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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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E se Bolsonaro morrer?

A morte de Bolsonaro não contribuiria em nada para a superação das tensões políticas atuais

Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução / Instagram)

A pergunta que uma influencer bolsonarista repetiu diversas vezes ao atacar os jornalistas que cobrem a evolução do quadro de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro, em frente a um hospital de luxo em Brasília, é, na verdade, bastante pertinente dentro do trabalho que esses profissionais estão realizando.

Se essa pergunta fosse dirigida a mim, talvez eu recorresse a uma frase dita pelo próprio Bolsonaro quando milhares de brasileiros morriam durante a pandemia: “Eu vou fazer o quê? Não sou coveiro”. A frase, que na época simbolizou uma postura de indiferença diante da tragédia nacional, hoje retorna quase como ironia histórica. Mas este não é o caso.

Mas o fato é que a pergunta feita pelos jornalistas não surge do nada. Diante do quadro clínico divulgado pelos médicos e da evidente estratégia de vitimização patrocinada pela família, existe, sim, a possibilidade da morte. Ou não haveria? Estariam esses familiares apenas desejando que o condenado cumpra eventual pena em uma residência confortável, com churrasqueira e piscina, de onde poderia seguir pilotando, com mais desenvoltura, o projeto político do clã?

Prospectar a possibilidade da morte de Bolsonaro, sob hipótese alguma, deve ser interpretado como manifestação de desejo por parte dos profissionais que fazem a cobertura. Mesmo que possa haver quem, Brasil afora, alimente esse sentimento — por exemplo, familiares de vítimas da pandemia que perderam entes queridos diante da postura criminosa adotada por Bolsonaro naquele período.

No caso dos jornalistas, trata-se de algo completamente diferente: uma análise profissional e prospectiva sobre as consequências políticas de um eventual desfecho trágico para a família. Afinal, a própria condição de saúde do ex-presidente vem sendo transformada pela própria família em instrumento político-eleitoral.

A politização da situação é tão evidente que a própria ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, compartilhou em suas redes sociais o vídeo da influencer atacando os jornalistas. Profissionais que, diante das ameaças recebidas, registraram boletins de ocorrência. A morte — não a de Bolsonaro especificamente, mas a morte em si — sempre foi objeto de reflexão humana. Como lembra o filósofo André Comte-Sponville em Apresentação da Filosofia, ela constitui para o pensamento um objeto ao mesmo tempo necessário e impossível. Necessário porque é inevitável pensar nela; impossível porque jamais poderemos experimentá-la plenamente enquanto sujeitos conscientes. Pensar a morte, portanto, faz parte do exercício filosófico e do debate público.

No caso de uma eventual morte de Jair Bolsonaro — e aqui me permito explorar a hipótese sem qualquer torcida para que ela ocorra —, é preciso reconhecer que seus efeitos políticos seriam relevantes. Aliás, dentro do que desejo para o meu país, a morte de Bolsonaro não contribuiria em nada para a superação das tensões políticas atuais.

Pelo contrário. A morte de Bolsonaro poderia gerar um poderoso movimento de vitimização do bolsonarismo. Não seria difícil imaginar a construção de uma narrativa que apontasse o Supremo Tribunal Federal e, mais especificamente, o ministro Alexandre de Moraes como responsável indireto pelo desfecho. Uma narrativa desse tipo teria potencial para impulsionar alguns pontos percentuais na candidatura de Flávio Bolsonaro.

Esse cenário é, simplesmente, um fato político plausível. E é justamente por isso que a prospecção feita pelos jornalistas não é absurda — pelo contrário, faz parte do seu trabalho.

A dúvida que permanece é outra: sem a presença do próprio Bolsonaro como fiador político, a eventual candidatura de Flávio continuaria sendo a opção preferencial do Centrão, da Faria Lima e de outros segmentos da elite brasileira? Ou a ausência do patriarca abriria espaço para que esses setores buscassem uma candidatura mais previsível e palatável?

Essa é a verdadeira questão política colocada no horizonte. E é exatamente sobre ela que os jornalistas, corretamente, estão tentando pensar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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