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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Eduardo Leite é a cara desfigurada da direita que se entregou ao fascismo

“O governador gaúcho e outros da sua turma acharam que poderiam ser bolsonaristas por alguns dias”, escreve Moisés Mendes

Eduardo Leite é a cara desfigurada da direita que se entregou ao fascismo (Foto: Mauricio Tonetto / Secom)

Eduardo Leite fumou bolsonarismo em 2018, quando se elegeu governador do Rio Grande do Sul pelo PSDB. Fumou durante a campanha e quase ficou dependente do bolsonarismo quando começou a tragá-lo, ao montar seu primeiro governo com nomes e o suporte de gente de Bolsonaro.

Foi um bolsonarista agregado, mesmo que tenha dito que apoiava Bolsonaro com algumas restrições, das quais não se sabe nada até hoje. Veio de 2018 até aqui num zigue-zague que caracteriza a velha direita perdida com a ascensão do fascismo.

Leite conseguia fingir, em alguns momentos, que ainda seria de um centro imaginário, vago e gasoso. Hoje, é o melhor exemplar da direita que o bolsonarismo comeu.

O retrato dessa direita tem a sua cara, o ar pernóstico de um tucano desemplumado e a voz empostada de locutor de antigamente. Leite é uma figura antiga, não da velha Arena, mas quase um personagem das crônicas machadianas do final do século 19.

É um caso a ser estudado de trajetória torta, mas coerente com o que acontece no Brasil desde 2016. E, mesmo assim, ou por isso mesmo, quer ser candidato a presidente como terceira via.

Leite já andou por todas as vias. Em 2022, tentou passar a perna em João Doria como candidato do PSDB à presidência. Chegou a procurar Gilberto Kassab e se oferecer para o PSD. Foi aplaudido demoradamente, em evento em Caxias do Sul, ao anunciar que seu projeto nacional era maior que o partido.

Não venceu Doria nas prévias, o PSDB se retirou da disputa e o roteiro seguinte é conhecido. Leite não só se reacomodou no partido como o liderou como seu presidente nacional, durante 2023. Ajudou a acabar com os últimos ninhos tucanos.

Já havia sido reeleito governador, um ano antes, com a votação maciça do PT e de todas as esquerdas. Era preciso evitar, no embate do segundo turno com Onyx Lorenzoni, o desembarque da extrema direita no Palácio Piratini.

Reelegeu-se com o apoio de Olívio Dutra, Tarso Genro, Manuela D’Ávila e outros líderes gaúchos com projeção nacional. Uma semana depois, foi a um congresso do MBL e fez palestra ao lado da turma de Kim Kataguiri, em São Paulo.

Brigado com o bolsonarismo a partir do segundo governo, bandeou-se para o PSD e apostou que poderia blefar na disputa da vaga do partido de Kassab com Ratinho e com Caiado. Desfrutaria da vitrine que poderia fortalecê-lo como candidato ao Senado.

A realidade é ruim de novo. Seu candidato a governador, o seu vice Gabriel Souza, do MDB, está mal nas pesquisas. Na disputa ao Senado, Leite briga pelos eleitores de dois candidatos do bolsonarismo, os deputados Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel Van Hattem (Novo).

Todos estão embolados nas pesquisas, enquanto do outro lado há os candidatos de Lula, Paulo Pimenta (PT) e Manuela D’Ávila (PSOL). A velha direita, comida pela extrema direita, está sob a ameaça de ser engolida também na briga por uma das vagas ao Senado.

Tem mais. A velha direita do PP gaúcho (o maior partido do Estado em domínio territorial), que planejava apoiar Gabriel Souza (MDB), o vice-governador de Leite e seu candidato, foi comida pelo bolsonarismo do candidato do PL, Coronel Zucco. O PP vai apoiar Zucco. A direita de Eduardo Leite não existe mais.

Esse Leite, que se apresenta como terceira via, foi o governador que ofereceu o maior mercado para a cloroquina de Bolsonaro no auge da pandemia. O repórter Marcel Hartmann contou em reportagem de Zero Hora de 1º de outubro de 2020:

“Das 27 unidades federativas, o Rio Grande do Sul foi a que mais recebeu comprimidos de cloroquina enviados pelo Ministério da Saúde: de março até agora (outubro), foram 607 mil cápsulas”.

Leite entendia que os médicos é que deveriam decidir sobre o que fazer. Encolheu-se como governador, não quis enfrentar Bolsonaro e sucumbiu em todas as áreas. Governou como um bolsonarista.

Foi devorado pela extrema direita, como continua acontecendo em São Paulo e em outros estados com outras figuras assemelhadas. Eduardo Leite, que tenta sobreviver como outra coisa, é também um produto mal-acabado da submissão da direita ao fascismo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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