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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Finanças, poder e valores humanos

O objetivo de uma “boa sociedade” deve ser manter e melhorar um sistema financeiro democrático

Finanças, poder e valores humanos (Foto: Agência Brasil )

No livro de Finance and the Good Society, publicado em 2013, Robert Shiller examina a função moral e social das profissões financeiras e defende o sistema financeiro deveria ser uma ferramenta para construir uma sociedade melhor e mais equitativa. O autor detalha diversos papéis, como administradores de investimentos, reguladores e filantropos, enfatizando a necessidade de humanizar e democratizar as instituições.

Shiller analisa como a psicologia humana e as inovações técnicas influenciam crises e comportamentos de mercado, contrapondo a visão da finança como algo elitista. Apesar das falhas, a infraestrutura financeira é essencial para gerir riscos e permitir os indivíduos realizarem objetivos de longo prazo. A educação financeira e o propósito ético são fundamentais para transformar o capitalismo financeiro em um motor de progresso civilizatório.

Nos capítulos finais e no epílogo, Robert Shiller aborda como a estrutura da propriedade, a percepção da agressividade nos negócios e os valores humanos fundamentais moldam a relação entre as finanças e uma sociedade justa.

No Capítulo 29, A Dispersão da Propriedade do Capital, Shiller argumenta a história do capitalismo financeiro ser, em grande parte, uma história de políticas governamentais deliberadas para democratizar o capital, dispersando a propriedade por uma parcela maior da população.Sem a dispersão do controle e da propriedade, a maioria das pessoas se sente como “servos” sob o domínio de uma elite empresarial poderosa e desumana. Como combate à “mentalidade de servo”, ele cita exemplos históricos de dispersão como reformas agrárias (o Homestead Act nos EUA e as reformas na Coreia do Sul). Promoveram a liberdade pessoal e o crescimento econômico ao transformar camponeses em proprietários de terra.Políticas de incentivo à aquisição de moradias (como o New Deal nos EUA ou a venda de habitações públicas por Margaret Thatcher) visavam criar uma “psicologia de mercado” e um sentimento de participação e igualdade na sociedade. A promoção da aquisição da casa própria é a política mais redistributiva de riqueza, embora não pretenda diminuir a desigualdade em termos de pobreza relativa.

Shiller resgata as ideias de Louis Kelso e Mortimer Adler sobre os Planos de Propriedade de Ações para Funcionários (ESOPs). Ajudam a resolver o problema da “lealdade dual” e reduzem a negligência no trabalho ao alinhar os interesses dos trabalhadores com os da empresa.

Ele defende a vigilância contra a concentração excessiva de poder econômico. Sugere limites para o tamanho das instituições financeiras para reduzir o problema do “grande demais para quebrar” e o ressentimento social.

No Capítulo 30, A Grande Ilusão, Ontem e Hoje, o autor traça um paralelo entre o livro de Norman Angell (1910), já dizendo ser uma ilusão acreditar a conquista militar trazer vantagens econômicas, e a crença moderna de as táticas agressivas nos negócios serem lucrativas.

A Ilusão da Agressividade é muitas pessoas acreditarem em as empresas e os ricos terem um incentivo real para subjugar o restante da população por meios desonestos. Embora ocorram lapsos morais, comportamentos agressivos e malignos, geralmente, não são do interesse de longo prazo das instituições, pois geram um ressentimento e este inibe o funcionamento do mercado.

A verdadeira satisfação de vida nos negócios vem da criação de produtos úteis e da cooperação – e não apenas da maximização do lucro. É impossível extrair muita felicidade de uma fortuna acumulada por meios antissociais.

Uma economia financeiramente sofisticada oferece uma saída construtiva para a agressividade humana, substituindo o conflito violento por disputas de poder gerenciadas e pacíficas, dentro de um ambiente dito de “comércio gentil”. As finanças atuam como canalizadoras de agressão.

Shiller cita estudos demostrando a interconexão financeira e comercial entre países reduz significativamente a probabilidade de guerras. Afinal, o custo do conflito torna-se alto demais para todos os envolvidos.

No Epílogo, Finanças, Poder e Valores Humanos, Shiller reconcilia o poder econômico com as aspirações de uma sociedade capaz de respeitar a todos os cidadãos, inclusive imigrantes.Comunidades de negócios podem se comportar como castas excludentes se favorecerem apenas seus membros. No entanto, as finanças democráticas, se bem projetadas, são a ferramenta para quebrar esses privilégios e permitir os outcasts (excluídos) ascenderem socialmente.Baseando-se em Adam Smith, Shiller afirma o impulso humano fundamental não ser apenas alcançar o poder, mas o desejo de ser digno de louvor. As pessoas não querem apenas parecer boas, elas querem ser boas e sentir suas ações serem verdadeiramente valiosas para a comunidade. Este é “o desejo de merecer elogios” (praiseworthiness).

Ele faz uma metáfora sobre como o sistema financeiro humanizou-se. No passado, governos trocavam reféns humanos para garantir acordos. Hoje, usamos garantias (colaterais) financeiras. Embora ainda tenha custos humanos, em casos de execução hipotecária, é uma forma muito mais civilizada de selar compromissos.A ideia central capaz de unir as diferentes partes do livro é o sistema financeiro ser um sistema de processamento de informações construído por unidades humanas. O objetivo de uma “boa sociedade” deve ser manter e melhorar um sistema financeiro democrático, capaz de redirecionar os conflitos inevitáveis e a sede de poder para uma arena pacífica, construtiva e voltada para o bem comum.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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