Leopoldo Vieira avatar

Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula.

218 artigos

HOME > blog

F. Bolsonaro: do “andar de cima” ao “andar de cima do crime organizado”

Áudio com Daniel Vorcaro desgasta o senador e faz o bolsonarismo perder força com a proximidade das eleições, destaca o colunista Leopoldo Vieira

Flávio Bolsonaro (Foto: Andressa Anholete/Agência Senado)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Candidato preferido de setores financeiros e empresariais que investem na aliança entre liberalismo econômico e direita radical, o senador Flávio Bolsonaro corre o risco de passar a ser identificado, pela propaganda eleitoral, como um nome do chamado “andar de cima do crime organizado”, não apenas do “andar de cima” ou establishment.

O vazamento do áudio entre o senador Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atingiu o coração da campanha de oposição ao aproximá-la do acusado de comandar a maior fraude financeira da história do país, sustentada em ativos associados ao crime organizado, segundo apurações da Polícia Federal (PF).

Como imagem política, o episódio indica a cobrança de financiamento privado para um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro com motivações eleitorais, já que 2026 é um ano de disputa pelo voto, o que sugere a causa política em comum por trás de uma relação pessoal de intimidade.

Embora o impacto possa ser limitado pela dinâmica da polarização e dentro do campo bolsonarista fiel, que resistiu ao lado do líder até nos piores momentos da pandemia de Covid-19, já produz danos entre públicos decisivos para uma disputa apertada: centro, classe média, independentes e indecisos.

A força do bolsonarismo, por sua vez, deve bloquear o advento de uma alternativa capaz de chegar ao segundo turno, pois já existe uma fatia da direita que não votará em Flávio no primeiro, expressa nos resultados de postulantes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado.

GUINAR ‘SETE GRAUS’ A BOMBORDO

O caso marca uma alteração relevante, embora esperada por empresários como Lawrence Pih, no eixo da percepção pública sobre corrupção, ligando diretamente o escândalo ao Centrão e à direita. Em paralelo, a sequência de eventos iniciada pelo encontro entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o americano, Donald Trump, reposicionou rapidamente o petista. Analistas de companhias de risco político projetavam a recuperação dele até julho, movimento que acabou sendo antecipado.

Pesquisas internas de institutos e bancos apontam que Lula pode ampliar em até sete pontos uma vantagem sobre Flávio, em meio à probabilidade de o senador ser atingido por novas revelações envolvendo as relações do clã Bolsonaro com Vorcaro, inclusive sobre financiamentos de origem questionável para atividades políticas nacionais e internacionais do grupo. Ter negado conhecer o dono do Master fulminou sua credibilidade.

Caso essa vantagem se confirme nas próximas pesquisas, ficará nítido que denúncias de corrupção têm potencial para abalar a principal candidatura de oposição para além dos parâmetros atuais da polarização. Isso sugeriria que o presidente avançou mais do que se calculava, até aqui, na disputa pela bandeira anticorrupção.

Para setores empresariais e investidores que resistem à aliança entre liberalismo e conservadorismo, o senador Bolsonaro passou a carregar um risco reputacional para pessoas jurídicas e eleitores de centro, classe média, independentes e indecisos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados