Em carta, Kassab dá beijo da morte em Flávio Bolsonaro
"O recado de Kassab é simples: o PSD não aceita ser humilhado em São Paulo para depois ser convocado a salvar um projeto nacional que não entrega reciprocidade"
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, publicou uma carta em forma de postagem nas redes sociais para mandar um recado cirúrgico à centro-direita: exaltou os "acertos" da própria trajetória e, ao mesmo tempo, fechou a porta para uma aventura bolsonarista com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em 2026. Foi um beijo da morte político, sem citar o nome do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas deixando claro que não pretende cometer seu primeiro grande erro ao embarcar nessa canoa.
A publicação, em carrossel, virou uma peça de posicionamento. Kassab lista apoios e alianças do passado, exibe capital político acumulado e, no trecho mais relevante, formaliza o movimento de divisão da centro-direita ao afirmar que o PSD trabalha com três nomes para o Palácio do Planalto. Na prática, ele coloca o partido em rota própria e reduz o espaço de pressão do bolsonarismo sobre o campo que pretende herdar votos sem ceder comando.
O subtexto é ainda mais duro quando cruzado com o bastidor paulista. O PL, sob a tutela de Bolsonaro, vetou Kassab como vice na chapa de reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a ala bolsonarista tenta impor um nome do PL para a vaga. Kassab responde elevando o tom nacional do PSD e sinalizando que o partido não aceitará ser tratado como "puxadinho" de um projeto que quer mandar em São Paulo e, ao mesmo tempo, exigir alinhamento automático no plano federal.
Ao declinar três governadores do PSD como pré-candidatos, Kassab também organiza o terreno interno e dá recado externo. Ele fala em Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior como opções de presidente em outubro, numa tentativa de construir uma vitrine "institucional" e de gestão para 2026, com discurso de eficiência, reformas e agenda municipalista. É a estratégia clássica de quem quer manter o partido em qualquer mesa de negociação, mas com poder de veto, não como figurante.
O efeito colateral imediato é a cristalização de uma ruptura na direita, com duas linhas se chocando. De um lado, o bolsonarismo tentando enquadrar alianças pela lógica do "ou está comigo ou está contra mim". Do outro, o PSD de Kassab tentando transformar o veto em combustível, ocupar o centro e vender a ideia de candidatura competitiva fora do guarda-chuva de Bolsonaro. Os comentários na própria postagem expõem o racha, com apoiadores cobrando "direita unida", pedindo Ratinho Júnior e, ao mesmo tempo, reagindo ao risco de o partido dialogar com o Planalto.
O recado de Kassab, nesta sexta-feira (20), é simples: o PSD não aceita ser humilhado em São Paulo para depois ser convocado a salvar um projeto nacional que não entrega reciprocidade. Se o bolsonarismo quer controlar a vice de Tarcísio, o PSD responde controlando a chave do cofre político, tempo, palanques, governadores, alianças, e deixa Flávio Bolsonaro sem a aura de "candidato natural" que o clã tenta colar.
Nessa movimentação, Kassab escolheu o caminho da sobrevivência com poder, e isso costuma ser mais letal do que um ataque frontal. Quando um cacique diz que não vai errar "pela primeira vez", ele está dizendo quem seria o erro. E, em política, esse tipo de recado vira certidão de isolamento.
Leia a íntegra da carta de Kassab
1/10
O PSD NAS ELEIÇÕES 2026 Ao longo de minha vida tenho sido privilegiado com bons amigos e conselheiros. A começar por meus pais, pela generosidade e formação que me deram. Na vida pública, aproveitei muitas oportunidades que tive para contribuir na construção de um país melhor. Como todos, tive inúmeros acertos e, também, equívocos.
2/10
Acertei ao entrar para a vida pública ao aceitar o convite de Guilherme Afif Domingos, a quem acompanho até hoje e admiro por seu idealismo, uma chama acesa há décadas. Acertei ao aceitar o convite de Jorge Bornhausen para acompanhá-lo em sua jornada, algo que tenho a alegria de fazer até hoje.
3/10
Acertei em ter em José Serra uma referência e um amigo, que muito me inspira. Acertei ao, junto com Bornhausen, Afif, Otto Alencar, Cláudio Lembo (outro importante conselheiro e querido amigo), lançar, em São Paulo e Salvador, com diversas importantes lideranças políticas da época, um novo partido, o PSD.
4/10
Acertei em aceitar participar de disputas eleitorais. Em todas que venci (not foram poucas), saí com realizações e cabeça erguida. Acertei em apoiar como candidatos, entre tantos, Afif, Fernando Henrique Cardoso, Serra e, mais recentemente, Tarcísio de Freitas para governador. Acertei em minha passagem pela Assembleia Legislativa, onde conheci Mário Covas e apoiei com entusiasmo seu governo, que considero responsável pelo início das grandes transformações e investimentos que aconteceram no Estado a partir de então.
5/10
Neste momento, em consonância com o PSD, tenho plena convicção no encaminhamento de três excelentes pré-candidatos ao cargo de presidente da República nas eleições deste ano. O Brasil estará muito bem servido se puder contar com Ronaldo Caiado, Eduardo Leite ou Ratinho Júnior como seu presidente da República, a partir de 2027.
6/10
Será com um dos três, com o apoio do PSD, que iremos promover mais transparência na utilização dos recursos públicos, para combater a corrupção; fazer a tão sonhada reforma administrativa para reduzir o peso do Estado e valorizar os bons servidores; adotar o voto distrital para aproximar o eleitor dos representantes legislativos; buscar o fim da reeleição; estabelecer idade mínima para os novos membros dos Tribunais superiores.
7/10
Lutar incansavelmente para melhorar o Ensino Público, melhorar os serviços públicos de Saúde, com mais recursos para o SUS; levar o combate à criminalidade a um novo patamar, com investimentos em tecnologia, inteligência, valorização profissional e integração com as forças de segurança estaduais.
8/10
Vamos promover a valorização da pesquisa e da ciência, com investimentos expressivos, parcerias e o fortalecimento das universidades; investir e valorizar nossa agricultura, com sua enorme capacidade que combina alta produtividade e preservação ambiental; simplificar e desburocratizar para incentivar o empreendedorismo e o desenvolvimento das micro e pequenas empresas.
9/10
E recuperar o protagonismo dos nossos municípios, com medidas que tragam mais recursos para que recuperem a autonomia que perderam e possam efetuar seus investimentos e manter sua administração.
10/10
Há ainda muito mais para apresentar, debater e detalhar até outubro. Estaremos juntos, lado a lado, com o candidato que o PSD apresentará ao eleitorado.
Gilberto Kassab
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



