Esquerda volta à presidência do Peru com José María Balcázar
Mudança no comando do Congresso devolve a esquerda ao poder e expõe a instabilidade crônica que transforma a sucessão presidencial em rotina no Peru
O presidente interino do Peru, José María Balcázar (Perú Libre), assumiu o comando do país após uma virada no Congresso que recolocou a esquerda ligada ao ex-presidente Pedro Castillo no centro do poder em Lima. Na quarta-feira (18), Balcázar venceu a disputa interna por 64 votos a 46 e substituiu José Jerí (Somos Perú), destituído um dia antes sob acusações de corrupção.
A troca acelerada escancara a crise institucional peruana e reforça a sensação de curto-circuito democrático, com presidentes caindo e subindo por arranjos parlamentares, e não pelo voto direto.
Balcázar, 83 anos, chega como ex-magistrado e parlamentar de um partido que tenta se reerguer desde a queda de Pedro Castillo, em 2022, quando o país mergulhou em uma sequência de governos provisórios e confrontos entre Congresso e rua.
No Peru, a presidência interina pode ser ocupada por quem comanda o Congresso, seguindo a linha constitucional de sucessão quando o titular é afastado. Foi o que ocorreu após a censura de Jerí: Balcázar assumiu a chefia do Parlamento e, em seguida, foi empossado presidente da República.
A votação foi em dois turnos, com Balcázar superando María del Carmen Alva (Ação Popular), nome do campo de centro-direita.
O discurso de “restauração” do poder do partido de Castillo é, na prática, um movimento para controlar o volante do Estado no curto prazo, ditar prioridades e reorganizar a correlação de forças até a próxima etapa eleitoral.
Segundo a imprensa internacional, Balcázar deve permanecer até a transição marcada para julho, em um calendário que prevê eleições gerais em abril.
A reabilitação do Perú Libre no coração do governo peruano tende a reverberar na América do Sul por dois motivos.
Primeiro, pelo aspecto simbólico: a esquerda que foi expulsa do Executivo com a queda de Castillo volta pela porta do Congresso, reforçando a ideia de que a disputa no Peru não é só eleitoral, mas também uma guerra de sobrevivência institucional.
Segundo, pela previsibilidade: vizinhos e investidores olham para Lima em busca de estabilidade mínima. E o Peru, ao somar mais um presidente em sequência, sinaliza que a turbulência virou método.
No Peru, a fila de presidentes derrubados pelo Congresso virou rotina: o professor e sindicalista Pedro Castillo (Perú Libre) caiu em 2022 após tentar dissolver o Parlamento e acabou destituído por “incapacidade moral”, abrindo caminho para a vice Dina Boluarte;
Boluarte, por sua vez, foi afastada em 2025, também sob a mesma justificativa, em meio à crise de segurança e protestos; e o presidente interino José Jerí (Somos Perú) foi destituído na última terça-feira (17) e é alvo de investigações por suposto tráfico de influência, num país que já havia derrubado Martín Vizcarra em 2020, igualmente por “incapacidade moral”.
Dito isso, a “vitória” do Perú Libre não resolve o nó central: quando o país vira refém de trocas-relâmpago no topo, quem paga a conta é a população, que vê o Estado patinar e a política virar um ringue permanente.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



