Função de Caiado na eleição é ganhar indecisos para Flávio Bolsonaro
Ronaldo Caiado tem o papel estratégico de ganhar indecisos da direita e transferir votos a Flávio Bolsonaro no segundo turno, analisa a colunista Denise Assis
Na Câmara dos vereadores a movimentação era intensa naquele 17 de outubro de 1989. No plenário os vereadores articulavam as últimas alianças para a votação do impeachment da presidente da casa, Regina Gordilho (PDT). Regina pagou caro pela demissão de cerca de 500 funcionários fantasmas. Lá fora, em tempos em que a Avenida Rio Branco era o centro nervoso do Rio – antes da pandemia e das reformas no trânsito para dar passagem ao VLT -, o ir e vir de transeuntes era o frenesi da hora do almoço. Reunidos no saguão da Câmara, os jornalistas aguardavam o desfecho. De repente um burburinho se transformou em gritos nítidos: “assassino”, “assassino”. Corremos para a porta principal. Em um jipe com a capota arriada, vinha Ronaldo Caiado, acenando.
Naquela época, 1989, a um mês da primeira eleição presidencial pós ditadura (inaugurada em 1964, num dia como hoje, um primeiro de abril), ser de direita era constrangedor. Caiado tinha agravantes. Havia fundado a União Democrática Ruralista (UDR), entidade associativa que visa defender os interesses dos proprietários rurais. As mortes no campo haviam aumentado e Caiado que em Goiás, o seu estado, tinha a fama de durão e esquentado, veio colher no Centro do Rio o que plantou por lá.
Um acidente aéreo acontecido dois anos antes, em 1987, tirou a vida do ministro da Reforma Agrária, Marcos Freire, no retorno de uma viagem em que foi resolver questões agrárias no Pará. A explosão da aeronave nunca foi esclarecida, mas na época a boataria ligava as causas à sigla. Nada restou provado, mas o certo é que Caiado ouviu na Rio Branco os gritos dos que protestavam contra a violência no campo e a investigação inconclusa. A candidatura do ruralista na corrida presidencial pelo PFL (que todos chamavam de Pefelê), não era engolida na Cinelândia, reduto brizolista.
A um mês da disputa, decidida em dois turnos - novembro e dezembro -, que pela primeira vez votava para presidente e o vice, os nervos estavam à flor da pele. Dos 22 candidatos, apenas alguns se sobressaíram e ganharam projeção: Fernando Collor de Melo (PRN), que viria a ser o vencedor, Luiz Inácio Lula da Silva, seu opositor no segundo turno, Leonel Brizola, (PDT), Mario Covas e Paulo Maluf (Progressistas).
Caiado ficou no segundo pelotão. Não empolgou, mas continuou na vida política, e agora volta a tentar (já envolto em lendas, como a do tal cavalo branco que, confesso, se existiu, não registrei na memória). Tem uma função nessa corrida. Levar para a direita pelo menos metade dos 30% dos independentes que as pesquisas identificam como indecisos.
Veio para fingir que bate no Flávio Bolsonaro, mas já chega apresentando como primeiro ponto da campanha, o favorecimento à família: a “anistia ampla, geral e irrestrita”, para o papai.
Apesar da nova roupagem de moderado com que se apresentou, é bom lembrar que ele pegou um avião em seu estado para, ao lado de Claudio Castro, vir ao Rio bater palmas para os seus 122 mortos na matança do Alemão e Vila Cruzeiro. Sua função é tentar abocanhar a fatia de 15% do eleitorado indeciso. Os outros 15% talvez fiquem para o Lula, que já demonstra ter conquistado pelo menos uma parte desse segmento.
Os demais, 10%, são os da fila do mercado, que não estão nem aí para a hora do Brasil. Não votam, não querem saber, não dão acordo de si e nem chegam perto da urna. Preferem dar uma de “esperto”, fazendo o discurso de que “político é tudo igual”, enquanto esperam chegar ao caixa. Aos 76 anos, Caiado sabe que está jogando a sua última cartada. Arregaçou as mangas e foi para o jogo, fazer reserva de votos para Flávio Bolsonaro, no segundo turno. A causa é a mesma. Estão juntos e misturados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



