Haveria, estaria, faria, não é jornalismo
"Erra Merval Pereira ao dizer que eles 'ficaram quietos' durante o julgamento do 8 de janeiro"
É uma extrema irresponsabilidade chamar os militares para dentro da crise do Banco Master, quando o país se encontra polarizado e com os nervos à flor da pele. Principalmente, sem apurar se de fato houve uma reunião entre o presidente da República, Luiz Inácio da Silva e os comandos militares.
O simples fato de serem mencionados no contexto em que a fala do jornalista Merval Pereira se deu, ou seja: na base do “ouvi dizer”, traz intranquilidade, levanta na sociedade a ideia de que eles, os comandantes militares, de fato estão a ponto de se envolverem na crise e podem influir e questionar o comportamento da alta Corte, o Supremo Tribunal Federal.
A obrigação, antes de mencionar tal fato seria apurar: quem, como, quando, onde e a que horas? Esses são os princípios básicos do jornalismo, ainda mais em se tratando de áreas sensíveis em momentos de fragilidade institucional que, diga-se de passagem, tem sido alimentada pela mídia onde o jornalista dá expediente.
Não que não haja a necessidade de se apurar com profundidade o que de fato se passou e quem está envolvido nesse lamentável enredo. Porém, chamar os militares nessa hora – é disso que se trata, está dando ideia e poder para que se intrometam -, só vai ampliar o problema.
Erra Merval Pereira ao dizer que eles “ficaram quietos” durante o julgamento do 8 de janeiro. Com os anos de estrada que tem, deveria saber que o lugar deles é esse mesmo. Quietos, cumprindo as suas atividades nos quartéis.
Não se meteram porque não era assunto deles. Houve uma tentativa de golpe de Estado em que eles chegaram até penúltimo capítulo. Participaram de cinco reuniões, demonstrando conivência, fazendo vista grossa para a conspiração que grassava no país, sem denunciar, sem se retirar dessas reuniões. Voltando à bica. E quase que o cântaro fica. Só não ficaram e foram até o fim pelas advertências dos EUA, de que restariam à deriva, sem apoio, caso mergulhassem de cabeça nesta aventura.
Muito cuidado nessa hora, com ilações, conjecturas irresponsáveis e “recados” repassados ao comandante em chefe das Forças Armadas, o presidente Lula. Que não seja um jornalista da sua estirpe e com a sua trajetória, a repassar recados.
“Olha, houve o julgamento do 8 de janeiro, nós não nos metemos, ninguém reagiu, vocês condenaram no Supremo quem eles quiseram, fizeram tudo e a gente está aqui assumindo essa coisa. Nós queremos saber o que vai acontecer no Supremo'”, relatou.
Não fizeram favor nenhum ao Brasil, não se metendo no julgamento recheado de provas robustas e denúncias graves. Não lhes cabia outro papel se não acompanhar com humildade o desfilar de vexaminosos generais e oficiais golpistas, malformados e deformados em sua compreensão da Constituição Federal, no banco dos réus da Justiça comum, que é onde são julgados pessoas que se envolvem em crimes, que foi isso o que fizeram. Tramaram assassinatos, tramaram convulsão social e não queriam pagar o preço?
Não, caro colega. Não foram condenados quem o Supremo quis. Foram condenados os que mereceram, aos olhos da Lei. Toda a documentação e provas que fundamentaram as penas que cada um recebeu foram fartamente debatidas, de forma transparente, pública, exibidas na TV.
O nome disso é chantagem. E tudo o que o país não precisa, nesse momento, é ouvir esse tipo de “recado” dos quartéis, onde deve imperar a hierarquia, a ordem e a obediência à Constituição. O que o jornalista está instituindo, com a sua atitude, é o uso do artigo 142, com a interpretação feita por Jair Bolsonaro, colocando os militares como os que podem intervir na vida nacional par e passo com os demais poderes da República. Não podem.
“Eu não consegui confirmar, mas haveria uma reunião ontem do Lula com os ministros militares, exatamente para desanuviar esse clima.” Haveria, estaria, faria, não é jornalismo, é provocação para tirar o país do rumo democrático. Se não conseguiu confirmar, não tem notícia, tem conjectura. E num rumo muito perigoso. Muita calma nessa hora.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



