“Temos que agradecer a Trump por acelerar a queda do Império americano”, diz Paulo Nogueira Batista Júnior
Economista defende maior autonomia dos países do Sul Global diante dos Estados Unidos
247 – O economista Paulo Nogueira Batista Júnior, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff, afirmou que o segundo mandato de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, está acelerando o declínio da influência global norte-americana e tornando explícitas as tendências imperialistas de Washington. Em entrevista ao canal The Thinkers Forum, Batista Júnior também avaliou que a guerra contra o Irã poderá ser lembrada como um marco histórico na fragmentação da ordem internacional construída sob liderança dos Estados Unidos.
Segundo o economista, Trump rompeu não apenas com normas internacionais que os próprios Estados Unidos ajudaram a criar, mas também destrói o chamado "soft power" norte-americano, um dos principais instrumentos da influência global de Washington ao longo das últimas décadas.
"Temos que agradecer a Trump por acelerar a queda do Império americano", afirmou. Em seguida, observou que o termo "declínio" talvez já não seja suficiente para descrever a situação dos Estados Unidos. "Eu diria que estamos diante da deterioração dos Estados Unidos como força internacional e também como país."
Trump destrói as regras da ordem internacional
Na entrevista, Paulo Nogueira Batista Júnior sustentou que o segundo mandato de Trump representa uma ruptura aberta com a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.
"O segundo mandato de Donald Trump é, mais claramente do que antes, uma tentativa dos Estados Unidos de simplesmente se livrar das regras que eles próprios ajudaram inicialmente a criar", afirmou.
Segundo ele, o governo norte-americano ataca instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), além de desmontar regras financeiras e práticas diplomáticas que sustentavam a influência dos Estados Unidos.
"Agora, a administração Trump não está apenas destruindo as regras, o arcabouço da OMC e as normas financeiras. Também está destruindo o poder brando dos Estados Unidos, que era um ativo extremamente importante em suas relações internacionais."
Para Batista Júnior, essa transformação exige uma mudança de postura dos países do Sul Global.
"Precisamos nos preparar para um novo mundo, no qual as tendências imperialistas dos Estados Unidos já não estão protegidas por véus de hipocrisia nem por camadas de 'soft power'."
Irã e China mostram como resistir à pressão dos Estados Unidos
Embora considere que os Estados Unidos estejam em processo de decadência, o economista ressaltou que Washington continua sendo uma potência capaz de causar enormes danos.
"Os países precisam proteger-se confiando principalmente em seus próprios recursos. Não podemos depender de outros países para nos salvar da agressão imperial dos Estados Unidos."
Ele citou o Irã como exemplo de um país que conseguiu resistir militarmente graças à preparação construída ao longo dos anos.
"O Irã está se defendendo com sucesso, prevalecendo nesta guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel, baseando-se fundamentalmente em seus próprios recursos."
Também destacou a reação chinesa às medidas comerciais adotadas por Trump.
"A China mostrou em 2025 como lidar com um valentão. Respondeu na mesma moeda às agressões comerciais do novo governo americano e, até agora, prevaleceu."
A influência dos Estados Unidos sobre as elites do Sul Global
Paulo Nogueira Batista Júnior afirmou que um dos principais instrumentos de poder dos Estados Unidos continua sendo sua influência sobre parcelas das elites políticas, econômicas e intelectuais de diversos países.
"Os Estados Unidos têm, ou tiveram, uma influência muito grande sobre as elites de outros países, especialmente dos países do Sul Global."
Segundo ele, esse fenômeno é visível inclusive em regiões como América Latina, África Subsaariana e Sul da Ásia.
"Às vezes eu os chamo de quintas-colunas. Pessoas que se identificam tanto com os Estados Unidos que afrouxam seus vínculos com seus próprios países."
Na avaliação do economista, esse fator amplia a capacidade de Washington de exercer influência mesmo em um contexto de perda de poder relativo.
Guerra pode marcar o fim da hegemonia americana
Na avaliação de Paulo Nogueira Batista Júnior, o conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos poderá representar um ponto de inflexão histórico.
"Eles subestimaram o Irã. O Irã havia se preparado muito bem para esse desafio e infligiu pesadas perdas aos países atacantes."
Segundo ele, no futuro esse conflito poderá ser interpretado como o momento em que os Estados Unidos perderam definitivamente a capacidade de exercer hegemonia mundial.
"Em retrospectiva histórica, esta guerra no Oeste Asiático poderá revelar-se um ponto de inflexão em que os Estados Unidos perdem claramente poder e tornam-se incapazes de exercer domínio global."
O economista observou, contudo, que o desfecho ainda permanece incerto.
"Haverá um acordo de paz? Se houver, ele será respeitado? Até que ponto Israel conseguirá minar uma tentativa de acordo entre Estados Unidos e Irã? Todas essas são questões em aberto."
Críticas ao governo israelense
Durante a entrevista, Batista Júnior também responsabilizou o governo israelense pela escalada da instabilidade regional.
Segundo ele, Israel busca consolidar uma posição hegemônica no Oeste Asiático e via o Irã como o principal obstáculo a esse objetivo.
"O primeiro-ministro israelense conseguiu convencer um presidente americano a atacar o Irã."
Na sua avaliação, uma paz duradoura dependeria da contenção das ações do governo israelense.
"A chave para a paz mundial passa por restringir de forma significativa o regime israelense."
Ele acrescentou que Israel se transformou em uma importante fonte de conflitos militares e tem arrastado os próprios Estados Unidos para essas crises.
"O comportamento de Israel tornou-se um problema mundial."
Brasil pode obter ganhos econômicos com a alta do petróleo
Paulo Nogueira Batista Júnior também analisou os efeitos econômicos da guerra. Segundo ele, os impactos são bastante desiguais entre os países.
Na avaliação do economista, nações fortemente dependentes do petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz, como Índia, Japão e Coreia do Sul, tendem a sofrer mais intensamente os efeitos do conflito.
Já países exportadores de petróleo, como Rússia e Brasil, podem registrar benefícios relativos decorrentes da alta dos preços internacionais.
"O Brasil foi o décimo maior exportador de petróleo no ano passado e não depende do Estreito de Ormuz. Em certos aspectos, o país ganha com a melhora dos termos de troca, da balança comercial, das contas externas e das reservas internacionais em função da alta dos preços do petróleo."
Apesar disso, ele advertiu que um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz representaria um risco significativo para toda a economia mundial.
Segundo Batista Júnior, a rápida utilização das reservas estratégicas de petróleo, especialmente pelos Estados Unidos, ajudou inicialmente a conter os preços, mas essa capacidade tem limites.
Na sua avaliação, esse fator explica o interesse demonstrado por Donald Trump em buscar um entendimento com o Irã.
"O forte desejo do presidente Trump de alcançar um acordo com o Irã decorre, em grande medida, desse risco econômico, mesmo que isso signifique fazer concessões importantes aos iranianos e contrariar Israel e o lobby israelense nos Estados Unidos."
Por fim, Batista Júnior afirmou que o êxito de qualquer negociação dependerá sobretudo da postura de Israel, que, segundo ele, continua contribuindo para elevar as tensões na região por meio de suas operações militares no Líbano e em outros países do Oeste Asiático.



