Julimar Roberto avatar

Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

281 artigos

HOME > blog

Dois projetos de país entraram em choque no debate sobre a escala 6x1

Políticos que têm a cara de pau de defender jornadas de até 52 horas semanais para a classe trabalhadora merecem o mais absoluto desprezo nas urnas

Ato pelo fim da escala 6x1 (Foto: José Cruz/Agência Brasil)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Em ano de eleição presidencial, o debate sobre o fim da escala 6x1 deixou de ser apenas uma pauta trabalhista e passou a funcionar como um verdadeiro termômetro político. A posição de cada candidato sobre o tema começa a revelar, de forma muito concreta, qual projeto de país cada grupo defende. Porque, no fim das contas, a maneira como um político enxerga a vida do trabalhador e da trabalhadora diz muito sobre como esse mesmo político pretende governar o Brasil.

De um lado, está a defesa da redução da jornada, do fim da escala 6x1, do direito ao descanso, da valorização da vida e do fortalecimento da economia pelo consumo e pela dignidade. Do outro, cresce um bloco político que tenta empurrar a nação de volta para um passado de superexploração, retirando direitos históricos da classe trabalhadora.

A recente ofensiva de parlamentares da direita e da extrema direita contra a PEC do fim da escala 6x1 escancarou - de vez - essa disputa. As emendas apresentadas pelo deputado Sérgio Turra (PP-RS), apoiadas por mais de 170 deputados, abriram brecha para jornadas de até 52 horas semanais, adiaram qualquer mudança por dez anos e ainda propuseram redução do FGTS, isenções para os patrões e uso de recursos públicos para financiar empresas.

Não se trata de exagero. Esse é o projeto político da direita brasileira, que historicamente sempre colocou os interesses do capital financeiro, das grandes empresas e do agronegócio acima da dignidade e dos direitos do povo trabalhador. E nós sempre denunciamos isso. A diferença é que, agora, eles próprios fizeram questão de provar que é verdade.

E é justamente aí que o eleitor trabalhador ou a eleitora trabalhadora precisa prestar atenção. Porque candidato não surge do nada. Ele representa uma linha ideológica, uma visão de sociedade e os interesses do grupo político ao qual pertence. Quem está em partidos que defendem retirada de direitos, redução de encargos trabalhistas e enfraquecimento da proteção social, naturalmente, governará nessa direção. Afinal, ninguém permanece em um partido cujas ideias contradizem suas próprias convicções. Lembra do ditado popular “diga-me com quem andas que lhes direis quem sois”? É disso que estamos falando.

Por isso, as eleições de 2026 caminham para um comparativo inevitável.

De um lado, um campo político que defende redução da jornada, fortalecimento da CLT, valorização do salário mínimo, geração de emprego e ampliação de direitos. Um projeto que entende que trabalhador descansado produz mais, adoece menos, falta menos e movimenta mais a economia, gerando lucratividade. Que entende que as pessoas precisam de tempo para viver, estar com a família, estudar, ir à igreja ou à rave, ou simplesmente descansar. Tempo para fazer o que quiser com a própria vida.

Do outro, setores políticos que tratam direitos trabalhistas como “prejuízo”, enxergam proteção social como “gasto” e insistem na lógica de que o trabalhador deve produzir cada vez mais recebendo cada vez menos. E isso não nasce agora. É um projeto que remonta do descobrimento do Brasil, quando uma minoria privilegiada já se achava no direito de escravizar outras pessoas para manter seus próprios privilégios.

E olha que o fim da escala 6x1 nem trará prejuízo para esses setores. Nem para esses e nem para nenhum outro setor. E quem falou isso, mentiu. Estudos acadêmicos e experiências internacionais já demonstraram que reduzir jornada não destrói a economia. Pelo contrário, melhora produtividade, reduz afastamentos, diminui acidentes de trabalho e aquece o comércio.

Mas, ainda assim, a direita brasileira insiste em vender a ideia de que qualidade de vida do trabalhador é ameaça econômica. E faz isso com uma mão enquanto que, com a outra, propõe cortar FGTS, tenta reduzir os encargos dos patrões e transferir dinheiro público para compensar os coitadinhos dos empresários.

É importante dizer, com todas as letras, que políticos que têm a cara de pau de defender jornadas de até 52 horas semanais para a classe trabalhadora merecem o mais absoluto desprezo nas urnas. Ainda mais quando tentam convencer a população de que isso seria para o próprio bem do trabalhador e da trabalhadora. Que lógica perversa é essa?

Quem trabalha em pé o dia inteiro no comércio, na saúde, na limpeza, na segurança, no call center ou na indústria conhece o desgaste físico e mental que a escala 6x1 provoca. Quem chega em casa sem tempo para os filhos, para estudar, descansar ou simplesmente existir entende o que significa viver apenas para trabalhar.

Por isso, a reação popular foi tão forte e gerou resultados. Tanto que alguns parlamentares começaram a retirar assinaturas das emendas após a repercussão negativa, por medo do desgaste eleitoral.

O recado das ruas começa a ser compreendido. A classe trabalhadora está observando e acompanhando tudo.

E talvez essa seja a principal lição desse debate. Em 2026, não estará em jogo apenas a escolha entre nomes. O que estará em disputa são dois projetos completamente diferentes de país. Na verdade, dois projetos completamente opostos. De um lado, um modelo que acredita no desenvolvimento econômico com direitos, dignidade e qualidade de vida para quem trabalha. Do outro, um projeto baseado na exploração da mão de obra, na retirada de garantias trabalhistas e na concentração de riqueza nas mãos de quem já tem dinheiro e poder demais.

No final das contas, a pergunta que ficará diante das urnas será simples: qual Brasil você, trabalhador e trabalhadora, quer ajudar a construir para si, para sua família e para as próximas gerações?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados