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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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De como uma pesquisa se preocupa com o Banco Master na eleição

"O que não é do jogo é montar uma pesquisa de dois em dois dias, com perguntas direcionadas"

Logo do Banco Master na sede da empresa em São Paulo 18/11/2025 REUTERS/Amanda Perobelli (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Qual o motivo de se realizar uma pesquisa sobre o "escândalo do Banco Master"? A resposta é uma só: eleitoral. Neste ano, o de 2026, qualquer passo que se dê, para um lado ou para o outro todos os envolvidos irão apontar razões eleitorais para essas ou aquelas atitudes. É do jogo.

O que não é do jogo é montar uma pesquisa de dois em dois dias, com perguntas direcionadas, forçando a sociedade a se posicionar sobre tudo e mais alguma coisa, a fim de pautar a mídia e fornecer munição a ela para discorrer sobre o tema da vez, eleito nas reuniões de pauta, de modo a trazer para o debate o falso debate.

Imaginem perguntar para alguém na rua se já ouviu falar do Banco Master? Claro. Num país em que as pessoas simples ainda param na hora do jantar para ver o noticiário da TV, não é de se espantar que 65% dos 2.004 entrevistados pela Genial+Quest, digam que sim, já ouviram falar dessa história e sabem que o Vorcaro foi preso. O surpreendente é que haja, ainda, 33% que não tenham conhecimento sobre o fato, e 2% não estão nem aí para o que está acontecendo.

Mas as próximas perguntas começam a afunilar e colocar o coitado do entrevistado contra a parede, forçando a que ele preste atenção a que alguém está perdendo nessa história e não é só ele, o coitado que arcará com o rombo, já que o dinheiro para ressarcir os lesados sairá dos cofres públicos. Não. O que a pesquisa quer é que ele se dê conta de que alguém deverá ser responsabilizado pelo escândalo e afetado por ele. O mais honesto seria perguntar: — No colo de quem deve cair esse escândalo? —, mas aí ficaria "bandeiroso" demais. Então a pergunta vem edulcorada, com aquele tom "acadêmico": — Quem foi mais afetado negativamente pelo escândalo do Banco Master? — pelo entrevistador, ele responderia de pronto: — O governo Lula! — mas como há que manter um certo decoro, no questionário e nas respostas a ele, (só um tanto), 40% dizem que todos os poderes perderam. E, para surpresa, já que estamos em tempos de "empate", 11% dizem que foi o "governo anterior/Bolsonaro" e 10% "o governo Lula". Ok para esse ponto. Afinal, o governo anterior já acabou e quem segura o rojão no momento é o "governo Lula". Detalhe importante: nesse quesito, 17% não querem nem saber. Deram de ombros e saíram andando. Apenas 1% aliviou geral e respondeu: — Nenhum deles.

Mas ainda não está bom. O papo não foi direcionado o suficiente. Então vamos afunilar mais um pouco. A pesquisa só falta advertir: — Presta atenção às perguntas, pô! — e aí vem o desdobramento: — Quem foi mais afetado negativamente pelo escândalo do Banco Master? Posicionamento político.

Não basta apontar. Tem que ser dentro da ideologia. E de novo os entrevistados não cooperam e distribuem o prejuízo. A esquerda lulista aproveita a oportunidade e 31% apontam todo mundo com o prejuízo. É isso mesmo. Bota na conta de geral. A esquerda cirandeira, não lulista, vai além e 51% alargam essa margem. "É isso mermo! É de geral!", confirmam.

Os lulistas vão fundo e 30% debitam para Bolsonaro o "preju". Quem foi afetado é porque tem a ver com o problema, certo? Convenhamos, não estão errados não. A julgar pelas notícias veiculadas sobre o assunto, não há prejuízo que cole nele. Já na esquerda rosinha, só 22% arriscam apontar para Bozo, na hora do prejuízo.

Para 15% da direita bolsonarista, sim, Bolsonaro, coitado, já está sentindo o golpe. Mesmo lá de dentro dos seus 64 m² de Papudinha. Já os 26% bolsonaristas raiz parecem gritar: — Tão botando tudo na conta dele, mas o maior prejudicado deve ser o Lula, que não se posiciona, que não tá nem aí!

Daqui por diante a pesquisa descamba para o que se poderia chamar de "tendenciosa". Querem saber se lá em outubro, sete meses depois, na hora de votar, o entrevistado vai pensar: — Esse safado foi citado no escândalo do Banco Master! Não voto nele de jeito nenhum. Por isso a pergunta é: — Para definir o seu voto você: evitaria votar em qualquer candidato envolvido no escândalo do Banco Master; levaria o tema em consideração, assim como outras questões, ou não levaria?

Amigos, agora, no calor da hora, quando você liga qualquer aparelho e não se fala de outra coisa, que resultado você acha que deu??? Claro que 38% (e até foi pouco), responderam que, evidente que não votariam em candidato citado no escândalo ou que estivesse a pelo menos alguns metros dele. Para 29%, lá em outubro isso poderia pesar, medir, colocar na balança outras questões e votaria. E 20% é só rancor, envenenados que estão com esse bombardeio que esquece o Roberto Campos Neto, Ibaneis e outros tantos, mas faz um esforço imenso para puxar para perto o Palácio do Planalto. Não se surpreendam se aquele senador do Nordeste aparecer entre os mais bem votados... Alguém está lembrando dele no escândalo? Então... Bem fazem os 13% que não sabem de nada. Vão chegar levinhos na urna. Se bem que vão votar em branco, porque não acreditam mais em nada. Só na própria alienação. Teve desdobramento ideológico nessa pergunta também, mas nem vamos comentar. É chover no molhado.

Importante é o próximo questionamento: — Você confia no STF? Acreditem, deu quase empate técnico: 49% confiam e 43% não confiam. E, por região, zero surpresa. No Nordeste, são 52% a dar votos de confiança ao STF, enquanto 38% (os nordestinos já foram mais crédulos), não confiam.

No Sudeste, 51% não confiam (aposto que a maioria dos entrevistados foi de mineiros, que têm fama de desconfiados) e 42% confiam. No Sul, o não confia empatou com o Sudeste, nos 51%, contra 33% que confiam. O Centro-Oeste não ficou atrás: 50% não confia e 38% confiam.

Por renda familiar, pobres se juntaram aos ricos na desconfiança, sendo que os de até dois salários 46% confiam e 42% não confiam. Os de até cinco salários 52% não confiam e 41% confiam. Estão nesta faixa a maioria dos que frequentam igrejas neopentecostais, onde os pastores pregam contra as instituições. Entre os mais de cinco salários 55% não confiam e 42% confiam. Tudo muito parecido, nas respostas.

O requinte da manipulação e direcionamento vem agora, na seguinte pergunta: — Você concorda ou discorda que o STF tem poder demais; é importante votar em um senador comprometido com o impeachment dos ministros do STF; o STF é aliado do governo Lula; o STF foi importante para manter a democracia no Brasil.

Para 72% sim, o STF tem poder demais, mas 2% nem concorda nem discorda dessa opinião. São 18% os que discordam (pouquinhos os que não foram contaminados por essa ideia). Para 8% tanto faz, não devem saber para o que servem aqueles ministros, ou não se importam com eles.

Para a pergunta mais indutiva da pesquisa, se acham importante votar num senador que quisesse o impeachment dos ministros (do time dos que torcem: desmantela que a gente concorda!), 66% concordam, 2% não estão preocupados com isso, 22% discordam e 10% não querem falar sobre isso. Nem aí.

Mas agora vem a pergunta mais venenosa ainda: — O STF é aliado do Lula? São 59%, os que concordam. Outros 3% não concordam nem discordam, 26% discordam e 12% mandaram o entrevistador ver se estão na esquina.

Os pesquisados foram pinçados em um universo de 53% de mulheres, 47% de homens, com idade entre 16 e 34 anos, 31%; de 35 a 59 anos 46% e de 60 ou mais, 23%.

Desses, 42% têm o ensino fundamental, 39% o ensino médio e 19% com ensino superior. Foram 48% de católicos, os entrevistados, 28% de evangélicos, 8% de outras religiões e 16% não têm religião. Agora, caros leitores, vocês me dão licença que eu vou ali me empanturrar de manipulações, na TV, e depois eu volto. E não me falem de pesquisa tão cedo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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