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Flávio Bolsonaro amplia presença digital e lidera crescimento nas redes sociais

Levantamento aponta avanço do senador nas plataformas online enquanto Lula critica dependência digital e enfrenta desafios de engajamento na internet

Senador Flávio Bolsonaro (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)

247 - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a registrar um crescimento mais acelerado nas redes sociais desde que foi anunciado como pré-candidato à Presidência da República, superando o ritmo de expansão digital do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O avanço ocorre em um momento de disputa política acirrada nas pesquisas eleitorais e de intensificação da presença digital dos principais nomes do cenário político nacional, relata a Folha de São Paulo.

Segundo levantamento encomendado pelo jornal à consultoria de dados Bites, o desempenho nas redes foi analisado semanalmente entre 2022 e 2026, comparando a movimentação online de Lula, de Flávio Bolsonaro e de Jair Bolsonaro (PL). A métrica utilizada mede a chamada “tração”, conceito comum no marketing digital que indica o crescimento consistente de perfis a partir de interações como curtidas, comentários e compartilhamentos.

Mudanças na disputa digital

Em 2022, durante o período em que ocupava a Presidência da República, Jair Bolsonaro mantinha ampla vantagem nas redes sociais, refletindo a estrutura digital consolidada em sua campanha e em sua comunicação política. De acordo com André Eler, diretor técnico da Bites, esse domínio foi resultado de uma estratégia adotada mais cedo por setores da direita. “A direita apostou primeiro nas redes, enquanto a esquerda se negava a acreditar que seria algo relevante”, afirmou Eler.

Após a eleição de Lula naquele mesmo ano, houve uma breve mudança no cenário. O entusiasmo gerado pela vitória nas urnas impulsionou o engajamento digital do petista, que chegou a superar Bolsonaro durante seis semanas consecutivas. Esse impulso, no entanto, foi temporário.

A vantagem do ex-presidente nas redes permaneceu até agosto de 2025, quando ele passou a cumprir prisão domiciliar e ficou incomunicável. Posteriormente, após condenação por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro passou ao regime fechado, o que interrompeu sua presença direta nas plataformas digitais.

Estratégia digital do governo Lula

Durante esse período, Lula passou a adotar uma estratégia mais estruturada de comunicação online, com atuação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), comandada pelo ministro Sidônio Palmeira. Com isso, o presidente conseguiu liderar o crescimento digital por 15 semanas ao longo de 2025.

Mesmo assim, analistas apontam limitações na forma como o presidente se posiciona nas redes sociais. A especialista em marketing digital Mariana Bonjour avalia que o discurso crítico de Lula em relação ao uso excessivo de tecnologia pode criar distanciamento com parte do eleitorado. “O presidente fica distante do cidadão comum, e outro candidato ocupa esse espaço”, afirmou.

Ela também considera que a comunicação digital do presidente ainda funciona principalmente como extensão da cobertura jornalística tradicional. “Não há dinheiro ou equipe que substitua a presença do candidato na rede, porque autenticidade não se terceiriza”, disse Bonjour. “O formato que a internet prioriza é o entretenimento".

Ascensão de Flávio Bolsonaro

A partir do momento em que passou a atuar como principal porta-voz político do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro começou a ampliar sua visibilidade nas redes sociais. O movimento se intensificou em dezembro, quando Jair Bolsonaro anunciou oficialmente o filho como candidato.

Desde então, o senador venceu sete semanas de crescimento digital em 2026, enquanto Lula liderou apenas uma no mesmo período — já sem a participação de Jair Bolsonaro, que permanece incomunicável.

Em número total de seguidores, o presidente ainda mantém vantagem. Contudo, o ritmo de expansão do senador tem sido significativamente maior. Desde dezembro, Flávio ganhou cerca de 3,4 milhões de novos seguidores, enquanto as redes de Lula cresceram em aproximadamente 378 mil contas.

Segundo André Eler, o desempenho atual do senador se aproxima dos índices registrados por Jair Bolsonaro no auge de sua presença digital. “As porcentagens de Flávio já se equiparam às de Bolsonaro no auge, falando em nome da família e postando bastante”, afirmou.

Construção de imagem política

Aliados do senador atribuem a ascensão nas redes ao interesse do público em conhecer melhor o político escolhido por Bolsonaro para representar seu campo político. De acordo com esse grupo, a estratégia busca apresentar Flávio como uma liderança capaz de assumir protagonismo nacional.

Nesse contexto, os perfis do senador passaram a divulgar com frequência registros de viagens internacionais e compromissos políticos. Um dos vídeos recentes mostra Flávio conversando em espanhol com o presidente da Argentina, Javier Milei, durante a posse do novo chefe de Estado do Chile, José Antonio Kast.

Pesquisas eleitorais e cenário político

Pesquisa Datafolha indica que Lula aparece com 38% das intenções de voto em um eventual primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 32%. Em um possível segundo turno, a disputa aparece tecnicamente empatada: o presidente teria 46%, contra 43% do senador.

O crescimento do parlamentar nas redes contrasta com declarações recentes de Lula sobre a relação da sociedade com a tecnologia. Durante a inauguração de um centro médico no Rio de Janeiro, o presidente sugeriu que as pessoas priorizassem relações pessoais ao acordar. Ele afirmou que seria melhor “fazer um cafuné” no parceiro ou parceira antes de verificar atualizações no telefone celular.

Em entrevista ao podcast Mano a Mano, apresentado pelo rapper Mano Brown, Lula também comentou o impacto do uso constante de celulares na vida social. Na ocasião, disse que as pessoas passaram a ter dificuldade de se desconectar dos aparelhos e que o hábito estaria substituindo formas tradicionais de convivência.

Desafios da política na era digital

Para o estrategista político Paulo Loiola, o relacionamento da esquerda com as plataformas digitais também tem raízes ideológicas e históricas. Segundo ele, há diferenças na forma como correntes políticas encaram o papel das grandes empresas de tecnologia.

“As big techs são grandes empresas estrangeiras e ligadas à direita, enquanto a esquerda tem uma tradição de fazer política alicerçada na gestão de massas, no contato corpo a corpo”, afirmou Loiola.

O estrategista também observa que fatores geracionais podem influenciar a adaptação ao ambiente digital. Lula tem 80 anos, enquanto Flávio Bolsonaro tem 44.

Segundo ele, a política contemporânea precisa combinar presença física e comunicação online. “Não vou dizer que o aperto de mão não ajuda, mas a gente não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo. A internet chega até muito mais gente”, declarou.

O debate sobre o impacto das tecnologias digitais na democracia também aparece em reflexões acadêmicas recentes. O filósofo sul-coreano Byung Chul-Han, por exemplo, cunhou o termo “infocracia” para descrever um cenário em que a digitalização e a coleta massiva de dados passam a influenciar a dinâmica política e social.

Nesse contexto, especialistas apontam que a disputa eleitoral tende a ser cada vez mais influenciada pela capacidade de candidatos mobilizarem apoio e engajamento nas redes sociais, ao mesmo tempo em que enfrentam debates sobre regulação das plataformas e o papel das empresas de tecnologia no processo democrático.

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