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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Epstein, Trump e as eleições nos EUA e no Brasil em 2026

A extrema direita precisa vencer nas urnas — ou basta transformar a democracia em um sistema permanentemente ingovernável?

Uma foto sem data de Jeffrey Epstein com Donald Trump, divulgada pelo Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA em 12 de dezembro de 2025. (Foto: Divulgação)

A avalanche de documentos nos Estados Unidos explode no ano eleitoral de 2026 como arma política de alto impacto. O escândalo pode não derrubar Donald Trump, mas pode incendiar a disputa pelo Congresso — e exportar para o Brasil o mesmo método de deslegitimação que a extrema direita precisa para tentar impedir a reeleição de Lula.  

A política como tribunal digital 

O escândalo Epstein volta ao centro da cena política americana no exato momento em que os Estados Unidos entram na disputa pelas eleições legislativas de 2026. A liberação de milhões de páginas, vídeos e registros reabre perguntas antigas e cria outras novas. Mas o impacto mais profundo não está apenas no conteúdo dos documentos. Está no modo como eles são utilizados. 

Quem ganha quando a política vira tribunal algorítmico? 

Em um ambiente saturado de informação, a lógica do poder se deslocou. Não vence quem prova: vence quem enquadra. Não domina quem investiga: domina quem viraliza. A avalanche documental não se transforma automaticamente em verdade pública. Ela se transforma em matéria-prima para disputa narrativa. 

O caso Epstein reúne todos os elementos que a máquina de guerra informacional contemporânea exige: poder, sexo, dinheiro, elite, conspiração. É combustível ideal para redes que operam com indignação permanente e suspeita contínua. Em 2026, esse combustível entra diretamente no motor da disputa eleitoral americana. E, certamente, no Brasil. 

A pergunta central deixa de ser apenas “o que é verdade?” e passa a ser “qual versão da realidade mobiliza mais”. 

Transparência radical 

A liberação massiva de documentos é apresentada como transparência. Mas transparência radical, sem mediação institucional, pode produzir o efeito inverso: excesso de dados, escassez de consenso. 

Mais informação não significa necessariamente mais verdade. Em um sistema de comunicação dominado por bolhas ideológicas e plataformas de alta velocidade, a avalanche documental fragmenta o debate público. Cada campo político extrai o que confirma sua narrativa. Cada influenciador transforma recortes em certezas. Cada rede amplifica o que gera engajamento. 

A transparência não resolve a disputa. Ela a intensifica. 

Nesse cenário, a prova vira meme.
E o meme passa a valer mais que a prova. 

Congresso dos EUA: o campo decisivo 

As eleições legislativas de novembro de 2026 nos EUA decidirão se Trump governa com maioria, sob bloqueio institucional ou em confronto permanente com o Congresso. Esse é o ponto de inflexão real. 

Se aliados mantiverem ou ampliarem maioria, o escândalo tende a ser politicamente neutralizado. Se a oposição conquistar a Câmara ou o Senado, abre-se outra fase: investigações, audiências, pressão institucional constante e eventual tentativa de impeachment. 

Mas a equação é mais profunda. Um Congresso hostil pode conter o presidente. Ou pode levá-lo a radicalizar ainda mais. 

A pergunta que paira sobre Washington é direta: se perder o controle do Congresso, Trump governará sob contenção institucional — ou sob lógica de vingança política? 

A experiência recente indica que o caminho provável é o confronto. E o confronto permanente. 

O método como produto de exportação 

O escândalo Epstein não permanece dentro das fronteiras americanas. Ele alimenta um ecossistema global de narrativas políticas interligadas. O que se exporta não é apenas informação. É o método. 

Esse método já é conhecido: 

– saturar o espaço público com suspeitas contínuas;
– dissolver a fronteira entre fato e insinuação;
– transformar eleições em plebiscitos morais permanentes;
– enfraquecer a confiança nas instituições;
– converter crises em clima político constante. 

Redes transnacionais de extrema direita operam com repertório comum. Narrativas circulam entre Estados Unidos, Europa e América Latina. O que se testa em Washington repercute em Brasília. O que se testa em Brasília retroalimenta a polarização global. 

O escândalo não precisa ser importado literalmente para o Brasil. Basta que se exporte o método de disputa permanente. 

Brasil 2026: vencer ou desestabilizar 

O Brasil entra em 2026 com cenário de provável reeleição de Lula. Diante disso, a estratégia da extrema direita não se limita à vitória eleitoral. Pode incluir a produção deliberada de instabilidade. 

Se não for possível vencer, é possível deslegitimar.
Se não for possível governar, é possível impedir governabilidade. 

A engenharia é conhecida: questionamento contínuo das instituições, produção de crises sucessivas, circulação de dossiês, mobilização permanente de suspeitas. Não é necessário provar. Basta insinuar. Não é necessário convencer a maioria. Basta manter a base mobilizada e o sistema em tensão constante. 

Nesse contexto, o caso Epstein funciona como símbolo poderoso. Ele reforça a narrativa de que todos são corruptos, todo sistema é fraudado e toda eleição é suspeita. É um discurso funcional para quem precisa transformar a política em guerra moral permanente. 

O objetivo pode não ser apenas derrotar Lula.
Pode ser impedir que qualquer governo progressista tenha estabilidade para governar. 

A disputa real: legitimidade 

O escândalo Epstein pode ou não produzir consequências jurídicas diretas para Trump. Mas suas consequências políticas já estão em curso. Ele se insere em uma disputa mais ampla: a disputa pela legitimidade das instituições democráticas. 

Se o debate público se organiza em torno de suspeitas intermináveis e versões inconclusas, instala-se um ambiente de instabilidade permanente. A confiança nas eleições diminui. A autoridade institucional se fragiliza. O sistema político passa a operar sob tensão contínua. 

A democracia não precisa ser derrotada nas urnas para ser enfraquecida.
Basta ser corroída pela desconfiança permanente. 

O escândalo Epstein pode não derrubar Trump. Mas pode consolidar um modelo de política baseado em crise permanente, guerra narrativa e deslegitimação sistemática das instituições. Esse modelo já demonstrou capacidade de circulação internacional. 

Entre Washington e Brasília, o que está em jogo não é apenas quem vence eleições em 2026. É o ambiente em que essas eleições ocorrerão. A extrema direita global já demonstrou que, quando não consegue vencer pelo voto, tenta inviabilizar o governo do adversário por outros meios: suspeita contínua, sabotagem institucional e guerra informacional permanente. 

Se a política vira tribunal algorítmico e a prova vira meme, a democracia não precisa ser derrotada formalmente. Basta ser envenenada no terreno em que ela opera. 

A questão central de 2026, nos Estados Unidos e no Brasil, é esta:
a extrema direita precisa vencer nas urnas — ou basta transformar a democracia em um sistema permanentemente ingovernável? 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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