela dá até dor de cabeça, eles não param de latir. Mas ela gosta. Desde a morte do meu pai é a única distração dela.
EU: E a tua mulher, já fez as pazes com ela?
ELE: Tá cada vez mais pirada. Não para de pedir grana. Ela acha que sou um banco. As duas quitinetes estão vazias. O último inquilino deu um belo prejuízo. Tenho que reformar o banheiro e a cozinha. Esses pés de chinelo não se emendam.
EU: E a filha mais velha?
ELE: Essa vai bem, graças a Deus! Mudou de emprego, tá numa agência de publicidade. Tá aprendendo inglês. O sonho dela é morar em Miami.
EU: Ainda bem. Nem tudo está perdido.
ELE: E você, continua escrevendo?
EU: Fazer o quê? É o meu segundo vício. Se eu parar será meu fim. Não tenho vocação para vestir um pijama.
ELE: Eu sei como é. Sirvo muitos jornalistas. Tudo gente fina.
EU: Vem cá? E o Portuga? Ainda puxando cana?
ELE: Esse se deu bem. Ficou rico na cadeia. É um dos chefes do PCC.
EU: Não me diga. Vocês começaram juntos, não é?
ELE: A gente era unha e carne. Mas quando ele resolveu partir pra barra pesada, não acompanhei. Fiquei na minha. Devagar e sempre.
EU: Você nunca caiu?
ELE: Nunca. Sou amigo da polícia, um policial é meio parente meu. Uma vez me pegaram no Copan. Eu estava com 200 gramas. Escapei por pouco. Dei tudo pra eles e ficou por isso mesmo.
EU: Que sorte! Por isso você sumiu uma temporada?
ELE: Foi sim. Fiquei na moita. Ninguém dá sorte duas vezes.
EU: Fiquei muito cabreiro. Pensei: de duas uma: ou tá no hospital ou atrás das grades. Tive que me virar. Conheci um feirante que tinha daqueles fumos gourmet. Um cara incrível. Estuda filosofia! Mas era muito caro. Cinquenta paus o grama!
ELE: Caralho!
EU: Peguei umas duas vezes. Aí o fornecedor dele caiu. Ele ficou assustado e parou com isso. Depois um amigo apresentou outro. Ele mesmo plantava. Mas pra mim não dá. Não consigo fumar só um por dia. Tá certo, é muito mais gostoso, mas eu tô em outra. Não consigo escrever sem. Não consigo sair de casa sem. Tô velho pra mudar.
ELE: E seu filho? Ainda não fala com você?
EU: Falou que só volta a falar comigo se eu parar por dois meses! Imagina! Não consigo parar por uma semana! Antes conseguia. Hoje não. Me dá pesadelo! E fico muito irritado. Brigo com todo mundo! Nem eu me suporto!
ELE: Então tá. A gente se vê amanhã sem falta!
EU: Cara, eu tô te enrolando. Na verdade esta é a minha última conversa com você.
ELE: Vai dar um tempo?
EU: Não, vou parar mesmo.
ELE: Você que sabe. Se mudar de ideia, sabe como me encontrar.
EU: Tô nessa sabe há quanto tempo? Há sessenta anos. Todo dia. Todo dia. Tô empapuçado. Sempre com a boca seca. Acordo e já enrolo um.
ELE: Você ficou craque! Não precisa nem da carteira pra enrolar.
EU: É meu melhor talento. Ou era. Hoje assinei minha alforria. Eu era escravo dessa merda. Hoje dei uma de Princesa Isabel. Eu sou a minha Princesa Isabel! É meu dia da libertação do escravo. Quando meu filho mais velho nasceu, parei de fumar. Ontem nasceu a filha dele. E eu parei com isso aí! Eu tinha cinquenta gramas em casa. E vários papéis smoking. Joguei tudo no lixo!
ELE: Podia ter devolvido. Eu ia repassar.
EU: Achei melhor não. Por que passar pra outro uma coisa que não presta? Agora sou outra pessoa. Joguei no lixo aquele outro Alex!
ELE: Então tá. Vou sentir falta dos nossos papos. Dos nossos encontros na Real.
EU: Não vão faltar clientes pra você!
ELE: Adeus, amigo!
EU: Adeus! Se cuida!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




