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Joaquim de Carvalho

Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br

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“Estamos preparados para as piores situações possíveis”, diz embaixador do Irã no Brasil

Esta poderá ser uma guerra longa, analisa especialista, já que há evidências de que a China dá apoio material e fornece informações ao país persa

Embaixador do Irã: "O que acontece no Irã molidará as decisões futuras no mundo inteiro" (Foto: Joaquim de Carvalho)

O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, disse que seu país está preparado para uma guerra de longa duração com os EUA e com Israel. “O Irã está pronto para todas as situações possíveis”, disse, ao responder uma pergunta minha durante uma coletiva de imprensa na manhã de hoje.

A resposta de Nekounam poderia ser fruto da retórica de guerra e, por isso, perguntei a Robinson Farinazzo, capitão de fragata da Marinha do Brasil, hoje na reserva, como ele interpreta essa frase, se o Irã tem mesmo capacidade de resistir ao ataque prolongado. “Esta é a pergunta de um milhão de dólares”, respondeu Farinazzo, autor do Canal Arte da Guerra, em entrevista à TV 247.

Mas ele entende que o Irã está “bem guarnecido”, porque conta com apoio da China.

“A China está fornecendo informações de satélite para o Irã. Essas informações são importantíssimas porque você tem a localização de latitude e longitude dos navios, você tem a situação das bases aéreas, se elas estão ocupadas ou não, se vale a pena atacá-las ou não. Provavelmente a China tem escutas das conversações americanas. Ou seja, tudo aquilo que a NSA fornece para a Ucrânia, a China, provavelmente, está fornecendo para o Irã”, analisou.

E lembrou o caso da apreensão de um navio chinês no oceano Índico carregado de perclorato de sódio que se dirigia para o Irã. Trata-se de um composto químico que pode ser usado como combustível de míssil. Normalmente, se usa para essa finalidade o perclorato de amônia, mas, como o Irã está sancionado e não consegue comprar no mercado, o país persa, na visão do militar, deve estar usando o componente alternativo para estocar combustível essencial para seus mísseis.

Segundo ele, fontes israelenses dão conta de que a China já tinha fornecido mais de mil toneladas de perclorato de sódio ao Irã. “Se isso aconteceu, enquanto tiver bambu, tem flecha”, comentou, lembrando a “frase infeliz” de Rodrigo Janot, o padrinho da Lava Jato. “Se isso aconteceu mesmo, o Irã tem munição aí para muito tempo”, acrescentou.

O Irã também trocou o GPS e passou a usar os sistemas da China e Rússia, no lugar de satélite dos EUA, que agora têm muita dificuldade de rastrear e neutralizar os mísseis iranianos. Talvez seja este o motivo da derrubada de três caças norte-americanos nesta segunda-feira.

A derrubada foi atribuída à força aérea do Kwait, mas ele diz que “talvez não seja”. “O questionamento é se o Irã consegue jamear (jamear significa interferir) no sistema de radar AGP 81 da força aérea americana. Se aconteceu isso, se o Irã tem todas essas capacidades, você pode apostar numa guerra longa”, elaborou Farinazzo.

De volta à coletiva do embaixador do Irã, que aparentou muita tranquilidade. Com um tom de voz baixo e falando pausadamente, Abdollah Nekounam falou sobre a capacidade militar de seu país.

Ele disse que, em razão das sanções dos EUA e do Ocidente, o Irã atingiu a autossuficiência e uma produção de qualidade em vários setores da indústria, inclusive militar.

“Nós temos equipamentos militares de alta qualidade. Vocês se lembram que, alguns meses atrás, um dos países que nos atacaram (Israel) estava querendo copiar o sistema de nossos drones, devido à sua alta qualidade”, pontuou.

O embaixador não respondeu à pergunta se acreditava que a guerra contra o Irã tem como alvo a China e seu projeto de infraestrutura conhecido como Rota da Seda, que encurtará as distâncias para outros mercados. Ele sugeriu que esta pergunta seja feita ao governo chinês.

“O que nós podemos dizer é, primeiro, que nós estamos numa situação geopolítica complexa. E que o que acontece no Irã moldará as decisões futuramente no mundo inteiro. Alguns países, principalmente os Estados Unidos, buscam o unilateralismo. Mas acredito que tem uma visão no mundo de que nós já passamos dessa visão unilateral”, afirmou.

E voltou a falar sobre como seu país encara esta guerra. “O Irã está pronto para as piores situações”, arrematou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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