Fascismo continua fascismo
"Devemos, TODXS, nos unir na luta antifascista, sem perdão com os racistas"
Até que ponto o fascismo se reinventa e permanece, no entanto, fascismo? O núcleo duro do fascismo reside na doutrina do "inimigo interno", um outro conveniente para justificar todos os atos brutais de destruição dos direitos e garantias civis. O militarismo, o nacionalismo excludente, o mito e o culto da personalidade - do Führer, Duce, Conductor ou do "Mito" -, o partido-Estado como máquina, a utopia regressiva de uma falsa idade do ouro perdida, todos estes elementos fundamentais ao constructo "fascismo" possuem uma conexão direta com a noção de "inimigo interno".
Historicamente, o povo judeu foi ressignificado contemporaneamente - através da reapropriação do fundo cristão medieval de ódio ao povo dito "Cristocida", embora o domínio da Justiça local fosse romano - como o Outro por excelência vaticinado ao sacrifício. O antissemitismo é, sempre, um alerta do fascismo que avança. Hoje o fascismo continua excludente, homicida e exterminacionista. Judeus continuam sendo o estranho/estranhado/estrangeiro, e por vezes a força do socioleto fascista - dito de forma redutora como "fakenews" -, acaba por contaminar a própria análise social.
Nem mesmo cientistas sociais e historiadores são imunes em face da novilíngua e seu caráter dissociativo da realidade. Em especial aqueles que não unem produção acadêmica com intervenção social, moldando sua atuação para o espetáculo das redes sociais. No entanto, outros grupos sociais foram somados ao núcleo de "inimigos internos", como negros, indígenas e latinos, apontados como os "feios", degenerados, os que comem animais domésticos e transmitem doenças contagiando a raça superior branca. O Brasil é, hoje, um laboratório de experimentação do (neo/pós/)fascismo.
O socioleto fascista busca normalizar o racismo, identificar o outro como a origem do comportamento criminoso e plantar a cizânia no campo antifascista. Ninguém tem a exclusividade da condição de vítima, embora o número de russos, chineses, judeus ou poloneses mereça destaque. Hoje todos que não sejam dolicocéfalos louros de olhos azuis correm o risco do carimbo de "inimigos", portanto aquele que deve ser separado, excluído e, quando possível, exterminado. Temos hoje que ampliar a luta antirracista: não há um racismo índice único ou uma luta específica.
O racismo é uma hidra de mil cabeças. O antissemitismo é um racismo. O "antipretismo", contra negros e pardos, é um racismo. O desprezo genocida aos povos indígenas, como foi feito contra os cinta-larga, os kren-akarore e os yanomamis, é produto do racismo. A Islamofobia é uma forma de racismo e o ódio ao povo LGBT é uma forma de racismo. Não existe, assim, uma luta específica contra "um" tipo de racismo.
Devemos, TODXS, nos unir na luta antifascista, sem perdão com os racistas. Tal luta deve começar nas escolas, nossa última trincheira. A história da escravidão, do genocídio indígena e do Holocausto são temas insuperáveis de uma Educação emancipadora. Ninguém terá um passe de imunidade perante supremacistas brancos ou brancos (auto)imaginários. A luta antirracista é uma tarefa de todos, imediata e sem trégua.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



