Re-evolução cultural na infância
Muitas das diversões infantis não desapareceram totalmente, mas perderam centralidade
O pedido de recuperação judicial, protocolado pela fabricante de brinquedos Estrela, no dia 20 de maio de 2026, expõe não só o esgotamento financeiro de uma das mais icônicas marcas do mercado brasileiro. Evidencia mudanças em hábitos de consumo não acompanhadas por companhias com produtos não digitais.
Trouxe-me também lembranças de infância da geração baby-boom, especialmente nos anos 50s. Reúnem praticamente um “ecossistema cultural” da infância urbana e suburbana do pós-guerra.
Muitas das diversões infantis não desapareceram totalmente, mas perderam centralidade. Mudaram, simultaneamente, a estrutura da família, a urbanização, a tecnologia, a indústria cultural, os valores educacionais, a relação entre gerações, o tempo livre e a própria percepção social da infância.
A infância de quem nasceu nos anos 1950 foi provavelmente a última grande infância “analógica-coletiva” do século XX. No pós-guerra, havia abundância demográfica e vida comunitária.
Quem nasceu nos anos 1950 cresceu em um mundo marcado por forte crescimento populacional (“baby boom”), famílias numerosas, bairros com muitas crianças, ruas relativamente menos motorizadas, maior convivência intergeracional, escola em meio período, televisão em preto-e-branco com programação ainda limitada, consumo cultural mais lento e compartilhado.
As crianças viviam muito mais em “bandos” em lugar de circular individualmente. As brincadeiras de rua eram: bola de gude; pião; carrinho de rolimã; taco; “polícia e ladrão”; pega-pega; esconde-esconde; queimada; amarelinha; pipa; e futebol de rua. Dependiam de três condições históricas: muitas crianças no mesmo espaço, ruas menos perigosas e autonomia infantil.
Isso foi se reduzindo por várias razões. A primeira foi a urbanização motorizada.
As cidades passaram a ser organizadas para automóveis, não para crianças. Houve aumento do trânsito, verticalização dos imóveis, desaparecimento dos terrenos baldios, redução de quintais e medo de acidentes. A rua deixou de ser extensão da casa.
A segunda razão foi a violência urbana e o medo social. A partir dos anos 1980, o crescimento do crime urbano, a cobertura midiática intensiva e o medo dos pais espalhou a cultura do “não saia sozinho”. A infância tornou-se mais vigiada e confinada.
A terceira razão foi a redução do número de filhos, um ponto decisivo historicamente. A combinação de urbanização, aumento do custo de criação dos filhos, escolarização feminina, entrada massiva da mulher no mercado de trabalho, difusão da pílula anticoncepcional e mudança cultural, após os anos 1960, reduziu muito o tamanho das famílias da média de seis filhos, nos anos 50s, para menos de dois, atualmente, sendo as de baixa renda em média com dois e as de alta renda com apenas um filho único.
O impacto demográfico foi gigantesco. No Brasil, nos anos 1950–60, era comum famílias com 4, 5, 6 ou mais filhos. Hoje, a taxa de fecundidade está abaixo da reposição populacional.
A criança típica mudou. Antes, tinha vários irmãos, primos, vizinhos. Hoje, tem poucos irmãos ou é filho único. Isso altera completamente a socialização, as brincadeiras, o consumo e a relação com adultos. A criança contemporânea vive mais entre adultos e telas em vez de ser entre outras crianças.
Os brinquedos “materiais” e o imaginário industrial foi superado pela digitalização. Os brinquedos da Estrela simbolizavam outra etapa do capitalismo cultural.
Havia, jogos de tabuleiro, brinquedos mecânicos, autoramas, forte dimensão imaginativa e interação presencial. O Banco Imobiliário era quase uma pedagogia informal do capitalismo urbano com a simulação de compra de terrenos, aluguel, acumulação de riqueza em imóveis e falência.
Com videogames, internet e smartphones, o brinquedo físico perdeu centralidade, a brincadeira tornou-se digital, o entretenimento ficou individualizado e a atenção passou a ser capturada continuamente.
O cinema era uma espécie de ritual coletivo. Ir ao cinema era um evento social. Assistia-se matinês, seriados, faroestes, desenhos, aventura e até catarse coletiva.
Os heróis eram muito claros, moralmente, apresentados como cowboy, policial, aventureiro, justiceiro e explorador. Isso refletia o clima ideológico do pós-guerra e da Guerra Fria, a valorização da ordem, o heroísmo masculino, a expansão da fronteira com conquista de território, o nacionalismo e o progresso técnico.
A transformação dos heróis, após os anos 1960, resultou da revolução cultural ocorrida nessa década. Alterou profundamente o imaginário ocidental.
Entraram em crise a autoridade tradicional, o patriarcalismo, a moral puritana, o colonialismo, o racismo explícito e a idealização militar. Muitos heróis clássicos passaram a parecer simplistas, autoritários, colonizadores e “ingênuos”.
Séries como Rin Tin Tin, Zorro e Patrulheiro Rodoviário pertenciam a uma cultura na qual a autoridade era celebrada, o bem e o mal eram nitidamente separados e havia confiança no progresso e nas instituições. Depois, surgem anti-heróis, ambiguidade moral, crítica ao poder centralizado de um autocrata, cultura juvenil rebelde, contracultura e individualismo expressivo.
As revistas em quadrinhos foram superadas pela mudança do ritmo cognitivo. Revistas como Luluzinha, Bolinha, Tio Patinhas, Pato Donald, Tarzan e Príncipe Valente exigiam leitura sequencial, imaginação, espera e continuidade narrativa.
A cultura digital favorece velocidade, estímulo contínuo, fragmentação, vídeos curtos e multitarefa. Mudou o próprio regime de atenção.
A televisão destruiu parte do mundo criado por ela mesma. A TV, inicialmente, unificou a cultura infantil porque todos assistiam às mesmas séries.
Depois, houve a multiplicação de canais, surgiu o streaming sob demanda, a vasta internet, o YouTube, os videogames e as redes sociais. O entretenimento tornou-se personalizado, algorítmico, individual e contínuo. A experiência coletiva diminuiu.
O desaparecimento da “infância de rua” talvez tenha sido a maior mudança estrutural. A infância dos anos 1950–70, era mais coletiva, menos supervisionada, mais territorial, mais física e mais intergeracional.
A infância contemporânea é mais institucionalizada, mediada por telas, organizada por adultos, voltada ao desempenho escolar e muito mais mercantilizada. Em certo sentido, desapareceu uma forma histórica específica de infância ligada ao bairro, à família numerosa, à rua, ao cinema de bairro, à cultura impressa e ao mundo industrial do pós-guerra.
Não foi apenas mudança tecnológica. Foi transformação profunda da estrutura social, urbana, demográfica e simbólica do capitalismo contemporâneo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




