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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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E se Bolsonaro for solto?

“Com o chefão em casa, os estragos no fascismo e também na velha direita podem ser devastadores”, escreve Moisés Mendes

E se Bolsonaro for solto? (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

O que aconteceria se Lula tivesse um piripaque e fosse solto às vésperas da eleição de 2018? Lembrando sempre que Lula, antes de ser encarcerado por Sérgio Moro e logo depois da prisão, tinha o dobro dos votos de Bolsonaro no primeiro turno e venceria com 17 pontos de vantagem no segundo, segundo o Datafolha.

O que aconteceria agora, se Bolsonaro fosse libertado no ano da eleição? Sabendo-se que ele e todos os candidatos dele, de Kassab, Ciro Nogueira, Valdemar Costa Neto e da Globo perdem para Lula.

Mesmo assim, soltar Bolsonaro agora não é simplesmente assegurar a um criminoso perigoso o privilégio, que a grande maioria não tem, de desfrutar do convívio com os familiares e os amigos.

É criar uma situação nova e imprevisível em relação a tudo o que aconteceu desde o golpe fracassado. Bolsonaro em casa pode ajudar ou pode complicar ainda mais a situação da família e do entorno?

Devem ser consideradas as suas influências e conexões com todo o PL, com outros golpistas ainda impunes e com as estruturas de comando da velha direita, ainda confusa sobre a pré-disputa entre Flávio, Tarcísio e os três porquinhos de Kassab.

Bolsonaro em prisão domiciliar pode ser a potencialização de um estorvo para a direita e para figuras específicas da sua turma e da família. Como poderia Bolsonaro em casa, comendo pão com leite condensado e largando farelo pelo chão, ajudar Michelle na campanha ao Senado, por exemplo?

Os pedidos para o entra-e-sai se transformariam num dilema para Alexandre de Moraes. Autoriza a visita de Nikolas, mas nega a de Magno Malta, como fez agora? Libera Kassab, mas impede Valdemar Costa Neto, mesmo que Kassab, o prudente, não vá fazer esse pedido?

Bolsonaro solto não será um inferno apenas para os vizinhos. Pode ser para a Globo, que deseja finalmente neutralizá-lo, para buscar uma alternativa, um Ratinho que seja, porque quem não tem gato caça com rato.

Bolsonaro solto iria se meter na vida de todo mundo, como se fosse um grande articulador, coisa que nunca foi. Pesquisas que o mantiveram na disputa para presidente, depois de preso, criaram o ambiente para que o sujeito fosse comparado a Lula.

E aí voltamos ao começo deste texto. Pesquisa Datafolha publicada em 16 de abril de 2018 mostrava um primeiro turno com Lula com 31% e Bolsonaro com 15%. No segundo turno, Lula tinha 48% e Bolsonaro, 31%. Essa pesquisa saiu nove dias depois de Sérgio Moro encarcerar Lula em Curitiba.

No Datafolha publicado em 8 de dezembro do ano passado, Lula tinha 41% e Bolsonaro, 29%, no primeiro turno. No segundo turno, Lula teria 49%, contra 40% de Bolsonaro.

Em todas as pesquisas feitas com Lula preso e agora com Bolsonaro na cadeia, Lula sempre venceu, em 2018 e em 2025. Não houve uma pesquisa, uma só, que mostrasse Bolsonaro na frente de Lula.

Mesmo assim, tentam compará-los. Em qualquer tentativa de comparação, Bolsonaro nunca será um Lula, por uma diferença básica: Lula preso agregou e multiplicou forças da política e dos afetos ao seu redor.

Bolsonaro dispersa e divide, dentro da própria família, como prova a guerra entre Michelle e Flávio, Malafaia e Flávio e entre Eduardo e Tarcísio pelo espólio do presidiário.

O melhor para todos eles é deixar Bolsonaro preso. O melhor para Lula é que Bolsonaro seja solto e provoque um grande estrago na direita e na extrema direita.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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