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Leonardo Attuch

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.

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Fortalecer o Sul Global é construir a Paz Mundial

O mundo atravessa uma encruzilhada em que se torna cada vez mais visível a tensão entre civilização e barbárie

Fortalecer o Sul Global é construir a Paz Mundial (Foto: CGTN)
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A expressão “Sul Global” costuma designar um conjunto heterogêneo de países e sociedades que, embora situados em diferentes regiões, compartilham experiências históricas de colonialismo, dependência, subalternização tecnológica e assimetrias no sistema internacional. Nesta perspectiva, a noção de Sul Global não é apenas geográfica: é política e normativa. Ela remete a um projeto de reorganização das relações internacionais sob bases de soberania, desenvolvimento e cooperação, deslocando o eixo de decisões de um centro hegemônico para arranjos plurais e multilaterais.

Parto de uma hipótese simples: fortalecer o Sul Global é, no horizonte contemporâneo, uma forma concreta de construir a paz mundial. Em um contexto marcado por conflitos armados, escaladas militares e por uma disputa de cosmologias – visões de mundo em choque sobre a dignidade humana, o direito internacional e a legitimidade do uso da força –, a articulação Sul–Sul pode operar como vetor de contenção da barbárie e de afirmação de um universalismo substantivo baseado em direitos, autodeterminação e cooperação.

Sul Global, paz e a bifurcação do nosso tempo

O mundo atravessa uma encruzilhada em que se torna cada vez mais visível a tensão entre civilização e barbárie. Essa bifurcação não é apenas moral: ela é institucional e comunicacional. Instituições internacionais são pressionadas por veto, seletividade e instrumentalização; ao mesmo tempo, a arena pública global é crescentemente ocupada por narrativas que naturalizam a violência e hierarquizam vidas, como se viu recentemente em Gaza. Diante disso, a agenda do Sul Global assume centralidade como campo de resistência e de construção de alternativas.

Nesse cenário, atos de solidariedade internacional ganham um significado político mais amplo: afirmam a primazia da vida e do direito humanitário acima da lógica de segurança que, não raro, criminaliza a compaixão. O Sul Global, enquanto projeto, depende dessa ética prática e da capacidade de transformá-la em política pública, diplomacia ativa e cooperação duradoura.

Comunicação como infraestrutura de consenso e desenvolvimento

Uma dimensão frequentemente subestimada da disputa contemporânea é a comunicação. No Ocidente, é comum que o debate sobre a China seja capturado por uma chave reducionista centrada na acusação de “censura”. A observação direta de seu ecossistema comunicacional, contudo, sugere uma arquitetura mais complexa: um sistema orientado a metas públicas, com forte capacidade de coordenação e, sobretudo, voltado à construção de consensos sociais, em vez da fabricação sistemática de conflitos.

Essa diferença importa porque comunicação é infraestrutura política. Meios que operam prioritariamente pela lógica de escândalo, polarização e “causas” performáticas tendem a corroer pactos mínimos e a produzir instabilidade social, encarecendo o desenvolvimento e ampliando a desconfiança nas instituições. Por contraste, um ecossistema capaz de articular prioridades coletivas – sem negar a pluralidade, mas reconhecendo a necessidade de coordenação – pode funcionar como mecanismo de coesão social e de orientação para objetivos nacionais de longo prazo.

Essa constatação conduz a uma provocação normativa: se a comunicação é um bem público, seu desenho institucional deveria protegê-la de capturas privadas que subordinam a esfera pública a interesses particulares. Em termos analíticos, não se trata de negar a existência de iniciativas privadas, mas de reconhecer que a dominância do privado na comunicação tende a amplificar assimetrias econômicas na produção de sentidos, influenciando agenda pública e decisões coletivas.

Da cooperação cultural à “cooperação ideológica”

Durante visita recente que fiz à Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), tive contato com uma interpretação relevante sobre a evolução da diplomacia chinesa para a América Latina. A ideia central é que a cooperação não se restringiria ao campo cultural ou acadêmico: ela incorporaria também uma dimensão ideológica. Entendo aqui “cooperação ideológica” como cooperação na produção e circulação de interpretações do mundo: a disputa de narrativas, a afirmação de agendas de desenvolvimento e a construção de legitimidade para um multilateralismo efetivo.

Nesse sentido, a cooperação entre think tanks, universidades e meios de comunicação torna-se estratégica. Ela permite traduzir debates especializados para públicos mais amplos, reduzir assimetrias informacionais e contrabalançar a predominância de enquadramentos produzidos por grandes conglomerados midiáticos do Norte. Em outras palavras, trata-se de criar pontes para que o noticiário internacional seja mais fiel às prioridades do Sul Global, e menos dependente do filtro de interesses geopolíticos externos.

Experiências de diplomacia midiática e redes de parceria

A experiência de cooperação editorial entre veículos brasileiros e chineses oferece um exemplo concreto dessa agenda. Parcerias com meios como Guancha, Diário do Povo, Global Times e Xinhua foram estruturadas para ampliar o intercâmbio de conteúdos e perspectivas. Um desenho simbólico e prático desse movimento é a criação de seções recíprocas: uma seção Brasil 247 em veículo chinês e, de forma correspondente, uma seção chinesa no Brasil 247. A finalidade é clara: reforçar a diversidade de fontes e ampliar o repertório interpretativo sobre temas internacionais.

A diplomacia midiática, nessa chave, não é propaganda. Ela é cooperação institucional para pluralizar o ecossistema informacional e reduzir o monopólio de interpretação exercido por centros hegemônicos. Quando bem desenhada, ela pode promover transparência, ampliar a capacidade de diálogo e sustentar uma opinião pública internacional mais informada sobre os dilemas do desenvolvimento e sobre a busca de paz.

Ações concretas, governança global e integração Sul–Sul

Uma observação adicional diz respeito à ênfase em ações concretas na agenda internacional chinesa. No âmbito de encontros multilaterais, foi anunciada uma Iniciativa de Governança Global baseada em princípios como soberania e multilateralismo, mas com destaque para sua dimensão operacional. Para o Sul Global, o critério de “concretude” é decisivo: não basta formular valores; é necessário convertê-los em mecanismos, projetos, financiamento e cooperação técnica.

Nesse quadro, espaços como a cúpula China–CELAC ampliam a coordenação regional e inter-regional, conectando América Latina e Caribe a agendas asiáticas de desenvolvimento e integração. A consolidação de redes Sul–Sul — econômicas, acadêmicas e comunicacionais — fortalece a autonomia estratégica das regiões e reduz a dependência de canais tradicionais de influência.

A construção de uma paz mundial duradoura, nas condições do século XXI, exige mais do que apelos normativos. Ela requer um campo de forças capaz de defender a vida, o direito internacional e a soberania dos povos contra a naturalização da violência. O Sul Global, enquanto projeto político, pode oferecer esse campo de forças desde que consolide instituições, amplie a integração e desenvolva uma infraestrutura comunicacional capaz de produzir consenso social e sustentar agendas de desenvolvimento.

A experiência de cooperação midiática com a China sugere que a disputa contemporânea passa, cada vez mais, pela capacidade de construir narrativas públicas orientadas a objetivos coletivos. Ao articular universidades, think tanks e meios de comunicação, a “cooperação ideológica” pode complementar a cooperação cultural e acadêmica, pluralizando fontes e fortalecendo o multilateralismo.

Em síntese, fortalecer o Sul Global é construir as condições políticas, institucionais e simbólicas para a paz.

* Este artigo faz parte do livro "China, América Latina e Caribe no Novo Reordenamento Global", lançado nesta semana pela Flacso, no Ipea, em Brasília.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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