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Fiori: derrota dos EUA no Irã acelera mundo multipolar e torna eleição brasileira decisiva para o futuro da América do Sul

Cientista político José Luís Fiori afirma que Washington sofreu uma "rendição humilhante" diante do Irã e alerta para interferência externa nas eleições

José Luis Fiori (Foto: Reprodução (Youtube))
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247 – Em entrevista concedida à jornalista Eleonora de Lucena, do Tutaméia, o cientista político e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Luís Fiori faz uma das mais contundentes análises geopolíticas sobre os desdobramentos da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Para ele, o memorando de entendimento firmado entre Washington e Teerã representa uma derrota histórica da estratégia americana, expõe o fracasso militar israelense e acelera a transição para uma nova ordem internacional, na qual o centro do poder econômico e político continua se deslocando para a Ásia.

Ao longo da entrevista, Fiori sustenta que Donald Trump encerrou um conflito extremamente custoso sem alcançar os objetivos anunciados, avalia que Israel saiu ainda mais fragilizado do confronto, aponta o fortalecimento da China, da Rússia e do próprio Irã e afirma que as eleições presidenciais brasileiras deste ano serão um dos principais campos da disputa geopolítica mundial.

Uma guerra sem vitória para Washington

Para Fiori, o memorando de entendimento representa aquilo que dirigentes israelenses classificaram como uma "rendição vergonhosa e humilhante" dos Estados Unidos. Em sua avaliação, essa caracterização é correta porque Washington iniciou uma guerra sem conseguir justificar plenamente suas razões nem alcançar os objetivos estratégicos que dizia perseguir.

Segundo ele, a promessa iraniana de não desenvolver armas nucleares já havia sido reiterada anteriormente por sucessivos governos de Teerã. Da mesma forma, a reabertura do Estreito de Ormuz apenas restaurou uma situação que havia sido alterada em consequência da própria ofensiva americana.

Na avaliação do professor, os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 40 bilhões, destruíram infraestrutura militar e civil, eliminaram importantes lideranças iranianas e provocaram milhares de mortes para terminar praticamente no mesmo ponto em que estavam antes do conflito. Além disso, afirma que a guerra desorganizou os mercados globais de energia e alimentos e agravou a crise econômica enfrentada pela Europa desde o início do conflito na Ucrânia.

Para Fiori, tratou-se de uma guerra "completamente absurda", que terminou sem produzir ganhos estratégicos proporcionais aos custos humanos, econômicos e políticos envolvidos.

Israel fracassa em sua estratégia histórica

Na visão do cientista político, Israel saiu ainda mais enfraquecido do conflito.

Ele lembra que Benjamin Netanyahu defendeu durante décadas um ataque conjunto entre Israel e Estados Unidos capaz de destruir definitivamente a estrutura militar, política e religiosa do Irã. Apesar da intensidade dos bombardeios e da eliminação de parte da alta cúpula iraniana, nenhum dos objetivos centrais teria sido alcançado.

O governo iraniano permaneceu de pé, o programa nuclear continuou existindo, a capacidade balística foi preservada e a população não rompeu com suas lideranças.

Mais do que isso, segundo Fiori, o Irã terminou a guerra ocupando uma posição estratégica superior à que possuía anteriormente ao assumir o controle militar e econômico do Estreito de Ormuz, elemento que considera decisivo para a derrota estratégica imposta aos Estados Unidos.

Outro ponto destacado pelo professor foi a vulnerabilidade demonstrada pelo sistema israelense de defesa aérea. Segundo ele, drones e novos mísseis iranianos conseguiram romper repetidamente o chamado Domo de Ferro, modificando profundamente os parâmetros militares da região.

Conflito entre Irã e Israel continuará

Apesar do cessar-fogo, Fiori acredita que a rivalidade entre Irã e Israel permanecerá durante muitos anos.

Segundo ele, trata-se de um confronto muito mais profundo do que uma disputa convencional entre Estados nacionais. Há componentes religiosos, históricos e territoriais que impedem uma pacificação definitiva.

Por isso, mesmo que haja um período de relativa estabilidade diplomática, o professor considera que a tensão permanecerá latente e poderá voltar a explodir em novos confrontos.

Trump pode recuar, mas não abandonará a estratégia imperial

Questionado sobre as razões que levaram Donald Trump a aceitar um acordo, Fiori admite que fatores econômicos e políticos podem ter pesado.

Ele observa que Trump costuma avançar agressivamente, mas também sabe reconhecer derrotas quando considera necessário, embora continue apresentando esses recuos como vitórias perante sua base política.

Entretanto, o professor faz uma distinção importante entre os reveses militares e a estratégia global dos Estados Unidos.

Segundo ele, derrotas como as do Vietnã, do Afeganistão e agora do Irã não significam o fim da capacidade imperial americana. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência militar com capacidade de projetar força em escala global e deverão continuar intervindo onde julgarem necessário para defender seus interesses estratégicos.

Nesse contexto, Fiori acredita que Washington poderá intensificar sua atuação em outras frentes, citando explicitamente Cuba e as eleições brasileiras como alvos prioritários da política externa americana.

China emerge como principal beneficiária

Uma das principais teses defendidas por Fiori é que a China foi a grande vencedora indireta da guerra.

Caso um dos objetivos americanos fosse enfraquecer Pequim por meio do conflito no Oriente Médio, afirma o professor, o resultado foi exatamente o oposto.

Segundo ele, os chineses participaram ativamente das negociações que levaram ao cessar-fogo e ampliaram seu prestígio diplomático justamente no momento em que Washington saía enfraquecido militarmente.

Fiori destaca ainda que Donald Trump acabou sendo obrigado a realizar uma visita diplomática à China logo após o acordo, movimento que considera simbólico da nova correlação internacional de forças.

A ordem multipolar ganha velocidade

Para Fiori, ainda não existe um modelo claramente definido de mundo multipolar.

O que está ocorrendo, afirma, é um acelerado processo de fragmentação do antigo bloco ocidental.

Segundo sua análise, a União Europeia atravessa um período de enfraquecimento político, aumentam as divergências entre Europa e Estados Unidos e também surgem tensões inéditas entre Washington e Tel Aviv.

Ao mesmo tempo, o fechamento temporário do Estreito de Ormuz demonstrou que o centro do sistema internacional vem se deslocando progressivamente para a Ásia, especialmente para a China.

Na avaliação do professor, o atual processo de negociação entre Estados Unidos e Irã poderá ser lembrado como uma das primeiras grandes negociações da nova ordem multipolar que está emergindo no século XXI.

Nova revolução militar

Fiori também identifica profundas transformações tecnológicas produzidas pela guerra.

A principal delas seria aquilo que chama de "dronificação" dos conflitos.

Segundo ele, drones relativamente baratos demonstraram enorme capacidade ofensiva e defensiva, alterando radicalmente os custos e a dinâmica das guerras contemporâneas.

Além disso, o professor considera que o uso estratégico do Estreito de Ormuz inaugurou uma nova forma de guerra econômica.

Na sua avaliação, outros pontos de estrangulamento do comércio internacional — como os estreitos de Málaca e Bab el-Mandeb e os canais de Suez e do Panamá — passam a adquirir importância estratégica ainda maior nos futuros conflitos globais.

Irã emerge como potência regional

Na avaliação de Fiori, o mapa geopolítico do Oriente Médio foi profundamente alterado.

O Irã sobe de patamar como potência regional, enquanto Israel vê seu peso estratégico relativo diminuir, apesar de continuar sendo a única potência nuclear da região.

Ao mesmo tempo, os países árabes aliados dos Estados Unidos passam a questionar a eficácia da proteção militar americana, uma vez que, durante os momentos mais críticos da guerra, Washington concentrou seus esforços na defesa de suas próprias bases e tropas.

Mesmo assim, Fiori não acredita que os Estados Unidos abandonarão o Oriente Médio. Sua previsão é de que Washington continuará exercendo forte pressão política, econômica e militar sobre seus aliados e adversários na região.

Europa e Ucrânia

Sobre a guerra na Ucrânia, Fiori avalia que o conflito está longe de terminar.

Segundo ele, a resistência ucraniana depende diretamente da União Europeia e da OTAN, que possuem interesse em prolongar a guerra para reconstruir sua capacidade industrial e militar.

Embora considere que a Rússia esteja próxima de consolidar sua posição no Donbass, o professor afirma que o verdadeiro objetivo estratégico de Moscou sempre foi modificar toda a arquitetura de segurança criada pelos Estados Unidos e pela Europa após o fim da União Soviética.

Nesse aspecto, avalia que Moscou já obteve importantes vitórias estratégicas ao conter a expansão da OTAN e aprofundar a crise política interna da União Europeia.

Brasil será o principal campo de batalha político da América do Sul

Na parte final da entrevista, Fiori faz um alerta sobre as eleições presidenciais brasileiras.

Segundo ele, Donald Trump deverá atuar diretamente para influenciar o processo eleitoral brasileiro, com apoio de grandes grupos financeiros e tecnológicos ligados à extrema direita.

O cientista político afirma que, embora governos conservadores tenham conquistado espaço em vários países sul-americanos, nenhum deles possui relevância estratégica comparável à do Brasil.

Por isso, sustenta que o futuro geopolítico da América do Sul será decidido nas eleições brasileiras.

"De forma muito simples e direta: os países da América do Sul sem o Brasil não têm a menor relevância mundial, nem mesmo para Donald Trump. E, portanto, deste ponto de vista, a grande batalha sul-americana estará sendo travada mesmo é no Brasil, neste segundo semestre. Diria mais, o futuro do continente estará sendo decidido nestas próximas eleições presidenciais brasileiras", conclui José Luís Fiori.

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