Feminismos futuros
Como o feminismo nas universidades passa a projetar futuros e redefinir a produção de conhecimento científico no Brasil
Por muito tempo, falar em feminismo na universidade significava enfrentar o passado e interpretar o presente. Era um trabalho necessário e ainda é. Mas algo começou a mudar silenciosamente nas pós-graduações brasileiras e internacionais. O feminismo deixou de ser apenas um campo de denúncia e interpretação para se tornar também um campo de projeção. Hoje, em diferentes centros universitários, fala-se cada vez mais em feminismos futuros.
Não se trata de futurologia, mas de método de antecipação e reconhecimento.
Essa mudança aparece com nitidez quando observamos como programas de pós-graduação passaram a tratar o feminismo (ampliado e inclusivo) como ferramenta de imaginação institucional. Em vez de apenas mapear desigualdades, esses espaços perguntam: que universidade pode existir depois das políticas afirmativas? Que ciência pode existir depois da colonialidade explicitada? Que tecnologia pode existir depois da neutralidade fictícia dos algoritmos? Que pedagogia pode existir depois da escuta dos corpos historicamente empurrados para fora da cena científica? Não à toa, até o ChatGPT da vovó já informa que “aquela posição” não é neutra, seja ela qual for.
No Brasil, essa discussão ganhou um contexto particularmente interessante nos últimos meses. A segunda edição do Prêmio Mulheres e Ciência, organizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Ministério das Mulheres e o British Council, tornou visível algo que já vinha acontecendo de forma menos perceptível. As universidades públicas federais continuam sendo o principal território de formação e liderança científica feminina no país.
Hoje, mulheres representam cerca de 57% das pessoas com pós-graduação no Brasil. Quando realizei um cruzamento de dados em 2018 e informei que éramos 0,02% de pessoas trans nas universidades, jamais imaginaria os dados de 2026. Somos (mulheres cis e trans) maioria na formação científica e, ainda assim, seguimos enfrentando barreiras persistentes de reconhecimento, permanência e ascensão institucional — sobretudo enquanto pessoas trans inseridas. Quando o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Olival Freire Jr., afirma que a desigualdade de gênero na ciência é um desafio civilizatório, ele não está apenas descrevendo um problema administrativo. Está nomeando uma disputa de futuro, porque é exatamente disso que estamos falando.
Os feminismos futuros não se limitam a ampliar presença numérica. Eles reorganizam a própria ideia de produção de conhecimento. Isso aparece com força quando observamos o crescimento da liderança feminina em grupos de pesquisa, ainda que mulheres negras continuem sub-representadas nesses espaços. A desigualdade, portanto, não desaparece com o aumento da participação. Ela se transforma e exige políticas mais refinadas, interseccionais e permanentes.
Outro deslocamento importante ocorre nas metodologias. A universidade começa lentamente a reconhecer algo que movimentos sociais sempre souberam: imaginar também é produzir conhecimento. Por isso, ganham espaço práticas como ficção crítica, cartografias afetivas, etnografias experimentais e pesquisas baseadas em memória e arquivo vivo. Para quem trabalha com experiências trans, com deficiência, com mídia e com educação, esse movimento tem uma potência particular. Por muito tempo, nossas existências foram tratadas como objetos de estudo. Agora passam a ser tratadas como arquivos de futuro.
Isso altera profundamente o lugar da pesquisa e desloca a produção de quem está entre mundos.
Também não é coincidência que campanhas recentes nas universidades tenham intensificado o enfrentamento ao assédio e à discriminação na carreira científica. Ambientes seguros não são apenas uma demanda ética. São uma condição de possibilidade para que novas agendas de pesquisa existam. Sem permanência, não há futuro científico. Sem cuidado institucional, não há inovação social.
Outro aspecto decisivo dos feminismos futuros aparece na relação com a tecnologia. Pesquisas contemporâneas já discutem inteligência artificial a partir da ética do cuidado, da interdependência e da responsabilidade coletiva. Não se trata apenas de incluir mulheres nos laboratórios. Trata-se de disputar o próprio desenho das tecnologias. Em outras palavras, não basta ocupar o laboratório. É preciso redesenhar o laboratório.
Talvez o ponto mais interessante desse momento seja outro. Os feminismos futuros não são apenas um tema novo dentro da universidade. Eles são uma mudança de posição epistemológica. A pergunta já não é somente como o feminismo explica o mundo. A pergunta passa a ser: como o feminismo ajuda a construir mundos habitáveis?
Isso muda o modo como pensamos políticas de permanência. Muda o modo como pensamos acessibilidade. Muda o modo como pensamos currículo. Muda o modo como pensamos autoria. Sobretudo, muda o modo como pensamos quem pode imaginar o futuro da ciência brasileira, sabendo que algumas de nós nunca foram parte dele.
Há alguns anos, falar de ações afirmativas para pessoas trans parecia um gesto isolado. Hoje sabemos que elas fazem parte de uma reorganização mais profunda da universidade pública. Uma reorganização que não diz respeito apenas ao acesso, mas ao direito de existir como produtora e produtor de conhecimento.
Os feminismos futuros começam exatamente aí: no reconhecimento de que o futuro não é uma abstração distante. Ele já está sendo escrito dentro das salas de aula, dos laboratórios, das redes de pesquisa e das políticas que insistem em ampliar quem pode permanecer na universidade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



