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Presidente do Bradesco diz que caso Master não traz risco sistêmico

Marcelo Noronha afirma que sistema financeiro mostra resiliência, mas vê 2026 como ano de incertezas com tensão geopolítica e eleições no Brasil

Marcelo Noronha (Foto: Divulgação/Bradesco)

247 – O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que os escândalos envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, não representam um risco sistêmico para o setor financeiro brasileiro, apesar da atenção redobrada do mercado após novos desdobramentos da Operação Compliance Zero. A avaliação foi feita em Davos, onde o executivo participa do Fórum Econômico Mundial, segundo reportagem do Valor.

Noronha evitou comentar diretamente as apurações em curso, mas disse acreditar que a principal consequência do caso deve recair sobre os envolvidos na fraude, e não sobre o sistema bancário como um todo. “Não queria comentar diretamente sobre [o tema]. Tem apurações do Banco Central e da Justiça em andamento ... Eu falar seria uma especulação.”

“O sistema tem mostrado resiliência”, afirma Noronha

Ao tratar do potencial impacto do episódio sobre o setor, o presidente do Bradesco citou precedentes históricos para sustentar a avaliação de que não há risco de contágio sistêmico. “Não vejo um risco sistêmico. Já tivemos outros momentos em que houve uma repercussão pior, a exemplo do Proer [ajuda financeira dada aos bancos nos anos 1990 para evitar um colapso]. Não vejo mácula para o sistema financeiro. Muito pelo contrário. O sistema tem mostrado resiliência.”

Sobre o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), Noronha disse que o mercado ainda aguarda os desdobramentos das discussões sobre a recomposição do fundo e que é preciso esperar a finalização dos estudos conduzidos pela própria entidade.

Questionado se o caso pode ganhar uso político no processo eleitoral de outubro, o executivo afirmou não saber se haverá impacto, mas reconheceu que isso dependerá do avanço e do desfecho das investigações.

Polarização e incerteza eleitoral ampliam a volatilidade, diz presidente do Bradesco

Noronha também avaliou que 2026 tende a ser um ano de difícil previsibilidade, por causa da combinação entre o ambiente externo — marcado por tensões geopolíticas e decisões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — e o quadro interno de polarização política às vésperas das eleições brasileiras.

Na visão dele, a disputa eleitoral deve voltar a ser polarizada, mas ainda sem um nome claramente consolidado no campo da direita. Noronha disse que “ainda não está muito claro” se o senador Flávio Bolsonaro (PL) se firmará como principal candidato do setor, e mencionou que, na Faria Lima, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é visto como favorito. “Por enquanto, não vejo nomes consolidados. Temos de esperar mais um pouco.”

O presidente do Bradesco afirmou que o banco participa de encontros com agentes do mercado e potenciais candidatos para discutir cenários econômicos e políticos, mas ressaltou que esses eventos não são organizados dentro da instituição.

Davos, geopolítica e tarifaço de Trump

No Fórum Econômico Mundial, Noronha disse esperar que as questões geopolíticas sejam o principal tema do encontro, ainda que conectadas à economia e à inteligência artificial. “Vai ser um tema dominante, obviamente. Embora vá se conectar com a economia e inteligência artificial também.”

Ele também comentou os impactos do “tarifaço” de Trump em diversos países, incluindo o Brasil, mas afirmou que prefere uma leitura pragmática sobre os desdobramentos. “Tem muita retórica e a gente vai ver [o desdobramento] com o tempo.”

Emissões no Brasil, captação externa menor e IPOs mais distantes

O executivo afirmou que a volatilidade deve aumentar no segundo semestre por causa das eleições, mas disse ver um cenário positivo para emissões no curto prazo. Ele citou números do mercado doméstico: até novembro, o total acumulado chegou a R$ 630 bilhões, com expectativa de encerrar o ano em R$ 700 bilhões. No exterior, a previsão é de recuo das captações para algo entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões em 2026, após cerca de US$ 36 bilhões em 2024.

“No ano passado, a gente fez boas emissões aqui dentro. O mercado de capitais foi bem aquecido. Vejo os investidores internacionais olhando para a gente com oportunidade naturalmente e de arbitragem, não necessariamente em relação à moeda”, afirmou.

Noronha disse que o Brasil segue atrativo por estar “descontado”, mas apontou o câmbio como desafio para o investidor internacional. “Tem o desafio da moeda, porque, quando você investe aqui, você não consegue fazer um hedge perfeito para dólar.” Ainda assim, citou setores como infraestrutura como áreas em que multinacionais seguem ampliando investimentos, e afirmou que fundos incentivados tiveram forte captação em 2024 e 2025.

Ele também disse acreditar na queda dos juros até o fim do ano e ressaltou que a combinação entre juros em trajetória de redução e volatilidade controlada tende a estimular novas operações. Para follow-ons, Noronha vê espaço, dependendo da qualidade das empresas e do preço. Já os IPOs, segundo ele, continuam mais distantes, porque o mercado ainda não enxerga uma janela firme para aberturas de capital.

Crédito para empresas e consumo das famílias sem “grandes desvios”

No diagnóstico do presidente do Bradesco, empresas saudáveis devem ter mais espaço para crédito, enquanto muitas companhias têm reduzido endividamento. “Acho que a gente tem uma condição muito razoável de solvabilidade dessas empresas. Claro, certos setores sofrem mais, porque uma taxa de juros real como a que a gente tem, de mais de 10% hoje, pode ser um complicador.”

Pelo lado das pessoas físicas, Noronha disse ver um quadro sem grandes desequilíbrios, com massa salarial em alta e desemprego baixo, que pode ficar em 5,5% em sua estimativa. “Tem clusters que já estão inadimplentes, mas no conjunto eu não vejo um desvio de crescimento aqui que seja significativo.”

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