Fiscais do povo em defesa da economia popular
Mobilização popular contra abusos no setor de combustíveis é o caminho para defender a economia e conter práticas criminosas
Confesso que não gosto muito de recorrer à categoria povo, pois ela pode gerar confusões analíticas que comprometam o verdadeiro sentido da construção teórica. Por isso, cabe uma breve definição sobre como a vejo: utilizo-a, neste texto, como um grupo social que compartilha condições de vida semelhantes, experiências históricas, posições na sociedade e interesses comuns. Logo, não se trata simplesmente de pessoas que vivem nas mesmas fronteiras geográficas.
Dito isso, penso que passou da hora de os partidos políticos, os movimentos sociais e sindicais que defendem o povo que trabalha — seja para um patrão presente na empresa, para um que está na bolsa de valores ou mesmo para aquele que está distante, mediado por uma plataforma — e também para aqueles que labutam sendo seus próprios patrões, nos pequenos empreendimentos, chamarem às ruas os seus representados para fazer valer a defesa do país e da economia popular brasileira.
Os inimigos nunca estiveram tão claros. E não falo dos governos dos Estados Unidos e de Israel, que patrocinam essa guerra que só faz sentido para os próprios governantes e seus aliados econômicos. Refiro-me aos inimigos internos. E aqui vale nominá-los com absoluta clareza: distribuidoras, postos de combustíveis e alguns donos de transportadoras.
As distribuidoras aumentam preços sem que a Petrobras tenha elevado os valores nas refinarias ou retêm a entrega, pressionando por aumentos. Os postos estão em uma canalhice criminosa por todo o território nacional, elevando os preços nas bombas sem qualquer justificativa. E as transportadoras — estas já bastante recorrentes em atitudes criminosas, como no apoio ao golpe de Estado bolsonarista — patrocinam movimentos de seus funcionários caminhoneiros e mobilizam suas frotas em mais uma tentativa de bloqueio de estradas.
Todos esses setores econômicos estão cometendo crimes contra a economia brasileira e precisam sentir o peso da lei sobre si. Mas precisam sentir também o calor das vozes daqueles que são os grandes prejudicados pelos absurdos que vêm cometendo. O povo precisa se levantar — e, para isso, precisa ser liderado.
O governo começou a fazer a sua parte. Mas, apesar de alguns diretores da ANP terem compromisso com o país, penso que não há maioria suficiente para fazer valer o importante papel que a Agência poderia exercer, não fosse a captura por uma cultura de defesa do poder econômico. Inclusive, para que as ações da ANP ganhem mais efetividade, é necessário que os principais prejudicados se mobilizem.
Quem sabe, até mesmo, para reverter o processo criminoso de privatização da BR Distribuidora, levado a cabo por Paulo Guedes durante o governo Bolsonaro. E que não venham os haters com o papinho de que estou sendo estatista. Aqui se trata de defender a economia de mercado que muitos dizem defender — e que proíbe exatamente as atitudes que esses atores econômicos estão tomando.
Portanto, não vejo outro caminho para que as políticas adotadas pelo governo federal — de redução de impostos federais e de oferta de recursos para que os governos estaduais reduzam o ICMS — surtam efeito na bomba, se não houver pressão objetiva nas ruas. Ou melhor, nos espaços concretos onde essa disputa acontece: os postos de gasolina.
E alguém precisa liderar esse movimento. E essa tarefa cabe, inevitavelmente, aos partidos políticos de centro-esquerda e esquerda, às organizações dos movimentos populares e aos sindicatos de trabalhadores.
E a hora é agora. Não dá para esperar acontecer.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



