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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Focus aponta inflação acima de 5% em 2025 e Banco Central próximo do fim do ciclo de cortes

A taxa atual de 14,5% é reconhecidamente elevada, mas o Banco Central se vê pressionado a mantê-la diante de expectativas que não convergem para a meta

Vista aérea do Banco Central do Brasil, no Setor Bancário Sul, em Brasília. O Banco Central do Brasil também conhecido pelas siglas BC e BCB ou pelo acrônimo BACEN é uma autarquia federal autônoma integrante do Sistema Financeiro Nacional sem vinculação a nenhum Ministério. Foto: Pedro França/Agência Senado (Foto: Pedro França/Agência Senado)
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O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira, 25 de maio, pelo Banco Central trouxe uma confirmação do que já se esperava: a deterioração das expectativas de inflação. A projeção para 2025 avançou para 5,04%, enquanto a estimativa para 2026 subiu para 4,01% — configurando uma situação incomum em que a inflação esperada para o próximo ano supera a do ano corrente.

O cenário atual é resultado de uma trajetória acidentada. No início de 2025, um choque de alimentos violento e a pressão cambial — com o dólar chegando a R$ 6,00 — produziram uma inflação muito elevada no primeiro semestre. O segundo semestre trouxe alívio, e o ano de 2025 encaminhou-se para encerrar próximo de 4,25%. Para 2026, chegou-se a vislumbrar uma inflação tão baixa quanto 3,6% ou 3,7%, o que alimentou expectativas de cortes mais agressivos na Selic. Esse cenário, porém, foi interrompido pelo choque do petróleo, que persiste até agora com o Brent acima de US$ 100, complicando significativamente o quadro inflacionário.

Com inflação próxima de 3% nos quatro primeiros meses do ano — janeiro, fevereiro, março e abril —, o país chegou momentaneamente perto da meta. Mas o acúmulo de pressões deve elevar o índice para algo próximo de 5% ao longo do ano. Nesse contexto, o mercado já precifica a Selic encerrando 2025 em 13,25% e recuando para 11,25% em 2026. Mais revelador ainda é o horizonte de seis trimestres à frente — o foco da política monetária do Banco Central —, que aponta inflação de 4% ao final de 2027, acima do centro da meta.

Diante desse quadro, o espaço para novos cortes de juros é estreito. É possível que venham ainda alguns ajustes residuais de 0,25 ponto percentual, mas dificilmente o ciclo de afrouxamento avançará muito além disso. A taxa atual de 14,5% é reconhecidamente elevada, mas o Banco Central se vê pressionado a mantê-la diante de expectativas que não convergem para a meta.

Pelo lado da atividade, há uma nota positiva: o monitor de investimentos da FGV sinaliza que o crescimento pode surpreender, com a economia podendo expandir cerca de 2% no ano, impulsionada pelas políticas de transferência de renda. Esse canal de demanda — voltado especialmente à população com renda abaixo de dois salários mínimos — opera de forma independente da taxa Selic, o que explica sua resiliência mesmo em ambiente de juros altos. O consumo segue aquecido por essa via, mas o crédito empresarial sofre: recuperações judiciais se multiplicam e empresas enfrentam sérias dificuldades financeiras.

O quadro ilustra uma tensão estrutural da economia brasileira: o motor de demanda está ativado pelas transferências governamentais, mas a complexidade econômica não avança. O consumo cresce sem que o investimento produtivo acompanhe na mesma proporção — e juros altos desestimulam exatamente esse investimento de maior prazo. A única saída sustentável, como sempre, passa pela elevação da formação bruta de capital fixo, algo que se torna mais difícil quanto mais tempo a taxa de juro permanece em patamares estratosféricos.

Com ano eleitoral à vista, a probabilidade de reversão das políticas de transferência é baixa. O Banco Central, por sua vez, tende a manter postura conservadora para evitar que a demanda aquecida se converta em mais inflação. O cenário mais provável, portanto, é o de uma Selic estável em 14,5% com inflação convergindo para 5% ao fim de 2025 — o que ainda representaria uma queda do juro real, de aproximadamente 10% para 9%.

Nesta segunda-feira, feriado do Memorial Day nos Estados Unidos, os mercados americanos operam fechados, reduzindo o volume de negócios também no Brasil. O mercado de juros futuros e o dólar futuro devem registrar movimentação mais limitada ao longo do dia. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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