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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Entre fogueiras e sanfonas: por que junho ainda emociona o Brasil

Em meio às pressas de um mundo que não para de correr, os arraiais nordestinos seguem oferecendo um raro reencontro com aquilo que nos formou

(Foto: Leonardo Sobreira)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Numa noite qualquer de junho, em alguma cidade do sertão, uma sanfona abre os foles — e um país antigo volta a respirar. Não é saudade vazia. É a memória cumprindo sua função mais nobre: lembrar quem a gente é.

Confesso que foi um vídeo bobo que me derrubou. Os bonecos rodopiavam no forró, as bandeirinhas conversavam com o vento e a música caminhava sem a menor pressa. Há algo profundamente humano — quase indecente, no bom sentido — numa canção que não tem hora para acabar.

O calendário marca 24 de junho como o dia de São João Batista, mas o Nordeste, que nunca foi de fazer as coisas pela metade, transformou a data em algo bem maior. Por semanas, da Bahia ao Maranhão, a vida desacelera em nome de uma herança de séculos. E, diga-se, em muita cidade o São João arrasta mais gente que o Carnaval — o que, para um nordestino, é quase uma declaração de princípios.

As origens são europeias: fogueiras, santos e rituais vieram na mala dos portugueses. Conta a tradição que tudo começou com uma chama — ao nascer João Batista, sua mãe, Isabel, acendeu uma fogueira para avisar Maria pela fumaça. O Nordeste levou o recado a sério e nunca mais parou de acender fogueiras. Mas cultura viva não é cópia: misturou índio, africano e sertanejo, jogou sotaque, ritmo e afeto, e devolveu uma festa que já não é da Europa nem só da Igreja. É do povo, e ponto.

Ninguém entendeu esse povo melhor do que Câmara Cascudo, que chegou a dedicar um livro inteiro, “Superstições no Brasil”, àquilo em que o sertanejo acredita sem pedir licença à razão. E junho é a alta estação da crendice — o mês em que se conversa com o futuro de igual para igual.

Cada santo do mês tem sua função. Santo Antônio, no dia 13, é o casamenteiro, e ai dele se vacila: as moças viravam a imagem dele de cabeça para baixo, amarravam-lhe os pés e juravam só soltá-lo quando o pretendente aparecesse. Era chantagem religiosa em regra, e ninguém ali via problema nisso. São João, no dia 24, é o festeiro; São Pedro, no dia 29, fecha o time.

A própria fogueira virava oráculo. Cascudo registrou a simpatia da moça aflita por saber quando se casaria: passava-se um copo d’água sobre as chamas, prendia-se ali dentro uma aliança num fio, sem tocar a água, e contavam-se as batidas do anel contra o vidro — tantas pancadas, tantos anos de espera. Havia ainda os valentes que cruzavam as brasas descalços, os “passadores de fogueira”, pagando promessa ou pedindo bênção. E quem pula a fogueira de mãos dadas com alguém vira seu compadre de fogueira — o que, no sertão, é parentesco tão sério quanto o de batismo.

É aqui que as noites da minha infância voltam de uma vez. As lâmpadas tortas entre os postes, o cheiro de milho assado escapando do fogo, as panelas de canjica, pamonha e mungunzá, e o pavor coletivo de que caísse um inverno — a chuva curta e atravessada que no sertão leva esse nome — bem na hora de acender a fogueira. Voltam, sobretudo, os personagens. Em toda rua havia o especialista autoproclamado em fogueira, o fiscal informal da quadrilha e aquela senhora convencidíssima de que sua pamonha era superior à da humanidade inteira.

— Dona Lourdes, a sua pamonha continua imbatível.

— Continua porque não tem com quem competir, meu filho.

Levei trinta anos para entender que aquilo não era vaidade. Era um diagnóstico.

O humor talvez seja a maior riqueza de tudo isso. Ariano Suassuna passou a vida provando que o sertanejo encara a dureza sem largar a gargalhada — para ele, rir não era fuga, era resistência. Basta um casamento matuto para confirmar: todos sabem o roteiro de cor e ninguém cansa. O noivo tenta fugir, o pai da noiva ameaça resolver tudo na bala, e a plateia vibra como se fosse estreia mundial.

— Compadre, esse casamento é de mentira, não é?

— É de mentira, sim. Mas é o único em que ninguém sai chorando. Então deixa ser.

Demorei a perceber que ele havia definido o casamento melhor do que qualquer padre. Jorge Amado também sacou essa vocação de transformar aperto em festa: por algumas horas somem as distâncias, e o médico dança ao lado do lavrador como se sempre tivessem dançado juntos.

E há a dança, muita dança. A quadrilha, herdeira distante da “quadrille” francesa do século XIX, com o marcador gritando “anavant”, “anarriê”, “balancê”, “changê” a um povo que nunca desconfiou da origem afrancesada e nem por isso obedeceu com menos vontade. Mas, quando a quadrilha encerra, o arraial não dorme: emenda no xote, no baião, no arrasta-pé que varava a madrugada até render o último casal teimoso. A França mandou as palavras; o Nordeste fez delas alegria. Negócio justo.

E havia a música para embalar tudo, com Luiz Gonzaga à frente. Veja a graça de “Pagode Russo”, que ele compôs com João Silva. A piada começa na origem: os dois flagraram, numa praia, uns europeus de saiote tocando gaita de fole e, com toda a convicção do mundo, decidiram que eram cossacos russos. Eram escoceses, mas isso é detalhe. Da confusão nasceu uma homenagem à Rússia assinada por dois sertanejos que mal tinham saído do próprio sertão: um sonho disparatado de acordar dançando em Moscou, numa boate de nome impossível que rima com a capital e esconde, na palavra “cossaco”, um trocadilho que todo mundo entende e finge que não entendeu. A dança dos cossacos, jura ele, parecia frevo — aquele sobe-e-desce de quem nunca sabe se vai cair ou se levantar. Pegar um mal-entendido de praia e transformá-lo em filosofia dançante: é o gênio nordestino em estado puro.

Mudaram os tempos, claro. As festas se profissionalizaram e os figurinos ficaram bonitos demais. Perdeu-se um tanto daquela espontaneidade que fazia de um paletó enorme uma fantasia e de uma colcha velha um vestido de princesa. Era tudo improviso — e o que é perfeito demais, desconfie, costuma ter um quê de falso.

Mas a essência teima em ficar. E quando junho volta, o sertão recorda ao Brasil uma verdade simples: identidade cultural não se aprende em discurso. Aprende-se dançando — de preferência errando os passos, rindo disso e pulando a fogueira de mãos dadas com alguém que, ao cair do outro lado, já virou compadre para o resto da vida.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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