Eleição de Lula é “fundamental” para estabilidade global em tempos de Trump, diz analista ao 247
'Convergências na América Latina não apenas dos governos, mas sobre o que existe e mobiliza o povo na região', diz o sociólogo argentino Juan Gabriel Tokatlian
Três países da América do Sul realizam eleições presidenciais neste ano de 2026 e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai buscar influenciar as campanhas nestes pleitos que ocorrem no Peru, em abril, na Colômbia, em maio, e no Brasil, em outubro, afirma o analista internacional Juan Gabriel Tokatlian, do grupo ‘Conversatório Latino-Americano’, em entrevista da Colômbia para o Brasil 247.
Professor de Relações Internacionais da Universidade Torcuato di Tella, de Buenos Aires, e um dos fundadores do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Los Andes, de Bogotá, Tokatlian diz que Trump tentará ser um ‘cabo eleitoral’ das eleições da América Latina, como já fez, recentemente, nas eleições legislativas de outubro passado na Argentina e nas presidenciais de Honduras, em novembro passado. Nos dois casos, Trump deu um “empurrão” a favor de seus aliados: o argentino Javier Milei e o hondurenho Nasry “Tito” Asfura. Mas essa tentativa de se meter nos pleitos alheios também costuma dar errado, como ocorreu no Canadá, lembrou o analista durante a entrevista.
Recursos naturais e China
Para ele, ainda não está claro como essa tentativa de influência do estadunidense ocorrerá nas próximas eleições na região. Mas o histórico dos fatos recentes envolvendo Trump e a rica América do Sul (petróleo, lítio e outros minerais, a Amazônia...) sinalizam que é preciso estar atento. “Qual Trump e com qual estilo vai buscar influenciar (nas eleições)? Agressivo ou amigável? Virulento ou suave? O que sim já sabemos é que os Estados Unidos vão sim buscar essa influência. Há poucos dias, por exemplo, a embaixada dos Estados Unidos no Peru fez um comunicado horrível sobre o Peru e o porto de Chancay (megaprojeto portuário com investimentos chineses) e a relação com a China, já buscando influenciar na eleição (presidencial) em abril”, disse Tokatlian. A China é hoje o principal parceiro comercial de vários países da América Latina e a presença chinesa também é outro fator que entrou no radar do interesse geopolítico dos Estados Unidos na nossa região – especialmente a América do Sul.
“É provável que (Trump) também tenha um papel decisivo na eleição colombiana em maio”, disse o analista que morou quase 20 anos na Colômbia, onde costuma passar longas temporadas. Gustavo Petro, primeiro presidente da esquerda na Colômbia, não disputa um novo mandato. Atualmente, o país andino, vizinho do Brasil, não tem reeleição.
Brasil, epicentro mundial
Mas na visão de Tokatlian, o epicentro das atenções mundiais neste ano será a eleição no Brasil. “A próxima eleição presidencial no Brasil é a mais importante de toda a América Latina desde o início do século XXI. É a definição num país grande, relevante, importante, potente, influente, com visibilidade internacional”, disse o analista.
“Súditos de Trump”
Para ele, o papel do Brasil ganhou ainda maior importância depois do retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro do ano passado, e, principalmente, depois do “ataque”, como disse, dos Estados Unidos contra a Venezuela. Com a eleição brasileira, entende, se saberá se o Brasil “continua sendo um ator decisivo para um certo equilíbrio na região ou se este país será capturado pelo MAGA (slogan de Trump – ‘Faça a América Grande Novamente, em português’)”. “É disso que estamos falando. E se isso acontecer (vitória da direita ou extrema-direita), é claro, que teríamos mais líderes na região que seriam condescendentes com Trump. Seriam, digamos, pequenos súditos de Trump”. Hoje, além de Milei, na Argentina, a direita e a extrema-direita reúnem também José Antonio Kast, presidente eleito do Chile que toma posse em março, Santiago Peña, do Paraguai, que é próximo de Milei, e Rodrigo Paz, da Bolívia, e Daniel Noboa, do Equador.
“Tempos perigosos”
Quando perguntado se a eleição brasileira ganhou maior importância depois do sequestro de Maduro no dia 3 de janeiro, ele respondeu: “Definitivamente. E depois do que está acontecendo no mundo. Hoje, a paz e a segurança estão em jogo no mundo. Para deixar ainda mais claro. Os europeus assumiram o compromisso, há alguns meses, sob pressão dos Estados Unidos, de gastar 5% em defesa para conter a Rússia e agora o que devem fazer é colocar um freio contra os Estados Unidos na Groenlândia. Isso é um caso único. Quando olhamos para o Oriente Médio, para o Iêmen, para o Irã, para Gaza, as tensões na Síria, no Iraque, é um quadro ‘semi- explosivo’. O que ocorrer (nesta região) pode ser decisivo em 2026”, disse o entrevistado ao Brasil 247. Para Tokatlian, as tensões, que também ocorrem em outros continentes, como o africano, tornam hoje o mundo mais perigoso. “Estamos em um ano muito perigoso. Muito, muito perigoso”, disse.
Lula
Num contexto de instabilidade, de incertezas globais, o analista entende que uma nova eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia contribuir para a estabilidade no planeta. “Lula é importante para a estabilidade no mundo, um ator político global que aposta na tranquilidade no mundo, que aposta no equilíbrio no mundo. Por isso é uma eleição (a do Brasil) especialmente importante para a América Latina e para o continente e uma eleição que será observada pelo mundo”, disse Tokatlian, do Conversatório Latino-Americano, que reúne pesquisadores de 4 universidades (Colégio do México, no México, a Universidade de los Andes, na Colômbia, a Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, e a UERJ, do Rio de Janeiro, Brasil), voltados para o debate sobre democracia, violência e desigualdade social na nossa região.
“Nós sempre estamos preocupados com o que vão dizer nos Estados Unidos, na Europa. Não, não, não. O que nós temos (na própria região) é o que nos interessa, com a convergência possível. Convergências que surgem não apenas dos governos, mas sobre o que existe e mobiliza as sociedades civis da região. E essas são as bases do Conversatório Latino-Americano”.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



