“Nikolas precisa ser combatido antes que seja tarde demais”, diz João Cezar de Castro Rocha
Professor analisa ato em Brasília, alerta para riscos da extrema direita e afirma que deputado já é visto como liderança internacional
247 - A entrevista do professor João Cezar de Castro Rocha ao Boa Noite 247 deslocou o foco do episódio do raio em Brasília para uma análise mais profunda do fenômeno político representado por Nikolas Ferreira. Para o pesquisador, o ocorrido funcionou como um retrato simbólico da estratégia da extrema direita no Brasil: transformar engajamento digital em ação de rua, criando fatos políticos de alto impacto e risco, com potencial de abalar a democracia.
Ao longo da entrevista, Castro Rocha sustentou que Nikolas já não pode ser tratado como um personagem folclórico ou passageiro, mas como uma liderança em consolidação, inclusive fora do país.
Um projeto que vai além do bolsonarismo clássico
Segundo o professor, Nikolas Ferreira representa uma nova etapa da extrema direita brasileira, mais organizada e mais eficiente do que aquela que levou Jair Bolsonaro ao poder. “Nós não podemos cometer com o Nikolas Ferreira o mesmo erro que cometemos com o Bolsonaro”, alertou. Para ele, o deputado conjuga três elementos centrais: capilaridade nas redes sociais, trabalho de base presencial e uma narrativa religiosa capaz de mobilizar afetos profundos.
Na avaliação de Castro Rocha, esse tripé torna Nikolas particularmente perigoso. “Ele não é apenas uma realidade nacional. Ele já é visto internacionalmente como uma promessa de futuro presidente do Brasil”, afirmou, ao comentar a circulação da caminhada em perfis e sites estrangeiros de extrema direita, em inglês e espanhol.
Redes sociais que transbordam para as ruas
Um dos pontos centrais da análise foi a ideia de que a extrema direita só se torna eleitoralmente vitoriosa quando consegue romper a barreira digital. “O verdadeiro risco da extrema direita no mundo é quando as redes sociais se encontram nas ruas”, disse o professor. Para ele, a caminhada e o ato em Brasília materializam exatamente esse movimento.
Castro Rocha destacou que Nikolas compreendeu essa lógica e a executa com disciplina. “Ele está seguindo a cartilha”, afirmou, ao explicar que o deputado alia presença constante nas plataformas a ações presenciais capazes de produzir imagens, narrativas e mobilização emocional. Na visão do pesquisador, esse método não é improvisado, mas resultado de planejamento e de um ecossistema de apoio político e financeiro.
A encenação religiosa como ferramenta de poder
Outro eixo da análise foi a apropriação da ideia de peregrinação como instrumento político. Castro Rocha classificou a caminhada como uma deturpação simbólica com forte apelo religioso. “Havia uma vulgarização completa da ideia do peregrino”, afirmou, ao sustentar que o sofrimento foi transformado em espetáculo e propaganda.
Para o professor, essa encenação não é ingênua. Ela serve para construir uma imagem messiânica do deputado e reforçar a fusão entre política e fé. “O Nikolas é a ponte entre o olavismo, o pentecostalismo e a extrema direita”, disse, apontando que essa combinação sustenta um projeto de poder que ele define como teocrático.
Internacionalização e desinformação
Castro Rocha também chamou atenção para o caráter transnacional da atuação de Nikolas Ferreira. Segundo ele, a mobilização em Brasília foi amplificada por perfis e veículos estrangeiros alinhados à extrema direita, que apresentaram o deputado como símbolo de um suposto “despertar do Brasil”.
O professor relatou que respondeu diretamente a algumas dessas publicações, em diferentes idiomas, para contestar o conteúdo e expor contradições. Para ele, esse ambiente demonstra que a disputa política já não é apenas nacional. “Há um ecossistema poderosíssimo de desinformação que já é transnacional”, afirmou.
Por que não é mais possível ignorar
Ao longo da entrevista, Castro Rocha insistiu que minimizar ou silenciar diante de Nikolas Ferreira é um erro estratégico. “Nós já passamos do ponto de ignorá-lo”, disse. Na sua avaliação, o deputado já reúne atributos suficientes para se tornar uma liderança de massas, especialmente entre jovens, e isso exige resposta organizada do campo democrático.
O professor defendeu que o enfrentamento deve combinar jornalismo investigativo, exposição de contradições e presença ativa nas redes e nas ruas. Para ele, reconhecer a eficácia do adversário não significa legitimá-lo, mas entender o tamanho do desafio. “A única forma de derrotar um adversário forte é reconhecer o seu valor”, afirmou.
Ao final, a mensagem central de João Cezar de Castro Rocha foi clara: Nikolas Ferreira não é um fenômeno episódico, mas a expressão de um projeto político estruturado, que cresce na confluência entre religião, tecnologia e mobilização social. Ignorá-lo, segundo o professor, pode custar caro à democracia brasileira.


