Raio em ato de Nikolas encobre racha antigo da direita
Nikolas caminhou até Brasília com um objetivo claro. Consolidar-se como polo alternativo e se posicionar como principal adversário do bolsonarismo no horizonte
O raio que caiu durante o ato liderado por Nikolas Ferreira, em Brasília, desviou os holofotes da disputa real que estava em curso. Não se tratava de enfrentar o presidente Lula, favorito nas pesquisas para as eleições de outubro. O conflito exposto ali é outro e vem de antes. A briga pela hegemonia da direita no pós-Bolsonaro.
A manifestação seguiu exatamente o roteiro planejado. Marcha longa, concentração na capital e discurso direcionado ao próprio campo conservador. O episódio do raio, com dezenas de feridos, não mudou o sentido do protesto. Apenas encobriu, temporariamente, a disputa interna que já estava posta.
Essa tensão não é nova. O Blog do Esmael registrou, há exatamente um ano, o início da guerra geracional entre Jair Bolsonaro (PL) e Nikolas Ferreira (PL-MG). De um lado, o ex-presidente, inelegível até 2030, tentando manter o controle do bolsonarismo e do PL. Do outro, o deputado mais votado do país em 2022, com base jovem, discurso próprio e força digital que independe do aval do padrinho político.
Desde então, os atritos se acumulam.
Bolsonaro passou a atacar a chamada “direita limpinha” e a criticar candidatos jovens e inexperientes, recados direcionados a Nikolas. O deputado, por sua vez, avançou sobre terrenos sensíveis, como a articulação para reduzir a idade mínima ao Senado, movimento visto no bolsonarismo como ameaça direta ao controle do partido.
A marcha que terminou em Brasília deve ser lida dentro desse contexto. Oficialmente, o ato foi apresentado como protesto contra decisões do Judiciário. Na prática, funcionou como vitrine eleitoral e ensaio de reorganização interna. Pré-candidatos sem agenda nos estados se aproximaram de Nikolas em busca de visibilidade e sobrevivência política.
O Blog do Esmael já mostrou que a caminhada virou ponto de encontro de ambições. O raio não interrompeu o projeto. Apenas desviou a atenção pública da disputa que realmente interessa à extrema direita.
Pesquisas indicam Lula como favorito em outubro. A margem para uma virada da oposição é estreita. A direita sabe disso. Por isso, a energia política não está concentrada no Planalto, mas na reorganização do campo conservador para o ciclo seguinte.
É nesse espaço que Nikolas se projeta.
Ele já não atua como herdeiro do bolsonarismo. Avança como antagonista. Sua força vem das redes sociais, do engajamento permanente e de um discurso que disputa o mesmo eleitorado que Bolsonaro mobilizou por anos, agora sem pedir autorização.
A composição do ato deixou isso evidente. Havia bolsonaristas fiéis, renegados arrependidos, novatos sem base consolidada e pré-candidatos preocupados com o próprio futuro. O elo entre eles não foi ideológico. Foi cálculo.
A marcha também sinaliza a formação de uma bancada informal. Caso parte dos nomes que orbitam Nikolas se eleja, o deputado mineiro poderá contar com um grupo mais leal a ele do que ao bolsonarismo tradicional. Isso desloca o centro de comando da extrema direita.
O raio trouxe risco físico, comoção e imagens fortes. Politicamente, funcionou como cortina. Encobriu, mas não anulou, a disputa central.
Nikolas caminhou até Brasília com um objetivo claro. Consolidar-se como polo alternativo e se posicionar como principal adversário do bolsonarismo no horizonte de 2030.
O episódio climático não criou o racha. Ele apenas desviou o foco de uma disputa que já vinha sendo travada há pelo menos um ano. A direita brasileira entrou em fase de divisão aberta. O protesto teve pouco a ver com Lula. Foi mais um capítulo da guerra interna pelo comando do campo conservador.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



