Julimar Roberto avatar

Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

268 artigos

HOME > blog

Defender o direito ao Carnaval crítico é defender a democracia cultural

É preciso honestidade aqui. Existe diferença entre respeitar a fé das pessoas e blindar o poder político que usa a fé como escudo

Defender o direito ao Carnaval crítico é defender a democracia cultural (Foto: Reuters)

Em ano eleitoral, a Acadêmicos de Niterói encostou o Sambódromo Marquês de Sapucaí na ferida brasileira de permitir — ou não — que a cultura popular fale de classe, poder e religião sem pedir licença. Por isso, o rebaixamento da escola não pode ser lido apenas como uma derrota técnica.

A primeira coisa a dizer é o óbvio que muitos tentaram esconder com barulho, que a escola caiu porque o regulamento manda. A 12ª colocada desce para a Série Ouro. E foi essa a posição da Acadêmicos, com 264,6 pontos, após perdas principalmente em Harmonia, Fantasias e Alegorias. Carnaval tem regra, pontuação, critério. Quem acompanha sabe que o julgamento é duro e que qualquer erro pode custar caro.

Mas o óbvio não esgota o real. Quem conhece o desfile sabe que a avenida é mais do que uma passarela. É um parlamento popular a céu aberto — feito de plumas, suor, costura, batida e disputa de narrativa. O próprio Manual do Julgador admite que avaliar expressão artística envolve subjetividade – subjetividade, entendeu?! - Por isso insiste que jurados não podem considerar popularidade, reação do público ou opinião de comentaristas. Essa lista do que não deve ser levado em conta existe porque, na prática, existe pressão.

E pressão foi o que não faltou.

Antes mesmo do desfile, tentaram sequestrar o enredo com a linguagem do Direito Eleitoral. Partidos recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral para barrar a apresentação, alegando propaganda antecipada. A Corte negou a liminar por unanimidade. O argumento foi direto. Restringir previamente uma manifestação artística seria censura, e não havia elemento concreto de ilegalidade naquele momento. Em tradução simples, não se pode matar a arte pelo medo do que ela pode provocar.

Em outra frente, houve tentativa de impedir o samba-enredo via controle de recursos públicos, sob o argumento de desvio de finalidade. Técnicos chegaram a reconhecer o pedido, mas destacaram que a fiscalização deve recair sobre contratos e transparência — não sobre o conteúdo artístico. Ou seja: controle, sim; censura, não.

Depois do desfile, a ofensiva mudou a roupagem. Saiu a toga eleitoral, entrou a batina moral. O alvo passou a ser a ala “Neoconservadores em conserva”, concebida como sátira a um bloco político que atua contra pautas trabalhistas, como o debate sobre o fim da escala 6x1, por exemplo. Culparam a escolha estética que, ao misturar crítica política com referências religiosas, abriu espaço para que o debate fosse deslocado da política para a acusação de preconceito.

A OAB-RJ classificou a apresentação como intolerância religiosa. A Arquidiocese do Rio de Janeiro divulgou nota cobrando respeito à fé e à família. Em vez de discutir a crítica ao projeto político conservador, o foco foi deslocado para a identidade religiosa. A sátira ao poder virou acusação de ataque à fé.

É preciso honestidade aqui. Existe diferença entre respeitar a fé das pessoas e blindar o poder político que usa a fé como escudo. O Carnaval sempre satirizou reis, generais e coronéis. E, quando não satiriza, reconta a história do ponto de vista de quem não aparece nos retratos oficiais que são os indígenas, negros, pobres, operários. Não por acaso, pesquisadores apontam o desfile como espaço de disputa de narrativa. O caso do “Jesus da gente”, da Estação Primeira de Mangueira em 2020, tornou-se referência acadêmica exatamente por esse embate com setores conservadores.

Em 2026, porém, essa disputa ganhou um combustível perigoso da moralização agressiva. Um pastor chegou a afirmar que carnavalescos e foliões “se lembrariam” de suas ações quando estivessem com doenças graves. Isso não é crítica cultural. É violência simbólica travestida de profecia. É chantagem espiritual como método de pressão política.

Defender a Acadêmicos de Niterói, portanto, não significa dizer que o desfile foi perfeito. Tampouco negar que houve riscos na escolha estética. Significa afirmar que a avenida não pode virar uma capela ou um altar — um espaço onde só se fala se ninguém se incomodar. O Carnaval é patrimônio vivo, nascido da resistência negra e popular. É um dos poucos espaços em que o povo trabalhador transforma sua experiência em poesia coletiva.

A própria escola afirmou isso em sua defesa, ao contar a trajetória de um trabalhador que chegou à Presidência da República como narrativa do Brasil. A homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva não era apenas biográfica. Era simbólica. Era o retorno da classe trabalhadora como protagonista da festa, num país que insiste em relegar o povo à plateia.

É por isso que houve tanta pressa em enquadrar, barrar, auditar e moralizar. Porque a disputa não é apenas estética. É política. É sobre quem pode falar, quem pode narrar, quem pode simbolizar o país.

Diante disso, a queda para a Série Ouro precisa ser enfrentada com estratégia, não com resignação. Se tentaram arrancar a política da avenida, a resposta deve ser ainda mais política no sentido popular com mais comunidade, mais base, mais trabalho territorial, mais diálogo. O samba sempre foi escola de organização. Sempre foi sindicato da alegria.

A Acadêmicos de Niterói caiu na tabela. Mas o que está em jogo é maior. Trata-se de decidir se o Carnaval continuará sendo espaço de voz para os trabalhadores e as trabalhadoras ou se voltará a ser um espetáculo domesticado, onde o povo pode cantar, mas não pode dizer o nome de seus conflitos.

Defender o direito ao Carnaval crítico é defender a democracia cultural. É cobrar transparência, proteger a criação artística e rejeitar a intimidação religiosa como forma de silenciar o debate público. Porque, no fim, a pergunta é simples: até quando deixaremos que nos arranquem a voz da garganta?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados