Entre fogueiras e sanfonas: por que junho ainda emociona o Brasil
Em meio às pressas de um mundo que não para de correr, os arraiais nordestinos seguem oferecendo um raro reencontro com aquilo que nos formou
Numa noite qualquer de junho, em alguma cidade do sertão, uma sanfona abre os foles — e um país antigo volta a respirar. Não é saudade vazia. É a memória cumprindo sua função mais nobre: lembrar quem a gente é.
Confesso que foi um vídeo bobo que me derrubou. Os bonecos rodopiavam no forró, as bandeirinhas conversavam com o vento e a música caminhava sem a menor pressa. Há algo profundamente humano — quase indecente, no bom sentido — numa canção que não tem hora para acabar.
O calendário marca 24 de junho como o dia de São João Batista, mas o Nordeste, que nunca foi de fazer as coisas pela metade, transformou a data em algo bem maior. Por semanas, da Bahia ao Maranhão, a vida desacelera em nome de uma herança de séculos. E, diga-se, em muita cidade o São João arrasta mais gente que o Carnaval — o que, para um nordestino, é quase uma declaração de princípios.
As origens são europeias: fogueiras, santos e rituais vieram na mala dos portugueses. Conta a tradição que tudo começou com uma chama — ao nascer João Batista, sua mãe, Isabel, acendeu uma fogueira para avisar Maria pela fumaça. O Nordeste levou o recado a sério e nunca mais parou de acender fogueiras. Mas cultura viva não é cópia: misturou índio, africano e sertanejo, jogou sotaque, ritmo e afeto, e devolveu uma festa que já não é da Europa nem só da Igreja. É do povo, e ponto.
Ninguém entendeu esse povo melhor do que Câmara Cascudo, que chegou a dedicar um livro inteiro, “Superstições no Brasil”, àquilo em que o sertanejo acredita sem pedir licença à razão. E junho é a alta estação da crendice — o mês em que se conversa com o futuro de igual para igual.
Cada santo do mês tem sua função. Santo Antônio, no dia 13, é o casamenteiro, e ai dele se vacila: as moças viravam a imagem dele de cabeça para baixo, amarravam-lhe os pés e juravam só soltá-lo quando o pretendente aparecesse. Era chantagem religiosa em regra, e ninguém ali via problema nisso. São João, no dia 24, é o festeiro; São Pedro, no dia 29, fecha o time.
A própria fogueira virava oráculo. Cascudo registrou a simpatia da moça aflita por saber quando se casaria: passava-se um copo d’água sobre as chamas, prendia-se ali dentro uma aliança num fio, sem tocar a água, e contavam-se as batidas do anel contra o vidro — tantas pancadas, tantos anos de espera. Havia ainda os valentes que cruzavam as brasas descalços, os “passadores de fogueira”, pagando promessa ou pedindo bênção. E quem pula a fogueira de mãos dadas com alguém vira seu compadre de fogueira — o que, no sertão, é parentesco tão sério quanto o de batismo.
É aqui que as noites da minha infância voltam de uma vez. As lâmpadas tortas entre os postes, o cheiro de milho assado escapando do fogo, as panelas de canjica, pamonha e mungunzá, e o pavor coletivo de que caísse um inverno — a chuva curta e atravessada que no sertão leva esse nome — bem na hora de acender a fogueira. Voltam, sobretudo, os personagens. Em toda rua havia o especialista autoproclamado em fogueira, o fiscal informal da quadrilha e aquela senhora convencidíssima de que sua pamonha era superior à da humanidade inteira.
— Dona Lourdes, a sua pamonha continua imbatível.
— Continua porque não tem com quem competir, meu filho.
Levei trinta anos para entender que aquilo não era vaidade. Era um diagnóstico.
O humor talvez seja a maior riqueza de tudo isso. Ariano Suassuna passou a vida provando que o sertanejo encara a dureza sem largar a gargalhada — para ele, rir não era fuga, era resistência. Basta um casamento matuto para confirmar: todos sabem o roteiro de cor e ninguém cansa. O noivo tenta fugir, o pai da noiva ameaça resolver tudo na bala, e a plateia vibra como se fosse estreia mundial.
— Compadre, esse casamento é de mentira, não é?
— É de mentira, sim. Mas é o único em que ninguém sai chorando. Então deixa ser.
Demorei a perceber que ele havia definido o casamento melhor do que qualquer padre. Jorge Amado também sacou essa vocação de transformar aperto em festa: por algumas horas somem as distâncias, e o médico dança ao lado do lavrador como se sempre tivessem dançado juntos.
E há a dança, muita dança. A quadrilha, herdeira distante da “quadrille” francesa do século XIX, com o marcador gritando “anavant”, “anarriê”, “balancê”, “changê” a um povo que nunca desconfiou da origem afrancesada e nem por isso obedeceu com menos vontade. Mas, quando a quadrilha encerra, o arraial não dorme: emenda no xote, no baião, no arrasta-pé que varava a madrugada até render o último casal teimoso. A França mandou as palavras; o Nordeste fez delas alegria. Negócio justo.
E havia a música para embalar tudo, com Luiz Gonzaga à frente. Veja a graça de “Pagode Russo”, que ele compôs com João Silva. A piada começa na origem: os dois flagraram, numa praia, uns europeus de saiote tocando gaita de fole e, com toda a convicção do mundo, decidiram que eram cossacos russos. Eram escoceses, mas isso é detalhe. Da confusão nasceu uma homenagem à Rússia assinada por dois sertanejos que mal tinham saído do próprio sertão: um sonho disparatado de acordar dançando em Moscou, numa boate de nome impossível que rima com a capital e esconde, na palavra “cossaco”, um trocadilho que todo mundo entende e finge que não entendeu. A dança dos cossacos, jura ele, parecia frevo — aquele sobe-e-desce de quem nunca sabe se vai cair ou se levantar. Pegar um mal-entendido de praia e transformá-lo em filosofia dançante: é o gênio nordestino em estado puro.
Mudaram os tempos, claro. As festas se profissionalizaram e os figurinos ficaram bonitos demais. Perdeu-se um tanto daquela espontaneidade que fazia de um paletó enorme uma fantasia e de uma colcha velha um vestido de princesa. Era tudo improviso — e o que é perfeito demais, desconfie, costuma ter um quê de falso.
Mas a essência teima em ficar. E quando junho volta, o sertão recorda ao Brasil uma verdade simples: identidade cultural não se aprende em discurso. Aprende-se dançando — de preferência errando os passos, rindo disso e pulando a fogueira de mãos dadas com alguém que, ao cair do outro lado, já virou compadre para o resto da vida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




