FIFA de joelhos diante do autoritarismo
A Copa corre o risco de entrar para a história não apenas pelos jogos que serão disputados, mas pelo precedente perigoso que está sendo criado fora dele
A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou, mas já está marcada por um conjunto de episódios que envergonham o futebol e colocam em xeque a credibilidade da FIFA. O torneio que deveria celebrar a diversidade dos povos está sendo contaminado por restrições políticas, discriminações e humilhações impostas pelo governo dos Estados Unidos, enquanto a entidade máxima do futebol mundial assiste a tudo em silêncio.
Os problemas começaram antes mesmo do apito inicial. Não se trata de meras dificuldades burocráticas para obtenção de vistos. Há profissionais que tiveram seus vistos negados. Um árbitro da Somália, devidamente credenciado para atividades relacionadas à competição, foi impedido de permanecer no país e enviado de volta para casa. Integrantes de delegações e comissões técnicas de determinadas nacionalidades enfrentam barreiras incompatíveis com o espírito de um evento global. Torcedores iranianos também encontram obstáculos que, na prática, dificultam ou até impedem sua presença nos estádios.
A situação da seleção do Irã é ainda mais absurda. Em dias de partida, a equipe poderá entrar nos Estados Unidos para jogar, mas não poderá permanecer em território norte-americano. Terá de realizar um verdadeiro bate-volta, entrando para disputar os jogos e retornando em seguida. É difícil imaginar demonstração mais explícita de que critérios políticos estão sendo colocados acima dos princípios esportivos.
Também se acumulam relatos de revistas constrangedoras e procedimentos migratórios humilhantes, incompatíveis com o tratamento que se espera a atletas, dirigentes, profissionais credenciados e torcedores que participam de um dos maiores eventos do planeta. Diante de tudo isso, a FIFA deveria agir como defensora da universalidade do futebol. No entanto, escolheu o caminho da submissão.
Ontem à noite participei, em São Paulo, do encontro “Esporte contra a Barbárie – Futebol e a Invenção de Novos Futuros”, promovido pela Red Futuro, organização que reúne dirigentes da esquerda latino-americana e é coordenada por Juliano Medeiros, presidente da Rede/Psol. O debate reuniu diversos atores que pensam o esporte sob a ótica da esquerda e apresentou um conteúdo mais do que oportuno diante dos acontecimentos que já cercam a Copa de 2026. A principal conclusão que emergiu das reflexões é que o esporte jamais pode ser dissociado dos valores democráticos, da inclusão e do respeito à dignidade humana.
A postura da FIFA torna-se ainda mais constrangedora diante da proximidade entre seu presidente, Gianni Infantino, e o presidente norte-americano Donald Trump. A homenagem concedida por Infantino a Trump em nome da paz e da cooperação global, além de um deboche dada a postura cotidiana de Trump, contrasta brutalmente com a realidade enfrentada por participantes da própria Copa. Enquanto alguns são barrados, outros são tratados como suspeitos permanentes e determinadas seleções sofrem restrições inéditas, a FIFA distribui elogios ao responsável por essas políticas.
Sei que a Copa do Mundo é um evento privado. Mas ela não pertence a governos nem a governantes. Pertence aos povos que, ao longo de mais de um século, incorporaram o futebol às suas culturas, às suas identidades e às suas histórias. A FIFA é apenas a administradora temporária de um patrimônio simbólico que pertence à humanidade.
Quando aceita que um governo escolha quem é bem-vindo e quem deve ser tratado como cidadão de segunda categoria, a entidade trai o próprio fundamento de sua existência. O futebol sempre foi maior do que fronteiras e disputas geopolíticas. Ao se curvar às exigências políticas de um governo nacional, a FIFA demonstra que seus discursos sobre inclusão, diversidade e respeito valem apenas enquanto não contrariam interesses políticos e econômicos dos dirigentes de plantão.
A Copa de 2026 corre o risco de entrar para a história não apenas pelos jogos que serão disputados em campo, mas pelo precedente perigoso que está sendo criado fora dele. E, nesse caso, a responsabilidade não será apenas da Casa Branca. Será também de uma FIFA que preferiu ajoelhar-se diante do poder em vez de defender os valores que afirma representar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



