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'Demos um passo importante na relação democrática e histórica com os EUA', diz Lula

Após encontro com Trump, Lula citou comércio, tarifas, segurança, minerais críticos e defesa da soberania brasileira como eixos da nova etapa de diálogo

'Demos um passo importante na relação democrática e histórica com os EUA', diz Lula (Foto: Reprodução/Youtube)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (7) que Brasil e Estados Unidos deram “um passo importante” na relação democrática e histórica entre os dois países, após reunião com Donald Trump na Casa Branca, em Washington. O encontro tratou de comércio, tarifas, crime organizado, minerais críticos e soberania.

As declarações de Lula foram dadas à imprensa na embaixada do Brasil em Washington, após o encontro com Trump. O presidente brasileiro disse ter saído satisfeito da reunião e defendeu que as duas maiores democracias do continente podem ampliar a cooperação bilateral sem abrir mão de seus interesses nacionais.

“Eu saio daqui com a ideia de que nós demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica que o Brasil tem com os Estados Unidos”, afirmou Lula.

O presidente disse ter ressaltado a Trump que uma boa relação entre os dois países pode ter peso internacional. “A boa relação entre Brasil e Estados Unidos é uma demonstração ao mundo de que as duas maiores democracias do continente podem efetivamente servir de exemplo para o mundo”, declarou.

Lula lembrou que os Estados Unidos foram, ao longo do século XX, o principal parceiro comercial do Brasil, mas perderam espaço a partir de 2008, quando a China passou a ampliar a compra de produtos brasileiros. Segundo ele, o governo brasileiro vê como positivo um maior interesse dos EUA em investimentos e parcerias no país.

O presidente citou licitações internacionais em infraestrutura como exemplo. De acordo com Lula, empresas estadunidenses muitas vezes deixam de participar de concorrências para rodovias e ferrovias no Brasil, enquanto companhias chinesas se apresentam como interessadas.

“Eu disse para ele que muitas vezes nós fazemos licitações internacionais para fazer uma rodovia, uma ferrovia, e os Estados Unidos não participam da licitação. Quem participa são os chineses”, afirmou.

Lula defende multilateralismo diante de tarifas

Lula afirmou que também discutiu com Trump a necessidade de fortalecer o multilateralismo em um cenário marcado por disputas comerciais. O presidente brasileiro mencionou acordos do Mercosul com a União Europeia, EFTA e Singapura, além das negociações com Canadá e Japão.

Segundo Lula, esses movimentos ampliam a defesa do multilateralismo diante do unilateralismo associado às tarifas aplicadas por Trump. “Isso dá uma dimensão de defesa do multilateralismo contra o unilateralismo colocado em prática pelas taxações do presidente Trump”, disse.

No campo comercial, Lula afirmou ter apresentado a Trump dados sobre o superávit acumulado dos Estados Unidos na relação com o Brasil nos últimos 15 anos. Ele também destacou que, no último ano, o Brasil registrou déficit de US$ 14 bilhões com os EUA.

O presidente brasileiro rejeitou a ideia de que o Brasil pratique uma carga tarifária elevada contra produtos estadunidenses. “Nós temos a média do imposto que nós cobramos de vocês é 2,7%. Apenas 2,7%”, afirmou.

Lula disse ter proposto a criação de um grupo de trabalho entre os dois governos para discutir tarifas e comércio. A ideia, segundo ele, é que representantes da área comercial dos dois países apresentem uma proposta em até 30 dias. “Quem tiver errado vai ceder. Se alguém tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que ceder”, declarou.

Crime organizado entrou na pauta da reunião

Lula afirmou que temas considerados sensíveis também foram tratados no encontro, entre eles o combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas e ao tráfico de armas. Para o presidente, a repressão isolada não é suficiente se não houver alternativas econômicas para países produtores de drogas.

“Como que você vai fazer um país deixar de produzir coca se você não oferece uma alternativa de algum produto para que alguém possa plantar e ganhar dinheiro?”, questionou.

O presidente defendeu a criação de um grupo internacional de trabalho para enfrentar o crime organizado, com participação de países da América do Sul, da América Latina e possivelmente de outras regiões do mundo. Segundo Lula, esse combate não deve ser conduzido pela hegemonia de um único país.

“Não é hegemonia de um país ou de outro que ele é combater o crime organizado. É uma coisa que tem que ser compartilhada com todos”, afirmou.

Lula também disse que o Brasil tem experiência no enfrentamento ao tráfico de drogas e de armas, e destacou que parte das armas que chegam ao território brasileiro tem origem nos Estados Unidos. Ele mencionou ainda a existência de lavagem de dinheiro em estados norte-americanos.

“Se a gente souber isso e colocar a verdade em torno da mesa e criar um grupo de trabalho para trabalharmos juntos, a gente pode resolver em anos aquilo que não se resolveu em séculos”, declarou.

Minerais críticos e soberania nacional

Outro tema tratado na reunião foi a exploração de minerais críticos. Lula afirmou ter informado Trump sobre a aprovação, na Câmara dos Deputados, de uma proposta relacionada ao setor, com a criação de um conselho sob coordenação da Presidência da República.

Segundo Lula, o objetivo é tratar os minerais críticos como uma questão de soberania nacional e ampliar o conhecimento sobre o território brasileiro. O presidente afirmou que o Brasil conhece apenas 30% de seu território do ponto de vista mineral e precisa avançar para alcançar 100%.

Lula disse que o Brasil está aberto a parcerias com empresas de diferentes países, sem preferência exclusiva por uma potência. “Nós não temos preferência. O que nós queremos é fazer parceria, compartilhar com as empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas, quem quiser participar conosco”, afirmou.

O presidente ressaltou que o país busca atrair investimentos para mineração, separação e produção de riqueza a partir de terras raras e outros minerais estratégicos.

“Democracia e soberania” como limites

Lula afirmou que o Brasil está preparado para discutir qualquer tema com qualquer país, mas destacou que há limites inegociáveis. “Nós não temos veto, não tem assunto proibido. A única coisa que nós não abrimos mão é da nossa democracia e da nossa soberania. O resto é tudo discutível”, declarou.

Ao avaliar o encontro, o presidente disse considerar a reunião positiva para os dois países. “Então eu saio muito, muito satisfeito da reunião. Acho que foi uma reunião importante para o Brasil e importante para os Estados Unidos”, afirmou.

Lula também relatou uma conversa descontraída com Trump sobre a Copa do Mundo. Segundo o presidente brasileiro, Trump perguntou sobre a seleção brasileira, e Lula respondeu em tom de brincadeira.

“Eu espero que você não venha anular o visto dos jogadores brasileiros para a seleção. Por favor, não faça isso, porque nós vamos vir aqui para ganhar a Copa do Mundo”, disse Lula.

O presidente afirmou que Trump riu durante o diálogo e voltou a destacar o clima positivo da reunião em Washington.

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