Estados Unidos em chamas: a violência do ICE, a volta dos Panteras Negras e a rebelião em Minneapolis
Tensão social escala nos EUA. O ditador Trump ameaça com mais repressão. Na conturbada cena, reaparece uma nova versão dos Panteras Negras
A tensão social escala nos Estados Unidos. O ditador Donald Trump ameaça com mais repressão para conter a onda de protestos em Minneapolis. Na conturbada cena, reaparece uma nova versão dos Panteras Negras, com a mesma estética e objetivos da organização fundada nos anos 60.
Para conter a crescente onda de protestos nos Estados Unidos, o ditador Donald Trump ameaça enviar mais tropas federais para Minnesota e recorrer à Lei da Insurreição – Insurrection Act –, um mecanismo institucional que autoriza o uso das Forças Armadas para repressão nas áreas urbanas, militarizando o enfrentamento aos protestos populares no país.
A tensão em Minnesota aumentou após o assassinato de Renee Nicole Good, de 37 anos, baleada à queima-roupa por um agente do ICE – a polícia do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário. Ela protestava contra a caçada do ICE a imigrantes na área central da cidade de Minneapolis.
Nos últimos dias, as ações do ICE vêm provocando uma onda de indignação em todo o país. Grupos de moradores organizam a vigilância nas ruas e enfrentam as “batidas” do ICE em pontos de ônibus, lojas, mercados, postos de gasolina, portas de igrejas e hospitais. A abordagem truculenta do ICE, muitas vezes, implica em espancamentos nas vias públicas de homens, mulheres e até de crianças.
Reaparecem os Panteras Negras
Na Filadélfia, em resposta aos agentes do ICE, surgiu um grupo de ativistas armados com a denominação de Black Panther Party for Self-Defense. O grupo afirma ser uma continuidade do movimento Black Panther dos anos 60 e garante ter sido orientado e inspirado nos ex-dirigentes ainda vivos do antigo partido revolucionário negro.
Os Panteras Negras atuais operam da mesma forma que o Partido Black Panther original: realizam patrulhas armadas em áreas do norte da Filadélfia, praticam ações de autodefesa das manifestações populares com armas de grosso calibre e realizam atividades comunitárias de distribuição gratuita de alimentos e medicamentos.
A combinação de ações armadas com o apoio comunitário e assistencial nas áreas de atuação dos Panteras Negras foi marca do movimento nos anos 60. Um vídeo divulgado amplamente nas redes sociais mostra membros da nova geração dos Panteras Negras confrontando policiais durante rondas comunitárias na cidade. As imagens alimentam o debate sobre o retorno de organizações negras armadas em resposta à violência do Estado.
De acordo com reportagem do Philadelphia Inquirer, o grupo afirma ter sido reorganizado com apoio e treinamento de sobreviventes do partido original, fundado nos anos 1960. A atuação recente inclui participação em protestos contra o ICE, especialmente após a morte de Renee Nicole Good.
Paul Birdsong, de 39 anos, presidente nacional dos Panteras Negras, afirma que os integrantes do movimento possuem autorização legal para portar armas de fogo. Segundo ele, a mobilização atual tem relação direta com as políticas do governo Donald Trump. “Isso não teria acontecido se estivéssemos lá. Ninguém teria sido tocado”, declarou ao jornal, ao comentar a morte durante a operação do ICE em Minneapolis. Birdsong também defende a extinção do ICE, que classifica como um “órgão hostil à população comum”.
A origem dos Panteras Negras
Fundado em 1966, em Oakland, na Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale, o Partido dos Panteras Negras surgiu no contexto do movimento pelos direitos civis, com foco inicial no combate à violência policial contra a população negra.
A organização defendia a autodefesa armada, amparada pela Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos, e a autodeterminação das comunidades afro-americanas. Com o tempo, ampliou sua atuação, estruturou programas sociais e adotou uma linha ideológica revolucionária, com críticas ao capitalismo e defesa do socialismo.
Os Panteras Negras estabeleceram relações políticas com Cuba, Argélia e com partidos de esquerda e revolucionários da América Latina e Europa.
No final da década de 1960, os Panteras Negras contavam com uma vasta rede de apoio integrada por milhares de militantes e simpatizantes, e comitês espalhados em todas as regiões dos Estados Unidos. A expansão, no entanto, foi acompanhada por intensa repressão policial estatal. O FBI incluiu o partido em seu Programa de Contrainteligência, promoveu infiltrações, incentivou divisões internas e intensificou ações que resultaram em prisões de lideranças e militantes, mortes e asfixia financeira.
No final dos anos 70, com a liderança remanescente dos Panteras Negras encarcerada, o partido acabou dissolvido.
O elo mais fraco de Trump
O governo de Trump elevou as contradições políticas e sociais nos Estados Unidos. Além dos continuados e furiosos protestos nas ruas, governadores e prefeitos de diversas regiões do país rejeitam as medidas executivas autoritárias da administração federal.
Donald Trump, na primeira semana de janeiro, durante uma reunião com parlamentares republicanos em Washington, manifestou preocupação com a sua permanência no comando do país. No mês de novembro, ocorrem as eleições de meio de mandato, e Trump apelou para a mobilização das bases do Partido Republicano no sentido de garantir uma maioria parlamentar: “Vocês precisam vencer as eleições de meio de mandato porque, se a gente não vencer, vai ser simplesmente assim — quer dizer, eles vão encontrar um motivo para um impeachment. Eu vou sofrer impeachment”, disse.
Donald Trump sofre investigações judiciais e em comissões do Congresso sobre o seu envolvimento no caso da rede de pedofilia de Jeffrey Epstein. Trump enfrenta também pontos de tensão com os efeitos das medidas de cortes de recursos federais para o sistema de saúde, assistência social, habitação e a elevação do custo de vida, que afetam os segmentos mais pobres da população norte-americana.
Portanto, Trump, que se elegeu com a promessa de acabar com as guerras na Ucrânia e em Gaza, fez o contrário do prometido: ampliou os conflitos em curso com o envio de mais armas e abriu novas frentes de agressões na América Latina, além de agora ameaçar anexar a Groenlândia.
As pretensões imperiais da extrema direita trumpista encontram, dentro de casa, uma crescente resistência – é o elo mais fraco do projeto hegemonista e autoritário de Donald Trump.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



