Esta é a única manchete: aumentou a química entre Trump e Lula
“O encontro de três horas na Casa Branca resultou no impensável: não rendeu nenhuma notícia relevante”, escreve Moisés Mendes
Imaginem a cena em que um foca americano, desafiado a fazer a sua primeira grande reportagem, seja enviado à Casa Branca para cobrir a reunião de Trump com Lula. E que esse aprendiz de jornalista, por uma falha da segurança, consiga entrar no Salão Oval.
O foca volta à redação do jornal ali mesmo, em Washington, e diz o seguinte ao seu editor: eu entrei, eu vi tudo, mas não aconteceu nada. Durante três horas, eles só falaram de coisas que não merecem registro ou manchete.
O editor espanta-se com a informação de que só o seu repórter conseguiu entrar no Salão Oval. Mas o foca não tem o que escrever. O editor teria a certeza de que estava diante de mais um caso da síndrome do foca.
É uma situação clássica nas redações de todos os portes. O aprendiz sai para a primeira missão e volta bloqueado, sem saber o que escrever. Por ter certeza de que esteve diante da não notícia.
Seria o caso desse foca. Que insiste: Trump e Lula não trataram nada sobre crime organizado e seu enquadramento como terrorismo. Passaram quase por cima da pauta das terras raras. Nem chegaram perto da guerra americana contra o PIX brasileiro.
O editor pede então, num truque antigo de veteranos: não escreva nada, mas me conte o que você viu e ouviu. Conte desde o começo, lembrando sempre que foram três horas de reunião.
E o foca começa contando que a conversa passou pela questão das tarifas. Mas que, mesmo sendo foca, não viu nada de novo. Que Trump e Lula assumiram o compromisso de formar equipes para discutir mais uma vez o tarifaço. Nada de novo.
E as eleições brasileiras? – pergunta o editor. Nada, responde o foca. Tanto, acrescenta ele, que Lula disse depois na coletiva que não abordaria esse assunto de jeito nenhum com Trump ou com qualquer outro presidente.
O editor quer saber de Cuba. O foca diz que Lula tomou a iniciativa de tratar do assunto e disse apenas que se colocava à disposição de Trump para ajudar numa solução para o bloqueio à ilha.
Sobre o Irã, diz o foca, Lula lamentou a guerra e apresentou a Trump uma tentativa de acordo para eliminação da possibilidade de produção de armas nucleares pelos aiatolás.
O editor rebate: mas esse acordo, que foi mediado pelo Brasil, é de 2010. O foca responde: exatamente, foi isso mesmo que Lula disse a Trump. Que desde 2010 ele tenta acabar com os pretextos para essa guerra, mas foi sacaneado por Obama e Hillary.
E o foca, já entusiasmado, acrescenta por conta: não falaram nada sobre aquela família complicada, só meia frase sobre as big techs, nenhum comentário sobre questões políticas internas do Brasil e dos Estados Unidos.
E o editor, já irritado, pergunta com voz impositiva: mas do que então eles falaram durante três horas? O foca, que está de pé, senta-se com calma numa cadeira ao lado do editor.
E começa a contar que Trump e Lula passaram quase todo o tempo dizendo que têm uma admiração contida um pelo outro e que aquilo tinha de novo um clima e uma química diferentes. Tanto que, ao falar depois com os jornalistas, Lula chegou a usar a expressão amor à primeira vista.
E o que vamos publicar? – pergunta o editor, abrindo os braços. O foca responde: publique o que todos os jornais brasileiros dirão em manchete. Que a reunião foi cordial e produtiva. Que Trump se referiu a Lula como um presidente dinâmico. Que, depois da conversa com Lula, Trump nunca mais pensará em invadir Cuba.
E publique na capa, porque todos os jornais brasileiros e americanos também farão a mesma coisa – diz o foca –, que no almoço Trump e Lula comeram purê de feijão e torta de panna cotta de mel com pêssegos caramelizados e sorvete de crème fraîche. E que depois de três horas de reunião eles tiraram várias fotos às gargalhadas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



