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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Evolução econômica do futebol

O futebol brasileiro tornou-se uma “economia dual”. Hoje, há poucos clubes super-rentáveis e vários clubes altamente endividados

Bola de futebol (Foto: Brasil 247)
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A evolução econômica do futebol no Brasil, nas últimas décadas, foi extraordinária. O esporte deixou de ser uma atividade relativamente amadora e associativa para tornar-se uma indústria de entretenimento, plataforma global de mídia, mercado internacional de ativos esportivos e negócio financeiro altamente complexo.

Ao mesmo tempo, essa modernização ocorreu de forma contraditória porque as receitas cresceram fortemente, mas também cresceram as dívidas, os custos e a dependência financeira.

Houve uma evolução da “economia do clube social” para o futebol-negócio. Até os anos 1980, os clubes eram majoritariamente associações sociais, dirigidos por cartolas amadores, com receitas limitadas e pouca transparência contábil.

As principais receitas vinham de bilheteria, mensalidade social e venda eventual de jogadores. Os pagamentos por parte de rádios e TVs ainda eram pouco valorizados. O futebol era menos monetizado.

A grande transformação ocorreu em função da televisão e da globalização. Nos anos 1990–2000, houve uma explosão dos direitos de TV, internacionalização do futebol, desenvolvimento do marketing esportivo, aumento dos patrocínios e profissionalização parcial.

O futebol passou a funcionar como produto audiovisual global. Isso aumentou enormemente as receitas, a exposição publicitária e a pressão competitiva.

O novo ciclo milionário aconteceu porque, hoje, os maiores clubes brasileiros movimentam cifras gigantescas.

Em 2025, a receita total dos clubes brasileiros da Série A aproximou-se de R$ 15 bilhões. Cinco clubes ultrapassaram R$ 1 bilhão anual em receitas. Os líderes financeiros recentes são o Clube de Regatas do Flamengo e a Sociedade Esportiva Palmeiras.

As principais fontes de receita capazes de sustentar os clubes são, não em ordem de importância, os direitos de transmissão de jogos. Eles são fundamentais porque incluem TV aberta, TV fechada, pay-per-view e streaming. Historicamente, Flamengo e Corinthians captam valores maiores pela audiência massiva de suas torcidas.

O patrocínio e o marketing cresceram enormemente por causa das casas de apostas, bancos digitais, fintechs, material esportivo e naming rights das arenas. O futebol tornou-se uma plataforma de publicidade de massa.

A matchday (receita de estádio) inclui ingressos, camarotes, alimentação dos torcedores, cobrança de estacionamento e experiências premium para os esnobes. As novas arenas elevaram muito esse faturamento.

O programa de sócio-torcedor transformou paixão em receita recorrente. Clubes com grandes torcidas desenvolveram programas altamente lucrativos.

A venda de jogadores talvez seja a mais estratégica, em termos de lucros especulativos, pela supervalorização decorrente de expectativas incertas em relação aos jovens atletas. O Brasil tornou-se exportador global de talentos. Muitos clubes dependem muito disso para equilibrar o caixa.

O crescimento das receitas veio acompanhado de uma explosão dos custos. Os maiores gastos são com folha salarial dos jogadores, comissão técnica e pagamentos de direitos de imagem. A infraestrutura demanda despesas com manutenção de estádios, centros de treinamento, viagens da equipe para jogos e suporte às categorias de base.

As contratações, com compra de direitos econômicos dos atletas, pagamento de luvas e intermediação de empresários, pesam muito. Também cresce a dívida financeira com juros de empréstimos bancários. Ela depende, periodicamente, de renegociações.

O problema estrutural é constituído por dívidas gigantescas. Apesar das receitas recordes, os principais clubes acumulam cerca de R$ 16 bilhões em dívidas. Os casos mais críticos recentes incluem Corinthians e Atlético Mineiro. Botafogo e Cruzeiro, antes da SAF, estavam “à beira da quebra”.

O caso extremo do Corinthians é espantoso. Apesar da maior torcida em São Paulo, possui atualmente uma das maiores dívidas do futebol brasileiro: cerca de R$ 2,4 bilhões. As causas incluem a dívida decorrente do custo de construção de sua arena, juros sobre ela, antecipações de receitas futuras (e esvaziamento das presentes), contratações caras, passivos tributários e perdas em ações judiciais. Mesmo com receitas enormes, o comprometimento financeiro não é coberto.

Flamengo e Palmeiras têm modelos mais sustentáveis. Consolidaram modelos mais equilibrados de governança, maior profissionalização, controle financeiro, receitas diversificadas, fortes patrocinadores e capacidade de investimento contínuo. Isso criou um círculo virtuoso: receita → elenco forte → títulos → mais receita.

A gestão dos clubes realmente se profissionalizou, embora de forma desigual. Hoje, há CEOs, CFOs, compliance, auditoria, análise de dados, planejamento estratégico e marketing sofisticado.

Os clubes tornaram-se organizações empresariais complexas. Mas ainda persistem o clientelismo político, o amadorismo dirigente, as decisões passionais e o populismo eleitoral interno.

A criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) mudou profundamente o cenário. Foi a maior mudança institucional recente. Ela permite entrada de investidores, separação patrimonial, recuperação judicial, gestão empresarial, emissão de dívida e profissionalização formal.

Entre os principais clubes com SAF, destaca-se como pioneiro o Cruzeiro Esporte Clube, seguido pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Adotaram o modelo, entre outros, o Clube Atlético Mineiro, o Esporte Clube Bahia e o Vasco da Gama.

A SAF trouxe como aspectos positivos a capitalização, a profissionalização, a governança, a reestruturação de dívidas e a modernização administrativa. Persistem como aspectos negativos ou riscos a dependência de investidores, a financeirização extrema, os conflitos societários, o aumento do endividamento privado e a perda de controle associativo.

O caso do Botafogo tornou-se símbolo do potencial da SAF, com investimento estrangeiro forte, conquista de títulos e maior competitividade latino-americana. Mas também revelou riscos associados a gastos acelerados, aumento da dívida e dependência do controlador.

O futebol brasileiro tornou-se uma “economia dual”. Hoje, há poucos clubes super-rentáveis e vários clubes altamente endividados. A desigualdade aumentou muito após as negociações individuais de TV, a concentração de audiência e a globalização financeira.

O diagnóstico mais atual é o de que o futebol brasileiro vive, simultaneamente, uma expansão econômica histórica, uma profissionalização crescente, maior internacionalização, aumento de receitas e fortalecimento global, mas também hiperinflação de custos, endividamento estrutural, dependência da venda de atletas, concentração de poder econômico e financeirização crescente.

O futebol brasileiro está deixando definitivamente de ser apenas patrimônio cultural associativo para tornar-se uma indústria global de entretenimento e ativos esportivos. Quando a paixão futebolística se converterá em compra de ações?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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