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Décio Lima

Presidente do Sebrae Nacional

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Democracia e compromisso com o Brasil

Ética, respeito às diferenças e defesa da democracia: valores essenciais na vida institucional e no compromisso com o país

Décio Lima, presidente do Sebra Nacional. (Foto: Larissa Carvalho/Sebrae)

Há momentos na vida pública em que mais importante do que ocupar um lugar é compreender o sentido do espaço que ocupamos. E, diante desses momentos, há palavras que ganham uma dimensão maior. Ao tomar a decisão de me afastar temporariamente da presidência do Sebrae, quero destacar duas palavras que considero fundamentais: perdão e gratidão.

Perdão pelos erros humanos, naturais, que podem ter acontecido ao longo de uma trajetória de convivência, trabalho e responsabilidade coletiva. A vida pública, como a vida humana, não é feita de perfeições. Todos os dias somos chamados a lidar com desafios, tensões, divergências, incompreensões e adversidades que fazem parte da condição humana e da complexidade da vida em sociedade.

Por isso, reconhecer a humanidade das relações também é um ato de maturidade política. A segunda palavra é igualmente indispensável: gratidão.

A gratidão aqui é grandeza. É a capacidade de compreender o outro, de respeitar as diferenças, de administrar a diversidade e de sustentar a convivência democrática, mesmo quando as posições não coincidem. É o que humaniza a política, o que civiliza as instituições e o que permite que o campo das ideias prevaleça sobre o campo da hostilidade.

Foi esse espírito que busquei cultivar em minha trajetória: a crença de que nenhuma construção coletiva é sólida se não estiver fundada no respeito, na escuta, no diálogo e na compreensão das adversidades que cada ser humano carrega consigo.

É por isso que também faço aqui um registro de gratidão.

A diversidade de pensamento, de visão e de posição não fragiliza uma instituição; ao contrário, a fortalece quando existe compromisso com o interesse público e com a missão maior que nos une. A democracia, afinal, é exatamente isso: a capacidade de conviver com a diferença sem abrir mão do compromisso coletivo.

Tenho convicção de que uma das maiores virtudes da vida institucional é a solução de continuidade. Instituições sérias não se organizam por rupturas, mas por permanências responsáveis. Não se constroem por sobressaltos, mas por equilíbrio. Não se legitimam pelo improviso, mas pela maturidade de saber que projetos coletivos são sempre maiores do que indivíduos.

É nesse espírito que reafirmo minha confiança de que a continuidade administrativa e institucional é o caminho mais adequado para preservar a excelência do ambiente que construímos, mantendo o foco no fortalecimento do empreendedorismo e na missão pública que o Sebrae cumpre diante do Brasil.

Mas esta reflexão não se encerra na dimensão administrativa. Ela alcança algo ainda mais profundo: o papel que cada um de nós deve exercer diante da democracia brasileira.

Faço parte de uma geração que viveu os intensos debates da ditadura e do autoritarismo. Somos herdeiros de um tempo em que a democracia não era uma garantia, mas uma conquista. E é exatamente por conhecer o valor dessa conquista que não posso tratá-la como algo trivial.

A democracia brasileira pode não ser perfeita. Ela tem falhas, contradições, limites e correções que precisam ser permanentemente enfrentados. O Estado brasileiro ainda carrega desigualdades, insuficiências e distorções que exigem coragem pública e compromisso reformador. Mas, ainda assim, com todos os seus defeitos, nada no mundo contemporâneo é superior ao regime democrático.

A democracia continua sendo o melhor instrumento civilizatório para garantir liberdade, pluralidade, participação e justiça social.

Por isso, acredito que cada um de nós tem o dever de contribuir com aquilo que a sua consciência e a sua trajetória exigem. Há momentos em que servir também significa saber se afastar para cumprir outra missão. Há momentos em que a responsabilidade com o país, com a história e com a democracia nos convoca a novos gestos.

E eu pertenço àqueles que acreditam que não se pode viver de forma indiferente ao lugar onde se nasceu, à sociedade em que se vive e ao povo ao qual se pertence. Quem não cuida da sua comunidade, quem não pensa o país em que vive deixa de cumprir uma das maiores responsabilidades da existência humana.

Ao final de tudo, o que fica não são apenas os cargos ocupados, mas os valores que sustentamos ao ocupá-los.

E é por isso que, ao olhar para este ciclo, volto às duas palavras com as quais comecei: perdão e gratidão.

Porque sem perdão não há humildade.

Sem gratidão não há humanidade.

E sem humanidade não há democracia digna desse nome.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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