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Francisco Attié

Escritor e jornalista. Seus textos e fotos são publicados na revista GQ e no jornal Gothamist em Nova Iorque

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Dias de Calor e Guerra: Sem Neymar, Sem Problema?

Indagações e comentários após minha primeira semana cobrindo a seleção brasileira nos Estados Unidos

Carlo Ancelotti conversa com o diretor de imprensa da CBF, Fábio Seixas, no CT da seleção brasileira em Morristown, Nova Jersey. (09/06/2026) (Foto: Francisco Attié)
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Foi uma primeira semana muito quente nos Estados Unidos. No centro de treinamento da seleção brasileira, há um caminhão de problemas para se resolver. Em meio à duras críticas em relação ao desempenho do time (pré e pós a estreia na copa), Carlo Ancelotti trabalha variações em seu esquema tático, Trump mente sobre um acordo de paz com o Irã, e Vini Jr. volta a ser decisivo pela seleção brasileira.

Terça, dia 16, pela manhã, flagramos Vini conversando com Ancelotti durante o treino. Sem Neymar. Mais uma vez, os “exames” apontaram que uma lesão de grau dois continua sendo uma lesão de grau dois — Neymar não está apto para jogar futebol, Bruno Formiga. No sábado, a seleção brasileira estreou em copa do mundo sem o craque pela primeira vez em 12 anos. E Vinícius Jr. decidiu o jogo pelo Brasil.

Agora em Morristown, Nova Jersey, sob sóis de quase quarenta graus, Ancelotti conversa com Vini, o craque do time, enquanto o Brasil elege novas polêmicas noticiáveis.

Vini Jr. e Endrick treinam em Morristown (09/06/2026)
Vini Jr. e Endrick treinam em Morristown (09/06/2026)(Photo: Francisco Attié)Francisco Attié

No sábado, 13 de junho de 2026, a seleção brasileira estreou na copa do mundo. O time, pouco inspirado, arrancou um empate da seleção do Marrocos, uma das grandes seleções da copa.

O torcedor brasileiro, que não precisa de muito para acreditar no delírio do hexacampeonato, se viu mais rabugento do que o normal após o apito final. O comentarista da TNT, Vitor Sérgio Rodrigues, o VSR, condenou até os jornalistas pelo resultado (ele mesmo, inclusive), e pediu uma investigação sobre Carlo Ancelotti e a CBF, para que se averigue a razão pela qual Endrick não é escalado com mais frequência.

VSR está nos Estados Unidos, cobrindo a seleção. É um dos vários jornalistas que esbarro durante os treinos em Nova Jersey. Me sinto às vezes como se estivesse em um parque de diversão: conversando com PVC, fazendo amizade com PV, e esbarrando sem parar em VSR. Chamei até o Alex Escobar de Lédio…

Dentre as conversas que ouço ali, Endrick fez parte de muitas. Não penso que o Ancelotti esteja só sendo chato em relação a ele. Gosto de lembrar que Ancelotti foi o técnico que deu chances cedo para Vinícius Jr. e Rodrygo no Real Madrid, para Kaká no Milan, e Richarlison no Everton. Já foi técnico dos grandes times da Europa, e do Everton. Não o vejo como um técnico implicante ou inflexível. Mas após o primeiro jogo da copa, muitos no Brasil se convenceram de que a seleção talvez esteja à mercê de um Dorival que parla

Na estreia, Ancelotti montou um time pensando no sistema defensivo. Escalou um zagueiro na lateral (Roger Ibáñez), um atacante para marcar zagueiro (Igor Thiago), e sacou, no intervalo, os dois jogadores que complicaram a defesa: os amarelados Ibáñez e Casemiro. Ancelotti pediu para o torcedor brasileiro prestar atenção na defesa, dando a Vini a liberdade que precisa para fazer gols. Mas como bons brasileiros que somos, preferimos ficar no ataque.

Aí entra o Endrick (ou fica no banco, no caso), que é símbolo de uma discussão muito maior sobre a seleção do time — é uma discussão que começou na convocação.Assistindo à convocação — aquele evento cafona, multi-estrelado, saco-puxado, pouco interessante — me senti um pouco ofendido quando ouvi o nome de “Neymar.” Não tanto pela pessoa que é (ser humano pouco notável), mas principalmente porque não joga futebol com alguma consistência a dois anos. Neymar nestas últimas temporadas, pós-copa de 2022, passou um terço do tempo na Arábia, um terço na banheira de gelo, e um terço na farra. Mas para o craque o tempo não passa. Se imagina na terra do nunca, como o jogador que um dia já foi, descolado da realidade. É mais um bilionário, agenciado pelo pai, favorecido pela grande mídia, adorado por pelo menos metade dos brasileiros que bebem detergente. É favorito dos tabloides e das revistas de fofoca. Neymar, nos últimos anos, viveu mais a vida de uma socialite do que a de um jogador profissional de futebol. Mas mesmo assim foi convocado para copa. O Casagrande, daqui de Nova Iorque, o acusou de ter feito de tudo para não ser convocado.


Hotel da seleção brasileira em Basking Ridge, Nova Jersey (09/06/2026)
Hotel da seleção brasileira em Basking Ridge, Nova Jersey (09/06/2026)(Photo: Francisco Attié)Francisco Attié

Na concentração, Neymar é mantido longe da imprensa, trancado a sete chaves. Os diretores de comunicação da CBF são muito bem treinados, muito atentos às tradições brasileiras, e bem enturmados com os veículos de comunicação. Vazamentos sobre suposta amante de Samir Xaud à parte, os diretores de imprensa da CBF vazam o que querem, quando querem. Durante a coletiva de Ibáñez, a pergunta mais feita ao zagueiro, foi sobre sua conversão, dentro do Ancelottismocontemporâneo, de zagueiro para lateral-direito. Ibáñez, ou Íba, como o chamam seus companheiros, estava bem treinado na resposta: não vazou nada.

Contra o Marrocos pareceu nervoso. Não só ele, Gabriel Magalhães também. E acabou sacado no intervalo pelo experiente Danilo, que, pela primeira vez em copa, pareceu leve na posição.

Roger Ibáñez durante entrevista coletiva no hotel da seleção brasileira (09/06/2026)
Roger Ibáñez durante entrevista coletiva no hotel da seleção brasileira (09/06/2026)(Photo: Francisco Attié)Francisco Attié

Não esperava muito do jogo contra o Marrocos. Jogamos contra uma grande seleção, semi-finalista da última copa, e melhor do que as últimas seleções que eliminaram o Brasil de copas — a Bélgica de 18, e a Croácia de 22. Marrocos é uma grande seleção, e conversando com marroquinos em Nova Iorque, vejo a crença de todo um país na sua seleção. E o Brasil empatou o jogo. Ao final, me senti aliviado.Dentre poucos pontos positivos da estreia — Vini foi decisivo; jogamos bem sem o Casemiro pela primeira vez em 8 anos; Matheus Cunha, Luiz Henrique, e os 2 Danilos entraram confiantes — e vários negativos — muitos jogadores estavam nervosos; o meio de campo tende a perder protagonismo quando Ancelotti escala só dois volantes; Casemiro foi um abismo onde as jogadas morriam; Raphinha foi um dos piores em campo — da boca dos comentaristas de sofá e internet, ficou claro que o maior erro de Ancelotti (quiçá da historia) foi não começar com Endrick.Segundo apurações do UOL, a comissão técnica entende que falta à Endrick disciplina tática. Mas não veem isso como uma falha existencial do jogador, é simplesmente algo a ser trabalhado. Se isso é explicação suficiente para mantê-lo no banco, não sei dizer. Creio que a convocação de Neymar, e suas impossibilidades físicas, reforçam algumas preguiças narrativas: na falta de um herói nacional, o caso Endrick (ou Endrick-gate, como diriam os estadunidenses) se tornou a segunda maior fonte de notícias dentro da concentração.

Durante o jogo, ouvimos de Neymar, ou melhor, lemos de seus lábios enquanto conversava com Samir Xaud, que estaria finalmente no seu peso ideal: 68 quilos. Mas já está fora do jogo do Haiti também. Neymar talvez tenha sido convocado para a copa por questões extra-campais. Sejam estas comerciais, de liderança, ou entretenimento, sua presença na delegação indica uma aposta no hexa. A CBF vende a Copa de 2026 como uma chance de acreditar novamente. Trouxeram Ancelotti também por isso.

Luiz Henrique e Roger Ibáñez caminham em um dos oito campos de treinamento em Morristown (8/06)
Luiz Henrique e Roger Ibáñez caminham em um dos oito campos de treinamento em Morristown (8/06)(Photo: Francisco Attié)Francisco Attié

Acredito no talento de Endrick. Acho que nele Ancelotti guarda uma arma secreta. Após a estreia, Paulo Vinícius Coelho, o PVC, comparou o italiano com Telê Santana: um técnico que, às pressas, assumiu a seleção antes da copa, e teve de montar seu time durante o torneio. Torço para que Ancelotti exerça o pragmatismo pelo qual é conhecido. Quando estive no Rio de Janeiro, durante o carnaval, ouvi que Ancelotti estava animado para assistir aos desfiles da Sapucaí. Deixou o desfile prezando o relógio do carnaval brasileiro — onde tudo acontece ao seu tempo.

Em 2026, não acho que tenhamos problemas sem conserto. Essa copa será mais longa, com 8 jogos possíveis para aqueles que chegarem às semifinais. As anteriores tiveram só 7. Não quero uma seleção que queime a largada. Gosto da possibilidade de melhorarmos durante a competição. Acredito que Ancelotti, pragmático e italiano como é, partilhe desse desejo também. E torço para que o torcedor brasileiro possa abraçar o craque em campo, Vinícius Jr., ao invés de ficar buscando o salvador da pátria no banco.

Veja na minha anotação a possível escalação contra o Haiti (jogo será na sexta-feira, 19/06/2026, às 21:30 horário de Brasília):

Provável escalação contra o Haiti
Provável escalação contra o Haiti(Photo: Reprodução)Reprodução

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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