Filipe Luís e o racismo estilo europeu
A sua tão elogiada mentalidade europeia ficou evidente em sua declaração sobre Vinicius Junior, critica Ricardo Nêggo Tom
Quando Filipe Luís, atual técnico do Flamengo, a respeito de mais um caso de racismo sofrido por Vinícius Júnior e cometido pelo jogador argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, declarou que se trata de apenas “um caso isolado” e que a Argentina não é uma país racista, ele ignora os inúmeros episódios de racismo cometidos por jogadores e torcedores argentinos contra os brasileiros. Tanto dentro, como fora dos campos de futebol. Recentemente, uma turista argentina foi presa no Rio de Janeiro, após cometer injúria racial contra o funcionário de um bar em Ipanema. Na ocasião, a mulher – que é advogada – chamou o atendente de “negro” e fez gestos imitando um macaco em sua direção. Foi apenas o caso isolado de número 112.236.452 de agressões racistas de argentinos contra negros na história da humanidade.
Embora tenha jogado muitos anos na Europa, tenha conhecimento de três idiomas, seja considerado intelectualmente diferenciado pela imprensa esportiva brasileira e tenha sido apontado como uma grande promessa de treinador para o futebol do país, Filipe Luís não possui conhecimento histórico. E sem o mínimo de conhecimento histórico, é impossível adquirir consciência social. O mínimo que seja. É óbvio que o técnico do Flamengo não conhece nada da história dos negros na Argentina, e nem sobre as diversas estratégias utilizadas para dizimar a população preta naquele país. Como, por exemplo, o recrutamento massivo e forçado de homens negros para lutar nas guerras pela independência do país. Sobretudo, nas batalhas do Rio Prata, onde tiveram um papel fundamental. Nas guerras da Independência e do Paraguai, negros eram colocados na linha de frente – os chamados “buchas de canhão” – para que fosse os primeiros a serem alvejados e mortos.
O extermínio da população negra na Argentina foi um projeto de Estado. Negros escravizados e libertos foram incorporados ao exército argentino. Os escravizados iam sob a promessa de liberdade, e aqueles já libertos iam sob a promessa de receberem terras e construírem uma propriedade para as suas famílias. A morte em massa de homens pretos causou um grande desequilíbrio de gênero na população preta do país. O que também era uma estratégia do Estado que, posteriormente, obrigaria mulheres negras a se relacionarem como homens brancos visando o branqueamento da população de origem africana na Argentina. A população negra foi expulsa para as partes mais precárias do país, onde passou a ser vítima fácil das epidemias em função das péssimas condições sanitárias que viviam. Assim, os negros foram desaparecendo gradativamente e a Argentina ficou conhecida como o país mais europeu da América do Sul.
No futebol, sempre se questionou o porquê de a seleção nacional não ter um jogador negro. Logo, se convencionou que a Argentina era um país branco. Os nórdicos da América Latina. Aqueles que cultivavam raízes europeias, não querendo ser culturalmente comparados com outros povos da sua região. Como os brasileiros, ao qual os “hermanos” sempre chamavam de “macaquitos”. Foram inúmeras as vezes em que argentinos ofenderam brasileiros em função da cor da pele. A agressão racista sofrida por Vini Jr foi apenas mais uma, entre tantas outras já registradas. Em 2005, o atacante Grafite, do São Paulo, foi chamado de “macaco” pelo zagueiro Desábato, do Quilmes. Na oportunidade, o defensor argentino saiu preso do estádio. Nada que inibisse a ousadia racista de seus compatriotas em terras brasileiras. Em 2018, em pleno estádio de São Januário, a torcida do Racing atirou bananas em direção aos jogadores do Vasco. Ambos os jogos foram pela Copa Libertadores da América.
Ainda em 2018, também pela Libertadores da América, a torcida do Boca Juniors imita macacos em direção aos torcedores do Palmeiras, na partida vencida pelos paulistas por 2x0. O comportamento hostil dos argentinos em relação aos negros é histórico. É quase inerente ao caráter dos cidadãos daquele país. É algo tão naturalmente estruturado, que até a imprensa local costuma se pronunciar de forma racista. Como em 1996, quando o principal jornal esportivo da Argentina, o Diário Olé, trouxe como manchete de capa a pérola: “Que vengan los macacos”, referindo-se ao Brasil e à Nigéria às vésperas da final dos jogos olímpicos daquele ano. O preconceito contra os negros no país é tão natural, que o governo passou a distribuir uma cartilha para os argentinos que vierem ao Brasil, alertando que racismo é crime por aqui. Apesar dos milhares de racistas que nunca foram punidos em nossa sociedade. Todo este contexto histórico aqui descrito de forma resumida, só potencializa ainda mais negativamente a declaração de Filipe Luís. Que eu não vou chamar apenas de infelicidade, mas de cumplicidade.
O estilo europeu do técnico rubro-negro ficou mais evidente no caso de racismo sofrido por Vinícius Júnior. Principalmente, quando ele diz que sempre foi bem tratado na Argentina, que tem amigos argentinos e que não iria generalizar o país em função de um “caso isolado”. Filipe Luís não deve perceber – assim como não percebe que Pedro tem que ser titular absoluto do Flamengo – que o bom tratamento destinado a ele em terras argentinas, se deve ao fato de ele ser branco. Pode ser também que ele normalize o fato de pessoas serem tratadas de formas diferenciadas em função da cor da pele. Dessa forma, ele não irá mesmo se preocupar com o racismo sofrido por quem ele entende que é natural que seja tratado dessa maneira. Indo mais além, a fala de Filipe Luís sugere alguém preocupado com a sua carreira na Europa. Assim sendo, ele não seria burro de criticar o racismo sofrido por Vinicius Júnior, e correr o risco de ver as portas da supremacia racial se fechando na sua cara. O sonho europeu de Filipe Luís não tem tempo para o ativismo antirracista brasileiro. Seria um pesadelo para a sua promissora carreira.
Para a imprensa esportiva brasileira – incluindo muitos jornalistas ditos progressistas - que sempre elogiaram a sua mentalidade europeia e a sua postura fria de um homem do velho continente, e agora se diz espantada com a sua declaração, eu sugiro uma auto análise. Ou vocês gostam do estilo europeu, ou vocês não gostam do estilo europeu. Até porque, ele inclui o racismo em todas as suas áreas de atuação na sociedade. No futebol, um esporte originariamente europeu e que historicamente excluía os negros de suas competições, é que não seria diferente. Todo esse entusiasmo exagerado e débil com o futebol praticado na Europa, tem nos apequenado cada vez mais no cenário futebolístico mundial. O apoio que a imprensa do país vem dando ao processo de colonização do nosso futebol, validando a invasão de técnicos e jogadores estrangeiros no país, e desprezando a nossa essência formadora de craques, também contribui para o racismo no esporte mais popular do Brasil.
Sob a égide da modernização tática e diretiva do futebol, estamos dizendo que aquilo que é nosso e que já nos deu cinco títulos mundiais, não presta. Ah, mas há 24 anos que não ganhamos uma copa. E qual seleção tem facilidade para ganhar Copas do Mundo em sequência ou num curto espaço de tempo entre as competições? Só o Brasil, em 1958, 1962 e 1970. Vejam só que coincidência. Voltando ao racismo contra Vinícius Júnior, e ao estilo europeu de Filipe Luís ao abordar o fato, é preciso que se cobre um posicionamento por parte dos jogadores e técnicos brasileiros a respeito desses acontecimentos. A luta de Vini Jr é quase solitária. Chega a ser angustiante. Seus companheiros de profissão, principalmente, os jogadores da seleção brasileira, não falam absolutamente nada. São raras as exceções, como o francês Mbappé - seu companheiro no Real Madrid – que saem em sua defesa.
Nesse silêncio sepulcral onde jaz os atletas de futebol com relação ao racismo, me chama a atenção a postura do argentino Lionel Messi. Para muitos, um dos maiores de todos os tempos. Nunca o vi falando sobre racismo e nem condenando a postura racista de seus compatriotas. O sujeito sempre me passou a impressão de viver num mundo à parte, só para ele. Alheio a vida real e aos acontecimentos sociais ao seu redor. Com isso, perde a chance de promover uma mudança de mentalidade no seu país. Não sabe (ou não quer) usar a sua representatividade para ajudar na promoção de uma Argentina, e de um mundo menos racista e preconceituoso. Diego Maradona – a quem eu considero muito mais jogador do que Messi – também nunca falou sobre o tema. Em que pese tivesse posicionamentos engajados e progressistas, o racismo nunca esteve em sua pauta. Algo que me leva a concluir que argentino não racista é igual a cabeça de bacalhau. A gente sabe que existe, mas nunca viu.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



